A história dos regimes políticos não é a história de sua eficiência. É a história de sua sobrevivência. Essa distinção é essencial para compreender Cuba. O país não fracassou por falta de soluções. Fracassou porque as soluções disponíveis ameaçam a estrutura que sustenta o poder. A atrofia política cubana não é um acidente. É um mecanismo de preservação.
Em sistemas abertos, a política é um instrumento para corrigir erros econômicos. Quando a economia falha, o governo perde legitimidade e é substituído. Esse ciclo cria adaptação. O fracasso produz mudança. A sobrevivência depende da capacidade de melhorar as condições de vida da população.
Em Cuba, essa relação foi interrompida. O poder deixou de depender do desempenho econômico e passou a depender do controle institucional. A legitimidade deixou de nascer da prosperidade e passou a nascer da permanência. O regime não precisa prosperar. Precisa apenas impedir o surgimento de forças capazes de substituí-lo.
Esse é o núcleo da atrofia. O sistema político perde sua função adaptativa. Ele deixa de existir para resolver problemas e passa a existir para impedir mudanças que possam ameaçá-lo. Como um músculo que deixa de ser usado, a política deixa de evoluir. Torna-se rígida, defensiva e incapaz de responder aos desafios que ela própria cria.
Essa atrofia se sustenta em três pilares principais. O controle econômico, o controle institucional e o controle psicológico.
O controle econômico é o primeiro e mais visível. O Estado monopoliza os setores estratégicos e limita a iniciativa privada a atividades marginais. Isso impede a formação de uma classe economicamente independente. Em qualquer sociedade, a autonomia econômica é a base da autonomia política. Quem depende do Estado para sobreviver não tem liberdade plena para confrontá-lo. A dependência econômica transforma-se em estabilidade política.
A escassez, nesse contexto, não é apenas uma falha. É também uma ferramenta. Ela reduz a capacidade de organização da sociedade. Populações ocupadas em garantir sua própria sobrevivência têm menos energia para confrontar estruturas de poder. A escassez dispersa a atenção coletiva e enfraquece a coordenação social.
O segundo pilar é o controle institucional. As forças armadas, os tribunais, os meios de comunicação e as estruturas administrativas não existem como entidades independentes. Existem como extensões do próprio regime. Isso elimina a possibilidade de que instituições se tornem centros alternativos de poder. O sistema não possui mecanismos internos capazes de produzir sua própria substituição.
Essa é uma diferença fundamental entre regimes abertos e regimes fechados. Nos primeiros, as instituições sobrevivem aos governos. Nos segundos, as instituições são inseparáveis do próprio regime. Sua função não é equilibrar o poder. É protegê-lo.
O terceiro pilar é o controle psicológico. Nenhum sistema sobrevive apenas pela força. Ele precisa moldar a percepção da realidade. Ao longo de décadas, o regime cubano construiu uma narrativa de resistência permanente. O fracasso econômico não é apresentado como falha estrutural interna. É apresentado como consequência de pressões externas, especialmente do embargo americano.
Essa narrativa cumpre duas funções. A primeira é explicar o fracasso sem atribuir responsabilidade ao regime. A segunda é transformar a sobrevivência em virtude moral. A dificuldade deixa de ser sinal de erro e passa a ser apresentada como prova de dignidade.
Com o tempo, essa narrativa produz um efeito profundo. A população adapta suas expectativas. A ausência de prosperidade deixa de ser percebida como anomalia e passa a ser percebida como condição normal. A expectativa de mudança diminui. A adaptação torna-se uma forma de sobrevivência psicológica.
Existe ainda um elemento decisivo. O regime não precisa convencer toda a população. Precisa apenas impedir que surja uma minoria organizada capaz de substituí-lo. Isso é muito mais fácil. O controle da informação, a vigilância institucional e a fragmentação social reduzem drasticamente a capacidade de coordenação coletiva.
Ao mesmo tempo, o sistema cria uma elite interna cuja sobrevivência depende diretamente da continuidade do regime. Setores militares, dirigentes e operadores estratégicos possuem acesso diferenciado a recursos e privilégios. Essa elite torna-se a principal barreira contra qualquer tentativa de mudança estrutural. O regime não se sustenta apenas pela repressão. Sustenta-se pela distribuição seletiva de benefícios.
Outro fator essencial é o custo da ruptura. O colapso de um sistema político não produz imediatamente prosperidade. Ele produz incerteza. Populações que viveram décadas sob privação desenvolvem aversão ao risco. O medo do desconhecido torna-se um aliado involuntário do sistema existente. A estabilidade imperfeita parece menos ameaçadora do que a mudança incerta.
Além disso, regimes como o cubano aprendem a sobreviver com níveis mínimos de funcionalidade econômica. Turismo, exportação de serviços e apoio externo fornecem recursos suficientes para manter a estrutura operando. O sistema não precisa prosperar plenamente. Precisa apenas evitar o colapso absoluto.
Essa é a lógica central de sua sustentação. O objetivo não é maximizar o bem-estar coletivo. É maximizar a longevidade do próprio regime.
A consequência inevitável é a atrofia política. O sistema perde sua capacidade de adaptação. Ele se torna estruturalmente conservador, mesmo diante de seu próprio fracasso. A mudança deixa de ser solução e passa a ser ameaça.
Esse é o paradoxo cubano. O regime não sobrevive porque funciona bem. Sobrevive porque foi estruturado para sobreviver mesmo funcionando mal.
Mas essa forma de sobrevivência tem um custo invisível. Ela consome o tempo histórico de uma nação. Décadas passam sem que o país explore plenamente seu potencial humano, econômico e intelectual. O sistema não colapsa, mas também não evolui. Ele permanece suspenso entre a sobrevivência e a estagnação.
A verdadeira medida dessa atrofia não está apenas na escassez material. Está na incapacidade estrutural de corrigir o próprio rumo. Um sistema saudável aprende com seus erros. Um sistema atrofiado aprende apenas a sobreviver a eles.
Cuba tornou-se um exemplo dessa condição. Não um regime incapaz de mudar, mas um regime que não pode mudar sem deixar de ser o que é.
Sua maior força é também sua maior limitação.
Analista colaborador do Resumo Política







