A jornalista Andrea Sadi, da GloboNews, fez recentemente uma observação que merece reflexão. Segundo ela, a crescente intolerância a Lula talvez não seja apenas rejeição ao presidente, mas ao sistema político que não consegue entregar o que promete nem renovar a esperança coletiva.
A observação é simples, mas toca numa das engrenagens mais antigas da política: o tempo.
O poder, quando nasce, costuma vir acompanhado de um discurso de austeridade, zelo e compromisso com o interesse público. Governos começam embalados pela expectativa de mudança. Promessas são feitas com convicção, programas são anunciados e a população, muitas vezes cansada de frustrações anteriores, se permite acreditar mais uma vez.
Mas o tempo é o verdadeiro juiz da política.
À medida que os meses passam, a realidade administrativa se impõe. O governante descobre que nenhuma estrutura de poder é capaz de atender simultaneamente todas as demandas que recebe. Grupos pressionam, corporações defendem privilégios, aliados cobram recompensas e opositores ampliam as críticas. O ideal inicial começa a se confrontar com as limitações do mundo real.
É nesse momento que nasce o desgaste.
Promessas que pareciam simples revelam-se complexas. Reformas anunciadas enfrentam resistências. Programas não alcançam os resultados esperados. A imagem pública do governante começa a se modificar lentamente. O que antes era esperança passa a conviver com a dúvida. O entusiasmo inicial se transforma em cobrança.
Esse fenômeno não é exclusivo do Brasil. Ele acompanha a política em praticamente todas as democracias do mundo. O eleitor costuma oferecer ao governante um período inicial de tolerância. É o tempo da expectativa. Depois vem o tempo da avaliação.
E quando a avaliação chega, raramente é benevolente.
A primeira eleição após o início do mandato costuma ser o momento em que o eleitor percebe com maior clareza o que foi promessa e o que se transformou em realidade. É nesse instante que muitos descobrem que parte do entusiasmo inicial estava ancorada mais na esperança do que na efetiva capacidade de transformação.
Foi nesse ponto que, ao longo da minha própria trajetória no serviço público, percebi algo essencial. Nenhum gestor é capaz de atender todas as demandas que lhe chegam. A política cria expectativas muito maiores do que qualquer governo pode entregar.
Quando compreendi isso, tomei uma decisão simples: peguei meu boné e fui atuar em outra freguesia.
Não por desistência, mas por lucidez.
O poder tem ciclos. E reconhecer o momento em que o ciclo se encerra muitas vezes é um gesto de maturidade política.
Nem todos conseguem fazer essa leitura.
Muitos governantes passam a acreditar que o desgaste que enfrentam não é resultado natural do tempo, mas consequência de injustiças, perseguições ou incompreensão da sociedade. Criam narrativas para explicar a perda de apoio e frequentemente deixam de perceber que o fenômeno é muito mais simples: a esperança inicial foi substituída pela comparação com os resultados concretos.
Quando isso ocorre, surge um impulso quase inevitável no eleitorado: a busca pelo novo.
O novo nem sempre significa melhor. Muitas vezes representa apenas a promessa renovada de que algo diferente poderá acontecer. Ainda assim, ele exerce um fascínio poderoso sobre sociedades que se sentem frustradas com o presente.
A política vive dessa alternância permanente entre desgaste e renovação.
É por isso que tantos líderes, mesmo tendo tido momentos de grande popularidade, encontram dificuldades em sustentar sua imagem ao longo do tempo. O capital político se deteriora como qualquer outro ativo quando exposto continuamente às pressões da realidade.
No caso de Lula, há um elemento adicional. Ele não é um governante que surgiu recentemente no cenário político. Ao contrário, sua figura atravessa décadas da vida pública brasileira. Já governou o país por dois mandatos, influenciou diretamente governos posteriores e retornou ao poder carregando uma história política extensa.
Essa trajetória, que já foi fonte de carisma e reconhecimento, passa a conviver agora com outro efeito inevitável: o cansaço.
Uma parte significativa da sociedade brasileira começa a olhar para o mesmo personagem político e enxergar menos novidade e mais repetição. Não se trata apenas de concordar ou discordar de suas posições. Trata-se da sensação de que o ciclo já foi suficientemente experimentado.
E quando essa sensação se instala, a política entra numa nova fase.
O eleitor passa a procurar alternativas. Às vezes essas alternativas são sólidas. Outras vezes são apenas aparentes. Mas o movimento psicológico ocorre de qualquer forma.
É o fascínio do que parece novo.
A história política está cheia de exemplos desse processo. Líderes que pareciam indispensáveis acabaram substituídos quando a sociedade decidiu que precisava abrir uma nova página. Não porque o novo fosse necessariamente superior, mas porque o antigo já não despertava a mesma esperança.
Esse é um dos paradoxos mais profundos da democracia. Ela se alimenta da renovação permanente, mesmo quando essa renovação traz riscos e incertezas.
O tempo do poder raramente perdoa quem ignora seus sinais.
Quando as promessas se desgastam e a esperança se desloca para outros horizontes, insistir em prolongar um ciclo político pode se transformar numa luta contra a própria lógica da vida pública.
A política, afinal, não é feita apenas de projetos e discursos. Ela é feita também de tempo.
E o tempo, como sabemos, é o mais implacável dos adversários.






