Histórias do Velho Capita

Eu era menino, menino. Tinha me submetido ao difícil exame para a Escola Preparatória de Cadetes de Fortaleza. Naquele tempo, em Maceió só havia a Faculdade de Direito. O jovem ingressar na Escola Militar, ser Oficial do Exército ou entrar no Banco do Brasil era o sonho das famílias da classe média. Foi numa noite de festa de rua, na Praça Sinimbu, que Jarbas Bagdá me deu a notícia: Eu havia passado nos exames. Jarbas com o jornal, o Globo, do Rio na mão, mostrou-me a relação. Meu nome ali era a glória, muita emoção, muita vibração. Apenas três candidatos passaram no Estado de Alagoas. Fui correndo para casa dar a notícia. D. Zeca improvisou a maior festa, que durou até altas horas da noite, com amigos e parentes, muita bebida e comida. No final da festa, fui até a Avenida da Paz, andei sem rumo pela praia. A Lua iluminava de prata as águas daquela imensidão do mar. Fiquei a me perguntar: ” O que será?”. Sentei-me no parapeito do coreto, olhando para aquele infinito escuro, apenas a tênue iluminação da Lua, não sei de felicidade ou tristeza, chorei como menino… Estava deixando de sê-lo. Foi o que aconteceu de mais bonita de minha vida… ser menino. Vi o dia amanhecer e fui dormir.
Numa madrugada de março, deixando minha mãe chorosa, meu pai me levou à bela Estação Ferroviária de Maceió. Peguei o trem para Recife juntamente com Rubião Torres e Elio Wanderley, os dois outros alagoanos que passaram nos exames da Escola Preparatória. Partimos no famoso Trem das Alagoas, saiu às seis horas da manhã de Maceió, com chegada prevista no Recife às 18:00 horas, nunca cumprindo o horário.
Escalas incontáveis. Passamos em Bebedouro, Fernão Velho, Satuba, União dos Palmares e mais inúmeras cidadezinhas perdidas nos canaviais de Alagoas e Pernambuco. Nas estações, desciam e entravam novos passageiros, sempre com mala ou saco, o cadeado era um nó. O trem parava o mínimo possível, era o tempo de apreciar os vendedores de frutas, de comidas regionais, uma feira de mangaio: “Olha a manga madurinha. Cavaco, olha o cavaco… Tapioca quentinha feita na hora… Olha a água de quartinha… Chapéu de palha…” Achava interessante aquele comércio ambulante em cada estação, como se fossem as mesmas pessoas, raramente uma novidade nos artigos oferecidos.
Um belo céu azul quase sem nuvem se encontrava com o verde ondulado dos canaviais nos longínquos horizontes. O poeta pernambucano Ascencio Ferreira imortalizou essa viagem com seu poema, O Trem das Alagoas: “Vou danado pra Catende, vou danado pra Catende, vou danado pra Catende com vontade de chegar… Mergulham mocambos nos mangues molhados… Moleques mulatos vêm vê-los passar… Adeus, adeus. Mangueiras, coqueiros. Cajueiros em Bor. Cajueiros em frutos já bom de chupar. Adeus morena do cabelo cacheado… Vou danado pra Catende com vontade de chegar… Cana caiana. Cana roxa. Cana fita. Cada qual é mais bonita. Todas boas de chupar… Vou danado pra Catende, vou danado pra Catende. Já deixei a praia longe… e vem perto outro mar.” Que mar será? Pensava. Viagem cansativa, bancos de madeira dura. Para amenizar, conversávamos. Especulávamos o que haveria de ser, nós três meninos. Mas, no fundo, eu estava com uma saudade tremenda, minha mãe, meu pai, meus irmãos, minha bonita família, meu mundo, minha praia da Avenida. Às vezes a vontade de chorar chegava, olhava o verde canavial no infinito disfarçadamente para enxugar uma lágrima. Era apenas um menino.
Ao Chegar em Recife, embarcamos num navio de Guerra até Fortaleza. 77 jovens de todo o Brasil ingressavam na Escola Preparatória de Fortaleza naquele dia. Era preciso ter raça, ser forte para enfrentar a nova vida. Algumas vezes tive vontade de desistir, mas os colegas incentivavam para terminar o curso, foram seis anos, contando com a Academia Militar das Agulhas Negras de onde me formei tenente do Exército. Depois da formatura os colegas se espalharam pelo Brasil, a maioria seguiu a carreira militar chegando ao generalato, eu deixei o Exército como Capitão. Desde a Escola nos tornamos irmãos. E nesse fim de semana haveremos de nos encontrar e celebrar os 70 anos do ingresso na Escola Preparatória. Serão quatro dias de alegria, muitas histórias, muitas recordações, alguns já se foram, choramos. Ainda sobram veteranos irmãos de armas, conservados no companheirismo, camaradagem, confiança, lealdade, amor e carinho por tantos anos.






