Há momentos em que o problema de um governo deixa de ser a política adotada e passa a ser o exemplo que ele oferece. O Brasil atravessa um desses momentos. O que está em jogo já não é apenas eficiência administrativa ou escolha de prioridades, mas a mensagem silenciosa que se espalha por toda a sociedade: o que é aceitável, o que é tolerável e, pior, o que passa a ser imitado.
Governos ensinam. E quando ensinam mal, a sociedade aprende rápido.
O primeiro sinal desse mau exemplo aparece no mercado de trabalho. A expansão de transferências de renda, sem uma contrapartida clara de inserção produtiva, começa a produzir um efeito perverso: o trabalho perde centralidade como instrumento de ascensão. Não se trata de negar a importância da proteção social, mas de reconhecer que, quando mal calibrada, ela pode distorcer incentivos. Uma economia que gera índices de desempregos enganosos naturaliza a substituição parcial da renda produtiva por renda estatal caminha para um modelo enganoso que privilegia a preguiça e pune a produtividade.
O segundo ponto é ainda mais grave: o crescimento econômico sustentado por gasto público. Quando o PIB cresce impulsionado majoritariamente por despesas do governo, cria-se uma ilusão de prosperidade. O consumo reage, os números melhoram no curto prazo, mas a base desse crescimento é frágil. Não há aumento consistente de produtividade, não há expansão sólida do investimento privado, não há ganho estrutural. O que existe é antecipação de consumo financiada por endividamento público. É crescimento que não se sustenta — apenas adia o ajuste.
E é nesse ponto que surge o terceiro elemento: o desrespeito à lógica da relação dívida/PIB. A expansão contínua do gasto, sem um compromisso firme com o equilíbrio fiscal, empurra o país para uma trajetória perigosa. O aumento acelerado da dívida não é um problema abstrato. Ele se traduz em juros mais altos, menor capacidade de investimento e maior vulnerabilidade a crises. Quando o governo sinaliza que essa trajetória é aceitável, transmite ao mercado e à sociedade a ideia de que o futuro pode ser continuamente comprometido em nome do presente.
Mas o problema não se limita à economia. Ele se aprofunda quando atinge a dimensão moral e institucional do Estado.
A percepção de privilégios no setor público — materializada em salários inflados por adicionais pouco transparentes — destrói a noção de equidade. O cidadão comum, que paga impostos elevados e enfrenta serviços precários, passa a enxergar o Estado como uma estrutura que serve a si mesma. O exemplo que se transmite é devastador: a regra não é para todos.
A corrosão institucional avança, então, de forma silenciosa. Exceções viram prática. Práticas viram cultura.
É nesse ambiente que episódios como o escândalo do Banco Master ganham relevância ampliada. Mais do que um evento isolado, ele passa a simbolizar a perda de referências claras entre o que é público e o que é privado, entre o que é legal e o que é moralmente aceitável. Quando esse tipo de situação encontra tolerância — explícita ou implícita — o efeito é contaminante. Ele não apenas incentiva comportamentos oportunistas, como também desestimula aqueles que ainda buscam agir corretamente. O desvio deixa de ser exceção e passa a operar como alternativa viável.
E quando até os corretos começam a se sentir pressionados a relativizar suas próprias responsabilidades, o problema já ultrapassou a economia. Tornou-se civilizatório.
No campo político, o quadro se completa com a fragilização do papel do Legislativo. A sustentação do poder por meio de alianças amplas e pouco coerentes transforma o Congresso, que deveria ser instância de controle, em peça de acomodação. No Senado, essa distorção se torna ainda mais sensível. A paralisação de pedidos de impeachment, independentemente de seu mérito, projeta a imagem de uma instituição que abdica de sua função constitucional em nome de conveniências políticas.
Quando parlamentares, por receio, dependência ou cálculo, deixam de exercer suas responsabilidades, o efeito é duplo: protege-se o poder circunstancial e enfraquece-se a própria instituição. E, quando esse comportamento se soma a episódios controversos envolvendo relações entre agentes públicos e privados — como no caso Banco Master —, a percepção de conivência ou omissão se intensifica. O resultado é um sistema que já não corrige desvios, apenas os absorve.
O resultado final é previsível: desconfiança.
E a desconfiança corrói tudo. Afasta investimentos, reduz o horizonte de planejamento, enfraquece o espírito empreendedor. A economia desacelera não apenas por falta de recursos, mas por excesso de incerteza. O país deixa de construir e passa a apenas administrar riscos.
Diante disso, o que a sociedade civil espera?
Espera, antes de tudo, uma ruptura com o mau exemplo. Espera que o trabalho volte a ser valorizado, que o crescimento deixe de depender do gasto público, que a responsabilidade fiscal seja tratada como fundamento — não como obstáculo.
Espera que o Estado volte a respeitar a si mesmo, eliminando privilégios e restaurando a ideia de equidade. E espera que as instituições recuperem sua capacidade de agir, em vez de apenas reagir.
Porque o maior risco não é o erro de um governo.
É a normalização do erro como método.
Governos passam. Exemplos ficam.
E são eles que, no fim, determinam se uma sociedade avança — ou se acostuma a andar para trás.







