Desde que o PT apareceu na cena política nacional, acompanho seus movimentos com interesse e inquietação.
No início da redemocratização, aproveitando a insatisfação ainda recente com o ciclo iniciado em 31 de março de 1964, o partido dos trabalhadores, PT, construiu — compreensivelmente do ponto de vista político — um discurso de oposição aos herdeiros daquele período, buscando abrir espaço, dentro da legalidade democrática, para sua atuação sindical e partidária.
Como se sabe, foi bem-sucedido.
O PT passou a ocupar o espaço da oposição num momento em que o PMDB foi percebido como um partido de adaptação permanente aos governos que se estabeleciam. Assim, conquistou parte daqueles eleitores que não enxergavam sinceridade em uma oposição tradicional que raramente se mantinha distante do poder.
Curiosamente, à medida que crescia, o PT buscava absorver outros agrupamentos de esquerda, preservando suas estruturas próprias e mantendo instrumentos partidários capazes de ampliar sua influência política. Mostrou-se sempre um partido que buscava viver em alianças partidárias como agem os sindicatos.
Esse estilo permitiu que Lula — político de origem sindical e habilidade reconhecida para dialogar com demandas diversas — identificasse um caminho para alcançar seu projeto político maior.
O que sempre me chamou atenção foi a percepção de distância entre o discurso eleitoral e práticas adotadas quando o partido ampliava sua presença institucional.
Ao longo desse processo, setores mais ideológicos da esquerda passaram a divergir internamente, enquanto novas alianças compensavam perdas e mantinham volume político.
Entre os episódios frequentemente lembrados por críticos do partido aparecem os casos de Celso Daniel, em Santo André, e Toninho do PT, em Campinas — fatos que até hoje alimentam interpretações políticas e disputas narrativas sobre o período.
No primeiro governo Lula, José Dirceu assumiu papel central na articulação política e com ele vieram os episódios Waldomiro Diniz e Carlinho Cachoeira sinalizando financiamento através de jogo do bicho. Posteriormente vieram denúncias e investigações com Marcos Valério e a denúncias de uso de recursos de comunicação do Executivo e Câmara que culminaram no chamado escândalo do Mensalão.
Nessa fase dizia-se que os pagamentos seriam destinados a obter apoio parlamentar pará aprovação de matérias, tema amplamente investigado e julgado pelo STF.
Mais tarde, durante os governos Dilma Rousseff, vieram novas denúncias relacionadas à Petrobras e financiamentos externos conduzidos pelo BNDES. Utilização de contratos sem licitação, no exterior, com sigilo de até 100 para não identificar preços unitários completamente destoantes das recomendações do Tribunal de Contas para obras no Brasil.
A Operação Lava Jato produziu investigações, acordos de colaboração e condenações que marcaram profundamente o ambiente político nacional. Parte dessas decisões após farta comprovação e devolução de recursos foi posteriormente revista ou anulada por tribunais superiores, para reintroduzir Lula na cena política nacional, sob alegações de incompetências processuais e competência.
Nesse ambiente surgiu Bolsonaro, incorporando o sentimento de grande parcela da população, aos comportamentos de governos petistas anteriores.
Na sua campanha, a tragédia Adélio Bispo – onde uma facada no meio da rua, em plena campanha eleitoral e rude estilo das matas -nunca esclarecida – reforçou o sentimento da nação e elegeu Bolsonaro.
Sua eleição representou, para muitos eleitores, uma expectativa de ruptura com práticas que associavam ao sistema político tradicional, numa campanha em que o povo foi as ruas e carregou seu candidato nos braços passando a nítida impressão de apoio à sua gestão.
Durante o governo Bolsonaro, entretanto, surgiram outros desafios.
A pandemia da COVID alterou prioridades econômicas e fiscais em praticamente todos os países.
Concientes do apoio popular e tentando fugir da pandemia, Bolsonaro, num erro imperdoável, mostrou-se intolerante e ampliou os conflitos entre Executivo, Congresso, Judiciário e parte relevante da imprensa. As consequências produziram um ambiente de tensão institucional que viria prejudicá-lo no futuro.
As emendas parlamentares ganharam protagonismo e passaram a consumir parcelas crescentes do orçamento.
Na visão de seus apoiadores, Bolsonaro buscava racionalizar a gestão, otimizar os recurso, reduzir estruturas e enfrentar práticas antigas da política.
Na visão de seus críticos, ampliou conflitos e criou instabilidade institucional.
Esses embates contribuíram para um cenário eleitoral extremamente polarizado. Assim Bolsonaro foi derrotado e Lula retornou ao governo.
Com seu retorno ao poder, parte dos eleitores enxergou retomada de políticas sociais, ampliação de ministérios e transformação institucional.
Outra parte passou a interpretar o novo governo como repetição e ampliação de práticas que criticava nos ciclos anteriores.
E aqui surge minha dúvida central.
Será que sou a única testemunha desses acontecimentos?
Será que outras pessoas enxergaram essa mesma sequência histórica? Ou as intolerâncias de Bolsonaro são mais ameaçadores ao futuro nacional que os desvios e desencontros de Lula?
A história será indiferente aos verdadeiros registros dos fatos ou fará distinção entre narrativa política e realidade objetiva?
Para onde caminhamos quando instituições, partidos, imprensa e sociedade passam a interpretar os mesmos acontecimentos por lentes tão distintas?
E mais.
Seria surpresa se , mantido esse padrão tolerante de governar, fosse possível evitar o surgimento de padrões privados – tipo Banco Master – para captura institucional e incentivos econômicos levando qualquer sistema democrático a formas de pirataria política e financeira?
Se expressar essas inquietações me trouxer críticas, aceito com serenidade mas não nego meu entendimento ao analisar a história.
Porque tantas pessoas que me pareciam lúcidas e respeitáveis escondem tanto esses acontecimentos e insistem em manter a estratégia Lula com sentença de evolução política brasileira.
Afinal, registrar dúvidas e interpretações também faz parte da experiência democrática.




