Estamos chegando ao fim da linha. No Brasil, poucos vão até os noventa e nossa esperança de viver mais dez anos é muito pouca. Com sabedoria, tentamos curtir a velhice, aproveitando parte da família que ainda nos ama.
A base de uma vida plena é ter passado uma infância feliz, com pais inteligentes que nos ensinaram o caminho do bem. Queremos passar para os mais jovens, experiências saudáveis que nos permitiram chegar nesta fase com tranquilidade e vontade de lutar sempre.
O bairro do Farol, cheio de ruas arborizadas, era um lugar calmo, sem as maldades atuais, por onde andávamos de bicicleta e brincávamos com amigos, conservados até hoje. Frei Egídio e Frei Cassiano foram duas criaturas cultas que ensinavam aos meninos e meninas de uma comunidade chamada Cordígera, o lado bom da vida. O Convento dos Capuchinhos era o local onde nos reuníamos para jogar, cantar e rezar. Dos 9 aos 16 anos vivi tudo isso com intensidade. Era bom demais!
Falar no bonde do Farol que até 1952 conduzia os estudantes do bairro, dá saudades. Desse transporte coletivo saíram médicos, governadores, servidores públicos, juízes, engenheiros, empresários e muita gente importante.
Sábado era dia de feira na Santa Rita. Depois das quatro da tarde íamos conversar e paquerar na Praça do Centenário, comprando bugigangas na feirinha. Tudo muito saudável e respeitoso. Os namoros de então era menos avançados do que os atuais. As mocinhas eram mais recatadas e os rapazes mais pacientes.
Fomos ficando adultos e procurando novas direções profissionais. Como havia poucas faculdades em Maceió, muita gente saía para estudar em Recife, Salvador, Rio ou São Paulo. Alguns não voltavam e casavam por lá. Outros regressavam à terra natal procurando a namoradinha de infância.
Nossa família era numerosa, o pai servidor público e a mãe dona de casa. Os filhos foram crescendo, as dificuldades aumentando e o casal procurando bem orientar os oito filhos.
Maceió possuía dois bairros mais frequentados: o Farol na parte alta e a orla marítima na parte baixa, começando em Jaraguá e indo até Ponta da Terra, nas imediações da hoje Praça Lions. Os clubes sociais ficavam na parte baixa, mas a parte alta era muito frequentada pela existência de vários colégios. Vivíamos numa boa cidade que se desenvolvia rapidamente.
Um grande problema era a política. Havia muita violência e funcionava o Sindicato do Crime, dividindo os políticos em lados opostos. Não havia, contudo, tanta corrupção. As eleições não funcionavam, com votos comprados. Existiam grupos políticos de várias regiões e ai daquele que invadisse o território do outro em busca de votos. Houve várias mortes!
As classes sociais eram bem distintas e funcionavam pela seleção dos colégios, dos bairros e pela profissão dos pais. O ensino público era valorizado e os professores catedráticos. De repente, os governantes deixaram de investir nos bons colégios do Estado e do Município e o ensino particular cresceu.
Para o jovem fazer vestibular na década de 50, não precisava de cursinho. No máximo o pai contratava dois professores particulares, sendo os mais conhecidos o Professor Benedito Morais em matemática e o Professor Donizeti Calheiros em português; e os jovens passavam para o ensino superior.
Cresci ouvindo o conselho paterno: “Herança de pobre é o estudo”! Havia concursos e empregos públicos bem remunerados. Valia apena ser funcionário do Banco do Brasil ou Banco do Nordeste
No lar aprendíamos a respeitar pai, mãe e os idosos. Os filhos mais velhos cuidavam dos mais novos. Como fomos casando e saindo de casa, os últimos tiveram uma vida melhor, fato um pouco prejudicial na educação familiar.
Com a chegada dos agregados, tudo mudou. Eram novas famílias que se juntavam à nossa e foi necessária muita adaptação. Mas aprendemos bastante com eles. Sofremos um pouco com atitudes fortes de um lado e descobrimos que nem tudo são flores!
Vida que segue…
* É aposentada da Assembleia Legislativa.
Alari Romariz Torres *
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