O debate econômico no Brasil continua preso a slogans. De um lado, a promessa de erradicar a pobreza. De outro, o alerta sobre inflação e dívida. O problema é que, sem uma ponte clara entre esses dois polos, a conta não fecha — e quem paga é o próprio crescimento.
O governo Lula opera hoje numa estratégia híbrida: aceita o regime de metas de inflação e a autonomia do Banco Central, mas aposta na expansão do gasto, no crédito público e em políticas de transferência para sustentar a atividade. Não é um “modelo teórico” coeso; é um arranjo pragmático. E, como todo arranjo, precisa de amarras para não se desfazer.
A primeira pergunta é direta: de onde vem o crescimento?
Transferência de renda ajuda a sustentar consumo no curto prazo, mas não substitui investimento nem ganho de produtividade. Sem aumento consistente de produtividade — via educação, infraestrutura, inovação e ambiente de negócios — o impulso inicial se esgota e reaparece na forma de inflação ou de déficit.
A segunda pergunta é qualidade do gasto.
Gastar mais não é o mesmo que gastar melhor. Programas mal focalizados, subsídios pouco transparentes e crédito direcionado sem critérios claros podem até acelerar a economia por um tempo, mas deixam um rastro de baixa eficiência e pressões fiscais futuras. A diferença entre política social sustentável e populismo fiscal está no desenho e na avaliação contínua dos resultados.
A terceira é credibilidade fiscal.
Sem uma âncora crível — metas que o mercado e a sociedade acreditem que serão cumpridas — o prêmio de risco sobe. Isso encarece juros, trava investimento privado e corrói exatamente o crescimento que o gasto pretendia estimular. A aritmética é implacável: dívida crescente exige juros mais altos; juros mais altos inibem investimento; menos investimento reduz crescimento e arrecadação.
Há ainda a tensão com a política monetária. Quando o fiscal expande sem convicção de sustentabilidade, o Banco Central tende a compensar com juros mais altos para proteger a inflação. O resultado é um jogo de empurra em que o estímulo de um lado é neutralizado pelo aperto do outro — e o país cresce menos do que poderia.
Nada disso significa abandonar políticas sociais. Significa amarrá-las a uma estratégia de geração de riqueza. O caminho passa por escolhas menos visíveis e mais difíceis: simplificação tributária com neutralidade, segurança jurídica, redução de custos de contratação, integração a cadeias globais, investimento em capital humano e infraestrutura com retorno mensurável. É aí que o crescimento deixa de ser episódico e vira tendência.
A provocação necessária é simples:
o governo está aumentando o consumo ou está ampliando a capacidade de produzir?
Sem a segunda perna, a primeira cobra a conta — em inflação, juros e dívida.
Erradicar a pobreza é um objetivo legítimo. Sustentá-la ao longo do tempo exige algo menos popular, porém decisivo: produtividade, investimento e disciplina fiscal. Sem isso, a promessa vira ciclo curto — e o ciclo curto nunca resolve um problema longo.







