Durante décadas o Brasil produziu craques como quem produzia vento nas praias do Nordeste. Surgiam naturalmente. Um saía, outro aparecia. Quando Pelé envelheceu veio Zico. Depois vieram Romário, Rivaldo, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Kaká. O futebol brasileiro parecia possuir uma fábrica invisível de gênios capazes de transformar partidas em espetáculo e jogadores comuns em figurantes.
Hoje o país olha para Neymar como quem olha para a última grande lâmpada acesa de uma velha avenida.
A discussão sobre sua convocação já não é apenas esportiva. Tornou-se um retrato melancólico da transformação do futebol brasileiro e talvez da própria sociedade. Neymar continua convocável não apenas pelo que ainda joga, mas porque o Brasil deixou de fabricar substitutos completos para ocupar o lugar simbólico que ele representa.
Fisicamente, o futebol moderno tornou-se brutal. A intensidade europeia transformou o jogador em uma espécie de atleta híbrido entre corredor olímpico, lutador e maratonista. O espaço para o improviso diminuiu. O drible curto virou risco estatístico. O futebol passou a ser cada vez mais controlado por números, mapas de calor, recomposição defensiva e pressão coordenada.
Nesse novo ambiente, Neymar sobrevive como uma espécie de sobrevivente de outro tempo. Ainda carrega a irreverência do drible brasileiro, a pausa inesperada, o gesto técnico que rompe a lógica matemática do jogo. Por isso provoca fascínio e irritação ao mesmo tempo. Em um futebol cada vez mais mecânico, Neymar continua humano demais como o drible que fascina o torcedor saudoso.
Mas existe algo ainda mais importante.
Seleções nacionais não vivem apenas de desempenho técnico. Vivem também de hierarquia psicológica. Em momentos decisivos os jogadores procuram alguém que assuma emocionalmente o controle do caos. A Argentina encontrou isso em Messi. Portugal viveu isso com Cristiano Ronaldo. A França encontrou em Mbappé um novo centro gravitacional.
O Brasil ainda não encontrou completamente esse novo eixo.
Vinicius Jr talvez seja hoje o jogador brasileiro mais decisivo do mundo no futebol de clubes. Rodrygo é sofisticado. Endrick representa futuro e potência física rara. Mas nenhum deles ainda ocupa o imaginário coletivo que Neymar ocupa há mais de uma década.
E isso revela uma mudança profunda do futebol brasileiro.
O Brasil continua produzindo excelentes atletas para o mercado europeu, mas passou a formar menos líderes técnicos, menos articuladores, menos jogadores capazes de controlar emocionalmente uma partida. O futebol brasileiro tornou-se eficiente, veloz e competitivo. Mas perdeu parte daquela personalidade caótica e criativa que o transformava em algo único no planeta.
A própria formação de base mudou. Antes surgiam jogadores moldados no improviso das ruas, das praias, dos terrenos irregulares, do futebol sem treinador e sem planilha. Hoje a formação começa cedo dentro de sistemas organizados, disciplinados e padronizados. O jogador brasileiro moderno chega mais preparado fisicamente à Europa, mas talvez chegue menos imprevisível.
Neymar aparece então como a última ponte entre dois mundos.
De um lado o futebol brasileiro artístico, irreverente e emocional. Do outro o futebol industrializado, globalizado e controlado por algoritmos esportivos.
Por isso sua convocação nunca é apenas uma decisão técnica. Ela mistura esperança, memória, marketing, carência de liderança e até nostalgia coletiva.
A pergunta verdadeira talvez não seja se Neymar ainda merece vestir a camisa da Seleção.
A pergunta talvez seja mais desconfortável:
o que aconteceu com o país que antes produzia um novo camisa 10 a cada geração e agora vive à espera da recuperação física de um único jogador?
Talvez Neymar seja menos o problema.
Talvez ele seja apenas o último sobrevivente de um futebol brasileiro que já não existe completamente.




