Foi em 1954, ainda em Arapiraca, entre peladas e idas ao campo do ASA, que tive os meus primeiros contatos com o futebol profissional. Eu era apenas um matutinho de 9 anos, mas já sentia que havia algo de mágico naquele esporte capaz de mobilizar multidões, provocar lágrimas, gerar esperanças e unir pessoas das mais diferentes origens.
Naquele ano, a Copa do Mundo da Suíça encantou o planeta e chegou no super-rádio do Tonho Ferreira. A Alemanha conquistou o título, numa das maiores surpresas da história do futebol, ao derrotar a poderosa Hungria na final. Mas, para muitos apaixonados pelo esporte, quem realmente conquistou os corações foi a seleção húngara. O mundo se rendia aos gols de Kocsis, à genialidade de Puskás e ao futebol envolvente de uma equipe que parecia jogar uma arte diferente.
O Brasil ainda buscava seu lugar entre os gigantes. Mas já havia sinais de que algo especial estava nascendo. Castilho, Djalma Santos, Nilton Santos, Didi, com sua elegância e inteligência, Julinho Botelho, com sua habilidade pelos lados do campo, Baltazar o cabecinha de ouro, indicavam que o futebol brasileiro possuía talentos capazes de enfrentar qualquer adversário do mundo.
Entretanto, foi em 1958 que minha paixão deixou de ser curiosidade para se transformar em amor definitivo.
Eu tinha apenas 13 anos.
Maceió vivia o clima da Copa do Mundo da Suécia. Os televisores eram raridade, e assistir a uma partida da seleção brasileira era um acontecimento coletivo. Lembro-me de estar na Rua Dias Cabral – turma da Praça Deodoro -calçada de Zé Luiz e Bandeira, rádio na janela, bolão na mão, cerveja no isopor ao lado de outros jogadores do CSA e Flamengo Futsal, todos acompanhando com atenção e orgulho a trajetória de um dos seus colegas: Dida, titular da seleção brasileira – Pelé era seu reserva.
Naquele ambiente simples, entre amigos, jogadores e torcedores, aconteceu algo que jamais esqueci.
Sem esquecer os talentos de Djalma e Nilton Santos, Orlando Peçanha, Garrincha e Didi, vi nascer Pelé.
Não o homem, mas o mito.
Até então, era apenas um garoto de 17 anos vindo de Bauru. De repente, diante dos olhos do mundo, transformou-se em algo maior. Seus gols, sua coragem, sua criatividade e sua alegria mudaram para sempre a história do futebol.
Na semifinal contra a França e, sobretudo, na final contra a Suécia, Pelé mostrou que o impossível podia se tornar realidade dentro de um campo. O gol em que mata a bola no peito, a levanta sobre o marcador e conclui com precisão permanece até hoje como uma das imagens mais belas do esporte mundial.
Naquele instante, não era apenas Pelé que surgia.
Era o Brasil.
Um país ainda pobre, distante dos grandes centros mundiais, passava a ser reconhecido pela excelência de seus jogadores, pela criatividade de seu povo e pela beleza de seu futebol.
A conquista de 1958 representou muito mais do que um título esportivo. Ela ajudou a construir a autoestima nacional. Pela primeira vez, milhões de brasileiros sentiram que podiam ser os melhores do mundo em alguma coisa.
Eu estava lá, em Maceió, vivendo aquele momento ao lado de pessoas que respiravam futebol. Talvez sem perceber, eu também estivesse sendo transformado.
Desde então, nunca mais abandonei essa paixão. Até tentei seguir mas a Engenharia me cooptou.
Ao longo das décadas, acompanhei a magia de Garrincha, a inteligência de Didi, a elegância de Gérson, a liderança de Carlos Alberto, os gols de Romário, a genialidade de Ronaldo, o talento de Ronaldinho, Zico, Neymar e tantos outros que ajudaram a escrever a história do futebol brasileiro.
Vi vitórias inesquecíveis e derrotas dolorosas. Vibrei, sofri, comemorei e discuti futebol como fazem milhões de brasileiros.
Mas, quando procuro a origem de tudo isso, minha memória sempre retorna àquele menino de 13 anos, na Rua Dias Cabral, um rádio na janela e cercado por jogadores do CSA, a calçada sombreado de Zé Luiz e Bandeira, Bá, Secura, Veiga, Dudu, Ionildo, Gerônimo, Zanelio, Lula Boi, Boleado, Clovis, Edson Ceguinho, Lui Alves, todos unidos na torcida por Dida. Naquele dia, comemoramos sem qualquer ciúme o nascimento de Pelé — não para a vida, mas para a eternidade.
Foi ali que descobri que o futebol era muito mais do que um jogo.
Era um bálsamo para a alma.
Era um sonho coletivo.
Era a prova de que, por noventa minutos, ricos e pobres, jovens e velhos, podiam compartilhar a mesma emoção.
E talvez seja exatamente por isso que, passadas tantas décadas, continuo carregando comigo a mesma paixão daquele menino pobre que, numa tarde de 1958, ouviu pelo rádio o Brasil conquistar o mundo e decidiu nunca mais se afastar do futebol.
Porque Pelé surgiu naquele dia para a glória do esporte, mas o futebol entrou definitivamente na minha vida para nunca mais sair.






