A credibilidade de um veículo de comunicação não é medida pela quantidade de informações que divulga, mas pela disposição de aplicar o mesmo rigor a todos os temas, personagens e instituições. É exatamente nesse ponto que surgem as críticas cada vez mais frequentes à TV Globo.
Uma parcela crescente da sociedade percebe semelhanças entre a cobertura política e a cobertura esportiva da emissora. Na política, críticos enxergam uma postura mais complacente em relação ao governo Lula do que a observada com lideranças da oposição. No esporte, apontam uma tendência a suavizar problemas da Seleção Brasileira e da CBF, preservando uma atmosfera de otimismo mesmo quando os resultados em campo não a justificam plenamente.
Em ambos os casos, a acusação é semelhante: a narrativa teria passado a ocupar espaço maior do que os próprios fatos.
Durante décadas, a Globo construiu sua força pela capacidade de definir a pauta nacional. O que aparecia em seus telejornais tornava-se assunto do país. O que não recebia destaque frequentemente desaparecia do debate público. Esse poder foi decisivo na formação da opinião de gerações inteiras de brasileiros.
Mas o cenário mudou.
As redes sociais, os canais digitais, os podcasts e os comentaristas independentes quebraram o antigo monopólio da interpretação dos acontecimentos. O cidadão passou a ter acesso simultâneo a múltiplas versões dos mesmos fatos. O que antes era percebido como verdade única passou a ser confrontado por diferentes leituras.
Quando um governo acumula déficits crescentes, dificuldades econômicas, promessas descumpridas e denúncias de corrupção, parte da população espera uma cobertura investigativa permanente. Quando essa cobertura parece menos agressiva do que em momentos anteriores, surge inevitavelmente a suspeita de proteção política.
O mesmo fenômeno pode ser observado no futebol.
Há anos o torcedor brasileiro escuta discursos sobre renovação, competitividade e preparação para a conquista do hexacampeonato. Entretanto, dentro de campo, os resultados frequentemente contradizem o entusiasmo das transmissões. A Seleção passou a acumular atuações burocráticas, dificuldades contra adversários médios e derrotas diante das principais potências do futebol mundial.
Mesmo assim, a narrativa predominante continua sendo a da esperança permanente.
O problema não está em torcer pela Seleção. Nenhum brasileiro exige neutralidade emocional absoluta de narradores ou comentaristas. O problema surge quando o jornalismo esportivo começa a se comportar como departamento de marketing daquilo que deveria analisar criticamente.
Ao suavizar deficiências técnicas, evitar críticas mais duras à CBF, minimizar problemas estruturais e tratar derrotas recorrentes como simples acidentes de percurso, a cobertura deixa de oferecer ao torcedor uma avaliação completa da realidade. Em vez de informação, passa a entregar expectativa.
A recente relação da imprensa com Carlo Ancelotti ilustra essa questão. O treinador chegou cercado por enorme prestígio e expectativas, algo compreensível para um dos técnicos mais vitoriosos da história do futebol. O que chama atenção, entretanto, é a escassez de críticas proporcionais a decisões discutíveis observadas em campo.
Erros de convocação e escalação, escolhas táticas questionáveis e o aproveitamento de jovens jogadores em funções distintas daquelas que os consagraram em seus clubes geraram debates entre torcedores e analistas independentes. Ainda assim, grande parte da cobertura preferiu enfatizar a expectativa de sucesso futuro em vez de examinar os problemas do presente.
Ancelotti precisa compreender que o prestígio acumulado na Europa não elimina a necessidade de prestar contas ao torcedor brasileiro. O respeito à sua trajetória não pode substituir a análise crítica de seu trabalho atual.
O erro faz parte do futebol. O silêncio diante do erro é que deveria causar preocupação.
A explicação para esse comportamento pode ser simples. A esperança vende mais do que a frustração. Uma Copa do Mundo movimenta bilhões de reais em publicidade, patrocínios, direitos de transmissão e audiência. Não é comercialmente atraente transformar o principal produto esportivo do país em uma narrativa de fracasso anunciado.
É mais rentável vender a promessa da glória do que discutir as razões da decadência.
Essa lógica comercial encontra um paralelo interessante na política.
Governos necessitam de estabilidade narrativa para preservar apoio popular. Grandes grupos de comunicação necessitam de estabilidade institucional para preservar influência, acesso e negócios. Nem sempre isso significa alinhamento explícito. Muitas vezes trata-se apenas da convergência natural de interesses.
Guardadas as diferenças históricas, alguns observadores enxergam na Globo um papel semelhante ao que a Igreja Católica exerceu durante longos períodos da história brasileira: uma instituição capaz de influenciar percepções coletivas, legitimar determinadas interpretações dos fatos e moldar consensos sociais. Não governa diretamente, mas influencia significativamente a forma como milhões de pessoas enxergam a realidade.
O resultado desse processo pode ser chamado de desinformação por omissão.
Não se trata necessariamente de divulgar notícias falsas. Trata-se de selecionar fatos, graduar relevâncias e construir enquadramentos capazes de conduzir o público a determinadas conclusões sem recorrer à mentira explícita. Em muitos casos, aquilo que não é dito pode produzir efeitos tão relevantes quanto aquilo que é divulgado.
Mais grave ainda é o impacto da ausência de crítica sobre a correção dos erros.
Quando a imprensa evita apontar falhas, seja na condução de um governo, seja no desempenho de uma seleção nacional, ela deixa de cumprir uma de suas funções mais importantes: servir como mecanismo de alerta para a sociedade.
A crítica fundamentada não existe para destruir reputações. Existe para corrigir rumos.
Governos ajustam políticas quando os problemas são expostos. Instituições reformam práticas quando suas falhas se tornam públicas. Clubes, federações e seleções corrigem estratégias quando os erros são identificados e debatidos.
Ao suavizar equívocos ou minimizar fracassos, a imprensa não protege a população nem o esporte. Apenas prolonga problemas que poderiam ser enfrentados mais cedo e com menor custo.
A perda da exclusividade da Copa pela Globo ajuda a explicar o momento atual. Durante décadas, a emissora não apenas transmitia os jogos; também influenciava quase sozinha a narrativa construída em torno deles. Hoje, a concorrência de novas plataformas tornou muito mais difícil sustentar versões únicas dos acontecimentos.
O mesmo vale para a política. A internet não eliminou os vieses da imprensa tradicional, mas reduziu sua capacidade de monopolizar interpretações. O cidadão passou a comparar fontes, confrontar versões e perceber divergências que antes permaneciam invisíveis.
Talvez a principal pergunta não seja se a Globo protege governos ou exagera o otimismo em torno da Seleção. A questão central é outra: quem fiscaliza os fiscalizadores?
Quando a imprensa abandona a crítica para preservar relações políticas, interesses econômicos ou estratégias comerciais, enfraquece sua própria razão de existir. O jornalismo nasceu para iluminar problemas, não para administrá-los. Nasceu para confrontar versões oficiais, não para acomodar-se a elas.
Uma democracia saudável precisa de governos responsáveis, instituições sólidas e uma imprensa livre. Mas precisa também de uma imprensa corajosa.
Porque a liberdade de imprensa não é um privilégio dos jornalistas. É o direito da sociedade de conhecer os fatos sem filtros convenientes.
Quando a narrativa passa a valer mais do que os fatos, a crítica é substituída pela conveniência e o marketing ocupa o lugar da análise. Nesse momento, a sociedade perde uma de suas principais ferramentas de correção de rumos.
E quando os erros deixam de ser apontados, acabam sendo repetidos.






