As sanções impostas pelo governo Donald Trump contra pessoas acusadas de integrar a estrutura financeira do Primeiro Comando da Capital (PCC) produziram um efeito que vai além da repressão ao crime organizado. Elas também colocaram sob os holofotes a postura do governo brasileiro diante de uma das maiores ameaças à segurança pública nacional. O que mais chamou atenção não foi apenas a ação de Washington, mas o silêncio quase absoluto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O contraste é inevitável. Lula costuma reagir com rapidez e firmeza quando considera que seus interesses eleitorais foram atingidos. Entretanto, diante de uma iniciativa voltada ao estrangulamento financeiro de operadores ligados ao crime organizado, a retórica desapareceu. O silêncio substituiu o discurso.
Esse comportamento alimenta um debate político legítimo. Afinal, por que um governo que frequentemente denuncia ingerências externas evita comentar uma medida que, em tese, atinge diretamente uma organização criminosa responsável por violência, tráfico de drogas e lavagem de dinheiro?
Uma explicação possível é o peso da máquina financeira americana. A força do dólar e das sanções do OFAC – Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros – tornou politicamente arriscado qualquer confronto aberto. Outra leitura, porém, é mais incômoda: o governo parece receoso de adotar um discurso de enfrentamento contundente ao crime organizado que possa contrariar setores de sua própria base política ou comprometer narrativas construídas ao longo dos últimos anos sobre segurança pública.
Essa percepção é reforçada por críticas recorrentes da oposição, que acusa o governo de tratar o combate às facções com menor prioridade do que outros temas políticos. Ainda que essa acusação seja objeto de disputa, o silêncio do Planalto acaba oferecendo espaço para que ele ganhe força perante a opinião pública.
Governar exige escolhas. E, na política, até o silêncio comunica prioridades. Quando um presidente se manifesta sobre conflitos internacionais, eleições estrangeiras e temas geopolíticos diversos, mas evita comentar uma ofensiva internacional contra a estrutura financeira de uma das maiores facções criminosas da América Latina, a ausência de posicionamento inevitavelmente produz interpretações.
Não cabe afirmar, sem provas, que exista qualquer alinhamento entre o governo e organizações criminosas. Tampouco seria responsável sustentar que o silêncio decorra de um acordo ou de uma estratégia deliberada para obter apoio político dessas organizações. Contudo, é legítimo questionar se a ausência de uma condenação pública firme contribui para transmitir à sociedade uma imagem de complacência diante da expansão do crime organizado.
O Brasil enfrenta hoje organizações criminosas que controlam territórios, movimentam bilhões de reais, infiltram-se em atividades econômicas formais e desafiam diariamente o Estado. Diante dessa realidade, espera-se do chefe de governo uma posição clara de intolerância institucional, independentemente de quem tenha iniciado a ofensiva contra essas estruturas.
Ao final, a principal crítica não é dirigida às sanções de Trump, mas ao vazio político produzido pela ausência de uma resposta firme do governo brasileiro. O combate ao crime organizado deveria unir diferentes correntes ideológicas em torno de um objetivo comum: proteger a sociedade. Quando essa oportunidade é perdida pelo silêncio, abre-se espaço para dúvidas, críticas e desgaste político — um preço que qualquer governo acaba pagando quando deixa de ocupar, com clareza, um tema de interesse nacional.




