A guerra do Golfo Pérsico voltou às manchetes, mas não voltou a ser a mesma. O conflito atual deixou de ser uma campanha militar destinada a produzir uma vitória rápida. Transformou-se numa guerra de desgaste, em que o objetivo principal é resistir até que o adversário pague um preço político, econômico ou social maior.
O impasse decorre de um fato simples: cada lado vive sob um relógio diferente.
O relógio de Washington
Para os Estados Unidos, cada semana de guerra pressiona a inflação, encarece os combustíveis e afeta diretamente o eleitor. Em uma democracia, esse custo chega rapidamente às urnas.
O país vive em campanha permanente. A cada dois anos ocorre uma eleição federal: em um ciclo são eleitos o Presidente, toda a Câmara dos Representantes e um terço do Senado; dois anos depois, renovam-se novamente toda a Câmara e outro terço do Senado. Na prática, a Casa Branca enfrenta o julgamento popular a cada dois anos.
Foi nesse ambiente que Donald Trump intensificou o uso do chamado “sistema dólar” — a supremacia da moeda americana, do sistema financeiro internacional e das sanções econômicas — para pressionar Rússia, Irã e China. A expectativa era obrigar esses países a negociar pelo estrangulamento financeiro.
O efeito acabou sendo outro.
O relógio de Teerã
Anos de sanções ensinaram o Irã a sobreviver sem depender do sistema financeiro ocidental. O país investiu em bases subterrâneas, ampliou sua produção de mísseis e desenvolveu drones de baixo custo capazes de impor elevados custos militares ao adversário através de agressão aos vizinhos aliados de seu opositor.
Ao mesmo tempo, descobriu que o Estreito de Ormuz representa uma poderosa arma econômica. Sempre que sua estabilidade é ameaçada, o preço mundial do petróleo reage imediatamente. Sem disparar um único tiro, o conflito passa a cobrar uma conta mensal de toda a economia global. Aqui mais uma vez o mesmo sistema que beneficia aos USA, com a mesma cotação para todos os produtores de petróleo, também serve para gerar inflação global.
Quem consegue suportar esse desgaste por mais tempo reduz sua necessidade de fazer concessões.
O dólar que não faz falta
Ao transformar o dólar em instrumento de coerção geopolítica, Washington estimulou exatamente aquilo que pretendia evitar.
Rússia, Irã e China ampliaram o comércio em moedas locais, criaram mecanismos alternativos de pagamentos e fortaleceram uma rede financeira menos dependente do sistema SWIFT controlado pelos Estados Unidos. O investimento inicial foi elevado, mas, depois de construída essa infraestrutura financeira, cada nova sanção passou a incentivar sua utilização.
O dólar continua sendo a principal moeda internacional. O que diminuiu foi sua capacidade de obrigar adversários a ceder rapidamente.







