Desde 1963, vou à missa todos os domingos. Fiz uma promessa ao companheiro, católico por devoção, de que o acompanharia semanalmente.
Presto bem atenção às leituras e procuro trazê-las para o dia a dia. Interesso-me pelo recado que Deus nos dá e acho a Bíblia uma leitura difícil de interpretar. Alguns padres valorizam as leituras das missas, outros fazem cursos para os leitores, mas, nem sempre é assim. Muitas vezes, a comunidade não entende as mensagens a serem passadas, pela maneira errada como são lidas.
O tempo foi passando e por causa da profissão do meu marido, moramos em várias cidades e frequentamos comunidades diferentes. Vimos erros e acertos nas igrejas por onde passamos.
As parábolas constantes da Bíblia são interessantes e nos levam a refletir sobre nossa própria vida. A que mais me impressiona é a do Filho Pródigo. Como não sou católica convicta, não entendo a festa que o pai faz para o filho que pediu sua herança, foi para o mundo, gastou tudo e voltou para casa sem nada. A explicação da igreja é que o filho perdido foi recuperado. Na minha cabeça deveria haver o perdão, mas sem exageros.
Alguns amigos meus tentam explicar tal parábola, mas sou meio burrinha e não entendo. Como um só filho recebe a herança do pai, gasta tudo, não divide com os outros e é festejado?
Exemplos atuais em várias famílias no mundo de hoje existem e o resultado não é o da Igreja Católica. Brigas por herança são comuns e constantes; nem sempre as soluções são festivas.
As leis que determinam as divisões de bens não são justas na maioria dos casos e dependem da decisão de juízes, humanos e falíveis. Há processos que duram dez ou vinte anos, por bens deixados de baixo valor. São anos e anos de brigas na Justiça. O final, contudo, não coincide com os desejos do falecido.
Conheço casos de mais de quarenta anos: o pai faleceu, deixou pensão, deixou atrasados e só uma filha recebeu. Mesmo que a lei dos homens não mandasse dividir os atrasados, a lei de Deus mexeria com o coração da herdeira e ela dividiria as quantias atrasadas, nem que fosse com os irmãos doentes. Mas o dinheiro escurece a consciência das pessoas!
Se fôssemos citar todos os casos de herança familiar, passaríamos dias e dias, falando de afastamento de irmãos, de filhos, de netos, que se apropriam das pensões das mães ou das avós. Recebemos, em nosso “sindicato dos velhinhos”, casos de pensões alarmantes. Tentamos administrá-los dentro da lei, mas a sabedoria dos mais novos vence a fragilidade dos mais idosos.
Como a nossa Justiça é lenta, muitas vezes, as ações duram anos e anos. A pensionista morre e o caso não é resolvido. Processo vai, processo vem, e a solução não chega. Dá dó ver pessoas de setenta, oitenta anos, ficarem dependendo dos mais novos e levando até gritos. Vez em quando, perco a paciência e repreendo filhos e netos de um caso desses.
Entre a parábola e as histórias da vida real existe uma grande dúvida. Merecem castigo os filhos e netos que se apropriam das pensões dos idosos? Os que passam quarenta anos recebendo atrasados, sem olhar para os irmãos, merecem ser recebidos com festa? Aqueles que cuidam de seus parentes mais velhos, com amor e carinho, devem ser respeitados?
Luto muito contra a invisibilidade dos idosos. Você está num local e as pessoas falam de você como se não existisse. Grito logo: estou aqui! Defendo meus direitos, não abro mão do que acredito e já disse a meus filhos: só me tirem do meu lugar quando eu sair do ar!
Resta-me pouco tempo de vida, sei, mas vou continuar ajudando os idosos, mostrando-lhes seus direitos, repreendendo os jovens sabidos demais. Com tal atitude contrario muita gente, mas entrego tudo ao nosso Deus.
Insisto, amigos, não dá para entender a parábola do Filho Prodigo!
Deus existe. Não duvidem!
Alari Romariz Torres
É aposentada da Assembleia Legislativa







