Nasci uma menina de classe média, filha de mãe dona de casa e pai servidor público Meu pai tinha curso primário, lia muito e fez vários concursos até chegar a ser Auditor Fiscal do IAPI.
Tímido, mas sério e inteligente. Tinha respostas para tudo. Desde pequena fui guiada por aquele homem loiro de olhos verdes. Quando comecei a estudar, era com ele que fazia minhas tarefas. Na dúvida, consultávamos o livro para não fazer bobagem.
Construiu uma casa na Avenida Fernandes Lima, no Farol, e lá moramos por vários anos. Vendeu essa casa para resolver um problema de família e morreu numa casa minha, no mesmo bairro.
Sempre que sonho com ele, recebo algum aviso e sei que algo acontecerá comigo, de bom ou de ruim. Esta semana sonhei com ele várias vezes me pedindo calma. Tenho certeza de que vem algo por aí.
Era apaixonado por minha mãe e a transformou numa bonequinha de luxo. Mesmo sem poder, dava tudo o que ela pedia. Eu sempre dizia a ele: conte a verdade; diga que não pode. Ele retrucava: “Coitada, ela não vai entender.
Tinha raiva quando técnicos de fora vinham fiscalizar o IAPI em Alagoas. “Eles não entendem a nossa realidade”, contestava. Certa vez, um fiscal foi espancado dentro de uma usina. Ele foi mandado corrigir o erro. Ficamos nervosos esperando sua volta. Ele retornou tranquilo e nos disse: “Falta de experiência do colega”. E ponto final.
Sua maior qualidade era a humildade. Foi confundido com o moço que limpava as salas, mas não se importou, insistindo: “Somos todos iguais”.
Ainda jovem, em Penedo, assinou um abaixo-assinado. Alguns falsos amigos prepararam um documento como se os assinantes fossem filiados ao Partido Comunista. Vieram presos para o Quartel do 20ª BC. Lá, ficou tudo esclarecido e os jovens foram liberados. Daí, porque, Graciliano Ramos o chamava de “socialista ingênuo”.
Todas as minhas dúvidas de menina-moça eram tiradas com meu pai. Para minha mãe, tudo era feio e eu era meio atirada.
Quando meu irmão mais velho se separou, ele reuniu os três filhos que já trabalhavam e perguntou quem poderia ajudar. Minha cunhada, corajosamente, voltou a estudar, se formou e trabalhou até a aposentadoria. Quando o velho João morreu, aos 67 anos, ela me disse: “Perdi meu pai”.
Adepto à lei da boa vizinhança, ele nos criou respeitando as pessoas que moravam na mesma rua, mas evitando “viver na casa do outro”. Acordamos, certa feita, com a polícia na casa ao lado por causa de briga do casal com as empregadas. Ele nos reuniu e avisou: “Ninguém viu nada”. O vizinho morreu agradecido.
Em 1950, apareceu uma onda de roubos nas residências do bairro. Alguns objetos de minha mãe sumiram. Chegando na delegacia reconheceu o ladrão, que era um menino de classe média. Disse à polícia que o ladrão nada levou de nossa casa. Minha mãe ficou brava.
Tinha muitos amigos e fazia questão de visitá-los, principalmente os de Penedo. Fez favores a vários deles. Trazia pessoas de lá para fazer concurso em Maceió. Nossa casa vivia cheia e algumas delas chegavam sem avisar. Mas, ele adorava ver a casa assim.
No seu velório fui abraçada por várias pessoas que receberam ajuda dele. Criaturas que eu não conhecia. Até mendigos foram transformados em aposentados do INSS. Um colega da Assembleia, demitido de um órgão federal, foi defendido administrativamente por ele e recuperou o emprego.
São tantas as histórias que sei do “Velho Romariz”! Daria um livro! Mas, mesmo ele tendo morrido, procuro meditar e ouvir seus conselhos. Ele sempre diz: “Calma Alari, a verdade virá à tona e todos saberão quem é quem”.
Vou levando minha vida lembrando dele e ouvindo as palavras do meu sogro: “Filha de João Romariz só pode ser gente boa”!
Deus o tenha em bom lugar, meu amado e querido pai.
Alari Romariz Torres
É aposentada da Assembleia Legislativa







