Quando tínhamos doze anos, em 1953, eu e Ana Maria nos conhecemos. Eu morava na Avenida Fernandes Lima e ela na Praça do Centenário. Tempo bom, em que a juventude podia sair de casa, num bairro como o Farol, cheio de árvores, com tranquilidade, sem pensar em sequestro.
Estudávamos em colégios diferentes, mas frequentávamos a Igreja dos Capuchinhos e pertencíamos à Ordem dos Cordígeros. Jogávamos bola, íamos à Missa, às reuniões coordenadas pelo Frei Egídio. Eu, mais tímida, não dançava no pastoril. Ana, mais solta, era a Mestra. Meu papel era arranjar quem comprasse votos para eleger o cordão encarnado no final da festa.
Fomos crescendo, curtindo a juventude, indo à Festa de Santa Rita, paquerando os jovens no “quem me quer, quem me tira” da Praça do Centenário. Ainda havia a feira no sábado, de tarde, também na Santa Rita. Comíamos pipoca, amendoim, cachorro quente.
Minha amiga Ana Maria, sempre foi mais calma, com o gênio mais suave. Eu era séria demais, de gênio mais forte. Entretanto, nos entendíamos bem.
Aos 15, 16 anos, começou a fase dos namoros. Ela namorou antes de mim, mas nem os rapazes afastavam as duas amigas. Eles tinham que vir ao nosso encontro e se tornarem amigos.
Nossos filhos foram crescendo e sempre convivendo conosco e com a família da Ana, Éramos os tios do coração e amigos certos nas horas fáceis e difíceis. Quando vínhamos a Maceió, sempre juntávamos as famílias e fazíamos passeios juntos.
Ana formou-se em Letras e foi professora do Estado e do Município. Participava dos Movimentos da Igreja Católica e teve muitas amigas por onde passava. Nosso vínculo, entretanto, sempre foi muito forte.
Nos momentos tristes de doença ou morte, uma contava com a outra. Nas novenas de Natal, ela fazia questão de minha presença. Vez ou outra, Ana me ligava: “Amiga, preciso conversar com você”. Eu corria para a casa dela, conversávamos, ríamos, chorávamos. Era um alento!
Nossa amizade era tão grande que o vestido de casamento de Kaká, sua filha mais velha, foi o mesmo que Ana Rúbia, minha primogênita, usou para casar. Tal era nossa intimidade.
Nossos filhos foram casando, introduzindo novas famílias em nosso convívio, mas eu e Ana continuávamos amigas-írmãs. Só discordávamos na política, mas não brigávamos, apenas divergíamos.
Minha amiga foi candidata a Vereadora e o coordenador de sua campanha foi Rubião, meu marido. Infelizmente, não se elegeu.
Contudo, ela continuou batalhando pela vida e fez um belo trabalho contra as drogas, atuando no “Amor Exigente”.
Eu e ela tivemos na família problemas com o alcoolismo e o apoio recíproco foi efetivo. Meu filho foi padrinho do filho dela numa clínica, no Rio de Janeiro. Nesse momento, nossa amizade tornou-se mais forte ainda.
Quando vim morar em Paripueira, minha amiga passava dias conosco. Conversávamos, ríamos, chorávamos e uma ouvia os desabafos da outra.
Durante setenta anos de convivência, poucas vezes vi Ana Maria ficar zangada e alterada. Tinha um bom temperamento. De repente, começou a ficar agressiva e esquecida. Todos estranharam e Kaká, sua filha médica, percebeu que a mãe estava doente. Levou-a ao médico, que diagnosticou o Mal de Alzheimer. Começou a luta de Ana Maria com a doença, que a maltratou por oito anos.
Mesmo doente, suas filhas faziam seu aniversário no dia 15 de julho e lá estavam suas grandes amigas: eu, Edenize, Selenize e Irene. Até que no dia 2 de novembro de 2023, Deus levou nossa amiga Ana Maria Soriano Cerqueira.
Kaká, Luka e Júnior, sei que já são adultos, mas se precisarem de colo, procurem a Tia Alari no Paraíso da PARIPUEIRA.
Deus existe. Não duvidem!
Alari Romariz Torres
É aposentada da Assembleia Legislativa







