1925 – 2025
Em 20 de julho de 2025, celebramos o centenário de nascimento de Aldemar Buarque de Paiva, artista múltiplo, apaixonado por sua terra e dono de uma das vozes mais marcantes da cultura nordestina. Poeta, radialista, cronista, compositor, publicitário, cordelista, humorista — Aldemar foi tudo isso e mais um pouco. Um homem multimídia, antes mesmo que esse termo existisse.
Nasceu em Maceió, na Rua do Macena, cenário do romance Angústia, de Graciliano Ramos. Filho de Mário Fortunato de Paiva e de Maria Luiza Buarque de Holanda Paiva, era descendente direto dos Buarque de Holanda de Porto Calvo — linhagem ilustre que inclui o filólogo Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, com quem era aparentado, e o compositor Chico Buarque, seu parente distante. A palavra, o ritmo e a inteligência habitavam seu sangue desde sempre.
Aos 23 anos, Aldemar entrou para a história da comunicação brasileira como a primeira voz a ecoar pelas ondas do rádio em Alagoas, ao inaugurar, no dia 16 de setembro de 1948, a Rádio Difusora de Alagoas – ZY0-4. Atuou como diretor artístico e de programação, revelando talento logo reconhecido pelos colegas e, sobretudo, pelos ouvintes. A estreia da rádio foi marcada também pela primeira execução de sua canção Pajuçara, que se tornaria um verdadeiro hino afetivo da capital alagoana.
Em 1951, Aldemar Paiva transferiu-se para o Recife, onde construiu uma das carreiras mais sólidas e influentes da história do rádio nordestino. Criou o programa Pernambuco, Você é Meu, que permaneceu no ar por impressionantes 25 anos, entre a Rádio Clube de Pernambuco (PRA-8) e a Rádio Jornal do Comércio. Mais do que um programa, era um espaço de valorização da cultura nordestina, da música de qualidade e da identidade regional.
Aldemar foi parceiro de Nelson Ferreira (com quem compôs Tem jeito, sanfona, Pernambuco, Você é Meu, Bloco do Ataulfo), além de nomes como Rossini Ferreira, Zé Gonzaga, José Meneses, Inaldo Vilarim, Juraci Alves e Capiba — com quem deixou parcerias ainda inéditas. Sua obra inclui pelo menos 62 músicas gravadas, além de dezenas de composições guardadas, à espera de vozes como a do frevista Claudionor Germano.
Apesar das homenagens recebidas em Pernambuco, onde foi declarado Cidadão do Estado e Memória Viva do Recife, jamais deixou de exaltar sua terra natal. Sua relação com Maceió era visceral: cantava suas ruas, suas praias, seus coqueirais — e a música Pajuçara, gravada anos depois por Leureny Barbosa, permanece como símbolo dessa devoção.
Sua poesia era direta, mas sensível. Seu humor, fino e ferino. Seu domínio da linguagem, absoluto. Textos como Não gosto de você, Papai Noel emocionaram o Brasil por sua crítica social disfarçada de singeleza infantil. Era isso que fazia de Aldemar um artista raro: a capacidade de tocar fundo sem ser pesado, de criticar com leveza, de amar com lucidez.
Faleceu em 4 de novembro de 2014, mas permanece entre nós. Não apenas como memória — mas como frequência. Está nos versos, nos frevos, nos arquivos sonoros, nas ondas invisíveis que continuam a nos atravessar.
E quando a saudade bate, Aldemar responde com música. Porque para ele, a saudade dançava:
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Frevo de Saudade
Letra de Aldemar Paiva
Quem tem saudade não está sozinho
Tem o carinho da recordação
Por isso, quando estou
Mais isolado
Estou bem acompanhado
Com você no coração
Um sorriso, uma frase, uma flor
Tudo é você na imaginação
Serpentina ou confete
Carnaval de amor
Tudo é você no coração
Você existe como um anjo de bondade
E me acompanha neste frevo de saudade
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Aldemar Paiva, aos cem anos do seu nascimento, ainda é presença. Um nome que pulsa, uma voz que não se cala, uma alma que continua a embalar Alagoas, Pernambuco e o Brasil com a leveza dos que sabem dizer muito — e dizer bonito.
João Aderbal de Moraes
Médico e escritor
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