Estudar a trajetória de Douglas Apratto Tenório é lançar luz sobre um dos mais importantes agentes da construção do pensamento histórico em Alagoas. Seu percurso, rigorosamente traçado entre a sala de aula, os arquivos e a vida pública, constitui não apenas um testemunho pessoal, mas uma contribuição intelectual sólida e contínua para a pesquisa e a preservação da memória regional. Seu nome se inscreve entre os que compreendem a História não como simples reconstituição do passado, mas como exercício ético de compreensão crítica do tempo.
Nascido em 4 de janeiro de 1945, em São Miguel dos Campos, Douglas foi aluno e herdeiro da vocação educadora de sua mãe, a professora Dionísia Apratto Tenório. Começou a ensinar aos 15 anos. A educação, desde cedo, foi para ele não só caminho, mas destino. Em 1962, mudou-se para Maceió para cursar o ensino médio, beneficiado por uma bolsa de estudos concedida pelo padre Teófanes. Morou em pensões estudantis como a Mona Lisa e a Casa do Estudante, entre livros de História e um ideal de transformação social ancorado no saber.
Entre os estudantes, sempre se destacou. Sua inteligência metódica e sua dedicação ao estudo rigoroso logo chamaram atenção. Como historiador, seu brilhantismo intelectual e a forma como balizou sua metodologia de trabalho caracterizaram profundamente sua produção literária e acadêmica. Era claro, desde cedo, que ali estava um homem de vocação rara: alguém que não se contentava com a superfície dos fatos, mas que buscava o sentido das estruturas, o pulso das permanências, o silêncio das ausências.
Homem sério, um pouco sisudo para quem não o conhece, Douglas é historiador de método e pesquisador de hábitos austeros. Fiel à pesquisa de fontes primárias, é daqueles que cultivam o silêncio do arquivo como lugar de revelação. Sua trajetória acadêmica foi construída na Universidade Federal de Alagoas (UFAL), onde se graduou em História e, mais tarde, foi vice-diretor do Centro de História, Letras e Artes. Obteve os títulos de mestre e doutor em História pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e tornou-se figura central na reflexão sobre a identidade e os processos históricos de Alagoas. É hoje vice-reitor do Centro Universitário CESMAC, onde continua a formar gerações com sua lucidez e compromisso.
Foi também gestor cultural e articulador de políticas públicas voltadas à valorização da memória e da educação. Idealizou a Casa da Cultura de São Miguel dos Campos, instalada no histórico Palacete da Baronesa, e teve papel fundamental na criação da Secretaria Estadual de Cultura de Alagoas. Recebeu, ao longo da vida, diversas honrarias, como a Comenda Senador Arnon de Mello, em reconhecimento à sua luta em prol da educação e da cultura.
A produção literária de Douglas Apratto é vasta, coerente e comprometida com a leitura crítica da realidade alagoana e brasileira. Dentre seus livros mais representativos, destacam-se:
• Capítulos da História Contemporânea (1968)
• Capítulos da História do Brasil (1976)
• A Imprensa Alagoana no Ocaso do Império (1977; relançado em 2024)
• A Sociedade e a Política Alagoana na Década de 20
• Capitalismo e Ferrovias no Brasil – As Ferrovias em Alagoas (1978)
• Tempo, Cultura e História (1984)
• O Desafio de Prazer (1985)
• A Tragédia do Populismo: o impeachment de Muniz Falcão (1995)
• A Metamorfose das Oligarquias (1997)
• Redescobrindo o Passado: Cartofilia Alagoana (2008)
• A Presença Holandesa: a História da Guerra do Açúcar Vista por Alagoas (2013)
• A Presença Negra em Alagoas (2015)
• Alagoas: uma esfinge a desvendar (2020)
• O Silêncio dos Esquecidos (2022)
Trata-se de uma obra que transita com equilíbrio entre o rigor acadêmico e o compromisso social. Cada livro de Apratto é uma tentativa de iluminar as zonas de sombra do passado alagoano, resgatando personagens esquecidos, processos soterrados, dinâmicas marginalizadas.
O educador e a herança da palavra
A obra de Douglas Apratto Tenório é, antes de tudo, uma construção generosa e rigorosa de pontes entre o passado e o presente. Seus livros não apenas interpretam a história — eles ensinam a pensar historicamente, com método, profundidade e sensibilidade crítica. Em cada página, há o traço do educador que acredita na transformação pelo saber, no poder da palavra fundamentada, na urgência da memória. Apratto não escreve apenas com erudição: escreve com responsabilidade. Sua vida como professor é extensão natural de sua vocação intelectual — em sala de aula, formou gerações; fora dela, ajudou a moldar políticas públicas, instituições culturais e projetos educacionais duradouros. Sua trajetória é a de quem escolheu servir ao conhecimento com disciplina e paixão, erguendo com o próprio exemplo os alicerces de uma cultura histórica que não se dobra ao esquecimento.
Uma Alagoas que ainda precisa ser contada
Douglas Apratto Tenório permanece como figura essencial para entender Alagoas – não a Alagoas das lendas fixas ou dos rótulos apressados, mas a Alagoas profunda, contraditória, ferida e luminosa, feita de vozes que resistem, de gestos que se repetem, de silêncios que pedem tradução. Ele é parte do esforço mais nobre da historiografia: dar sentido à identidade, costurar o tempo com palavras precisas, desenterrar memórias não para ornamentar o passado, mas para construir um presente mais consciente de si.
Em sua obra, vemos o sertão e o litoral, a república e o império, o povo e as elites, a voz negra e o grito calado dos esquecidos. Apratto não escreve para aplauso: escreve para servir, e sua escrita é instrumento, ponte, bússola. Alagoas, em seus livros, é personagem complexa – esfinge e espelho –, e ele a trata com o respeito de quem conhece suas feridas e ainda assim a ama profundamente. Como educador, como pesquisador, como cidadão da história, Douglas Apratto é daqueles que não se deixam vencer pelo cansaço nem pelo cinismo: continua a trabalhar como quem sabe que pensar é um ato de esperança.
E assim, entre papéis antigos, aulas dadas e livros abertos, segue o mestre. Rumo ao passado, com os olhos bem fixos no futuro. Porque Alagoas ainda precisa ser contada – e poucos souberam contá-la como ele.
João Aderbal de Moraes
Médico e escritor
“as opiniões emitidas por nossos colaboradores, não refletem, necessariamente, a opinião do site”