Pedro Aurélio saiu do consultório feliz. A geriatra ao esmiuçar os resultados dos exames, constatou diabete, pre
ssão alta e outras achaques normais em um homem de 73 anos. Tudo controlável, além de um regime alimentar, prescreveu medicamentos para a pressão e a diabete. Recomendou caminhadas diárias cerca de 30 minutos, cortar o açúcar, diminuir bebida alcóolica, podia levar a vida normal. Como estava em plena época de fim de ano, cheia de confraternizações, Pedro Aurélio deixou para iniciar as recomendações médicas após o ano novo. O carnaval naquele ano foi cedo, mais uma vez foi adiado o tratamento. Pedro Aurélio amava festas e o carnaval.
Na quarta-feira de cinzas, Pedro Aurélio com uma bruta ressaca, um péssimo humor retornou de ônibus de Olinda numa excursão. À tarde, sozinho em casa, sentou-se na poltrona para assistir a apuração do desfile da Escola de Samba do Rio de Janeiro. Anos atrás ele desfilou pela Salgueiro e torcia por essa escola. De repente deu-lhe uma tonteira, suando frio, dor no braço e no coração. Deu um suspiro, tentou levantar-se da poltrona, porém, desmaiou, deu um suspiro, arriou a cabeça, ali ficou.
Dona Emília, esposa dedicada, chegou ao apartamento às sete da noite, ouviu a televisão ligada e um susto ao perceber a cena trágica, Pedro Aurélio com a cabeça pendida ao lado. Ela o sacudiu, gritou pelo nome, percebeu, o marido estava morto.
Dia seguinte uma comoção no enterro no Parque das Flores, muitos amigos, Pedro Aurélio era criatura simpática, bom comerciante. Os amigos ocorreram para despedir-se do último boêmio da cidade, como disse um parceiro olhando o defunto no caixão.
Em certo momento apareceu uma senhora, aparentando cinquenta anos, rosto bonito, junto a um jovem de seus 12 anos. O rapaz encostou-se no caixão, alisou a cabeça do defunto, chorou sem conseguir parar. Todos souberam do fato, era seu filho, Pedrinho. Pedro Aurélio tinha vida dupla, sustentava outra família no bairro do Clima Bom.
Andréa, a filha, e Edivaldo, o genro, ficaram consolando Dona Emília, irada, não se conformava com a traição de tanto tempo. Agora, aos 60 anos, se achava velha para recomeçar a vida, não havia razão para viver. Não ficou para o enterro.
Gentil, o genro Edivaldo, convidou Dona Emília para passar um tempo com eles no quarto de hóspede de sua casa, o tempo é remédio para todos os males. Dona Emília, aceitou, estabeleceu-se na casa da filha de mala e cuia. Nos primeiros dias pediu para ninguém falar sobre o “Defunto”. Não compareceu à missa de sétimo dia. Vergonha de encarar as amigas, lembrariam do chifre que ela havia tomado durante sua vida.
Acontece que Dona Emília começou a mandar dentro de casa, dava ordens nas empregadas, escolhia o almoço, fiscalizava a faxina, metia-se na vida dos netos adolescentes. À noite assistia todas as novelas, acabando com o prazer de Edivaldo ver seus filmes escolhidos na NETFLIX. Ficou de vez, aparecia em seu apartamento apenas para limpar. Passaram-se quatro meses, Edivaldo, Andréa e os filhos andavam nervosos, chateados com a velha mandando em casa.
No aniversário de Edivaldo ele convidou alguns amigos para uma cervejinha e almoço no sábado pela manhã. Continuaram pela tarde, inclusive Ulisses, um solteirão, boa vida, pequena aposentadoria, vivia sem dinheiro e muitas dívidas. Gostou da sessentona Dona Emília, viúva, boa grana. Passaram a noite conversando alegremente. Confidencialmente trocaram telefones. Na semana seguinte encontraram-se discretamente no apartamento da viúva. Dona Emília com sessenta anos ainda dava bom caldo. Ulisses tinha a mesma idade. Quatro meses se passaram, avisaram à família, estavam vivendo juntos. Dona Emília havia retornado ao apartamento há algum tempo.
Andréa não pode provar, porém, tem certeza que tudo aconteceu por manobra estratégia de Edivaldo, sabedor da situação precária afetiva e financeira de seu amigo Ulisses, convidou-o para o aniversário apostando no namoro entre os coroas. Edvaldo nega as insinuações da esposa com sutil sorriso nos lábios. Hoje, todos estão felizes, como os finais de histórias. Quem morreu foi Pedro Aurélio.






