Mente, a incansável operária.
De farol do dia à sonhadora da noite.
Sem descansar um minuto, está sempre em vigília para nortear nossos sonhos e nossa caminhada,
mesmo para quem, vítima de uma rotina impiedosa, faz dela o pior de seus trabalhos.
Ela não reclama. Trabalha em silêncio.
Decifra sinais, traduz sentimentos, antecipa perigos, organiza as emoções.
Enquanto o corpo se rende ao sono, é ela que o embala,
permitindo que memórias e desejos se alinhem em forma de sonhos.
Mas um dia ela pede descanso — e não é um pedido comum.
É um alarme mudo, um suspiro abafado, um tropeço no fio da lucidez.
O tempo vai cobrando seu preço, e só aqueles que conquistam a longevidade
fazem-na trabalhar em horas extras.
Nessas horas ela não faz acordo.
Não negocia com médicos, nem com vontades.
Recolhe-se. Retrai-se. Passa a operar em marcha lenta, como se o mundo estivesse ficando embaçado.
É quando outras mentes precisam entrar em cena — as dos cuidadores, dos filhos, dos que amam —
para vigiar por ela.
Chama-se Alzheimer.
O nome do silêncio, da pausa não consentida, da despedida gradual.
Não destrói a mente de uma vez. Vai desfazendo laços, embaralhando lembranças,
apagando os quadros mais belos do museu da memória.
E enquanto a mente original descansa, os outros trabalham por ela — com amor, paciência e dor.
Porque a mente, essa operária incansável, merece ser honrada,
até mesmo quando decide que é hora de recolher as ferramentas e encerrar o turno.
Analista colaborador do Resumo Política






