Na tarde de hoje, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou uma ordem executiva impondo uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, com vigência a partir de 1º de agosto. Embora apresentada como uma medida de defesa comercial, o conteúdo da carta oficial emitida pela Casa Branca revela seu verdadeiro propósito: trata-se de uma retaliação política clara e direta.
Trump acusa abertamente o Supremo Tribunal Federal — e especialmente o ministro Alexandre de Moraes — de ferir os valores democráticos que deveriam unir o Brasil e os Estados Unidos. Menciona a censura a empresas de tecnologia, a perseguição política ao ex-presidente Jair Bolsonaro e a manipulação institucional da Justiça como fatores que descredenciam o Brasil perante o Ocidente. Alega que tais práticas atentam contra a liberdade de expressão e o pluralismo político.
É a primeira vez, na história recente, que um chefe de Estado denuncia formalmente uma Suprema Corte estrangeira por comportamento incompatível com a democracia. E o faz não apenas com palavras, mas com uma medida de impacto real: a imposição de barreiras comerciais.
Mais do que uma sanção, a tarifa de 50% é um gesto simbólico. Ao proteger aliados políticos, como Bolsonaro, e ao atacar abertamente os métodos do Judiciário brasileiro, Trump transforma um embate interno do Brasil em questão internacional. E, ao fazer isso, também envia um recado interno: seu governo lutará contra o que considera regimes autoritários disfarçados de democracias — ainda que estejam entre os maiores parceiros comerciais dos EUA.
A medida, por ora, não produziu efeitos econômicos imediatos, mas abre uma janela de tensão e incerteza para exportadores brasileiros. Os setores mais expostos, como o agronegócio e a indústria leve, temem uma perda de competitividade e aguardam com ansiedade a lista detalhada de produtos afetados. Ainda há tempo para reverter os danos, mas a diplomacia brasileira parece atônita. O Itamaraty não emitiu nota firme; o STF optou pelo silêncio; e o governo, diante da gravidade da acusação, hesita entre reagir ou contemporizar.
A verdade é que a situação exige mais do que um gesto protocolar. Exige responsabilidade institucional e lucidez democrática. E talvez a saída para a crise esteja menos no campo diplomático e mais no campo da razão política.
Há, sim, um caminho possível de pacificação. Um caminho que permitiria ao Brasil preservar sua soberania sem ampliar o conflito, e ainda reconquistar o respeito internacional perdido no embate judicializado entre suas lideranças. Esse caminho começa com duas decisões simples, mas civilizadas:
1.Julgar Bolsonaro pela materialidade das denúncias, e não por narrativas de conveniência política ou disputas de poder institucional. O devido processo legal deve prevalecer sobre o julgamento antecipado e a espetacularização judicial.
2.Permitir que o eleitor brasileiro faça, nas urnas, o julgamento político entre Lula e Bolsonaro, sem interferências judiciais que possam deslegitimar a escolha popular. É o povo — e não os tribunais — quem deve decidir quem merece governar o país.
Esse duplo gesto — jurídico e democrático — bastaria para desarmar o discurso de Trump, neutralizar a retaliação tarifária e, sobretudo, reestabelecer o princípio da separação dos Poderes como valor genuinamente republicano.
O Brasil precisa reencontrar o equilíbrio entre Justiça e política, entre liberdade e responsabilidade. Precisa voltar a falar como Nação, e não como uma colcha de feudos institucionais em guerra silenciosa.
A tarifa anunciada por Trump é mais do que um imposto sobre produtos: é uma cobrança simbólica sobre a coerência de nossas instituições. Resta saber se responderemos como país… ou como território.
RUI GUERRA
Analista colaborador do Resumo Política
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