Poucas vezes na história recente um gesto político de um deputado teve consequências tão simbólicas e amplas quanto o de Eduardo Bolsonaro ao apoiar, publicamente, a nova taxação imposta pelos Estados Unidos sobre os produtos brasileiros. O filho do ex-presidente, que sempre se apresentou como elo entre a direita brasileira e o trumpismo, parece não ter percebido que, ao endossar a tarifa de 50% anunciada por Trump, não agiu como aliado — mas como peão.
Sua manifestação entusiástica não apenas legitimou um gesto hostil à soberania nacional, como também forneceu munição ao governo Lula e ao sistema Globo, que agora “ repicam o discurso de que Bolsonaro, pai e filho, seriam os verdadeiros responsáveis pela crise diplomática e comercial “ entre Brasil e Estados Unidos.
A ingenuidade, nesse caso, não é apenas um traço pessoal. É estratégica — e útil para quem tem um plano mais amplo.
1. Um ator despreparado no palco errado
Eduardo Bolsonaro jamais teve estatura diplomática para representar o Brasil em fóruns internacionais. A tentativa frustrada de torná-lo embaixador em Washington foi o primeiro indício de que a política externa brasileira, sob influência da ala ideológica bolsonarista, caminhava para a personalização improvisada de relações que exigem técnica, tempo e temperança.
Agora, no episódio da tarifa, Eduardo ultrapassou os limites do amadorismo ao interpretar um gesto de retaliação econômica contra seu próprio país como se fosse um aceno político a seu grupo familiar. Em vez de defender os interesses estratégicos do Brasil, agiu como correligionário informal de Trump, aplaudindo uma medida que penaliza produtores nacionais, afeta empregos e fragiliza setores inteiros da economia.
E pior: ofereceu ao governo atual a chance de inverter o ônus da responsabilidade. O Palácio do Planalto, até então acuado pelas denúncias de autoritarismo judicial, encontrou no gesto de Eduardo a narrativa perfeita para tentar acusar Bolsonaro de traição econômica. Lula não precisou se explicar — bastou apontar o dedo.
2. A verdadeira motivação de Trump: frear o avanço dos BRICS
O que Eduardo Bolsonaro ignora — ou finge ignorar — é que a tarifa imposta ao Brasil nada tem a ver com defesa de valores democráticos, como alegou Trump em sua carta. O foco real é energético e geopolítico: os Estados Unidos estão reagindo à consolidação do BRICS+ como bloco estratégico global.
Com a entrada da Arábia Saudita, dos Emirados Árabes e do Irã, o BRICS passou a representar mais de 40% da produção mundial de petróleo. Trata-se de uma massa crítica capaz de redefinir contratos internacionais, reduzir a dependência do dólar e criar uma nova lógica de influência no comércio mundial.
O Brasil, ao manter-se no grupo e dialogar de forma independente com todos os membros — incluindo China e Rússia — tornou-se o elo visível da autonomia diplomática latino-americana. E isso, para Trump, representa um risco.
3. Brasil, Peru e o Pacífico: a nova rota energética do século XXI
Enquanto Trump ameaça e Eduardo aplaude, o Brasil assina, silenciosamente, um tratado de integração logística com o Peru, conectando a Margem Equatorial e o centro-sul do território brasileiro à costa pacífica peruana. Mais do que uma cooperação bilateral, trata-se de uma ponte geoestratégica entre os dois oceanos.
No porto de Chancay, no Peru, a China acaba de concluir um superporto de águas profundas, construído por sua estatal Cosco Shipping com financiamento chinês e tecnologia própria. A estrutura foi pensada como o grande hub logístico da Ásia no Pacífico Sul, e sua conexão direta com o território brasileiro por meio de ferrovias, rodovias e investimentos logísticos antecipa o escoamento futuro de petróleo, terras raras e minérios valiosos brasileiros rumo à Ásia.
A diplomacia chinesa age com método: fornece crédito, constrói infraestrutura, formaliza acordos e, no final, garante fluxo estável de insumos estratégicos. O que parecia uma simples obra portuária revela, na verdade, um novo canal físico, econômico e simbólico para a influência da Ásia sobre a América do Sul.
Enquanto os EUA impõem tarifas, a China constrói corredores logísticos. Enquanto Eduardo Bolsonaro comemora uma punição, a infraestrutura chinesa avança silenciosa, firme e irreversível.
4. A vingança de Lula e a conveniência da Globo
Se a ingenuidade de Eduardo expôs o flanco, foi o PT quem capitalizou a oportunidade. Com habilidade, o governo inverteu a lógica da crise. Saiu do banco dos réus — acusado por censura e perseguição judicial — e passou a vestir o manto de vítima da extrema-direita internacional.
Agora, nas narrativas que circulam no Congresso e nos grandes veículos de imprensa, quem traiu o Brasil foi a família Bolsonaro, abraçando uma sanção estrangeira contra seu próprio povo.
A Globo, que jamais desperdiça uma chance de reescrever os fatos em favor de sua linha editorial, aproveitou o gesto para colocar Jair Bolsonaro como cúmplice de um movimento que prejudica agricultores, exportadores, pequenos empresários e toda a cadeia produtiva nacional.
5. A economia asiática agradece
Ironia das ironias, o gesto de Eduardo Bolsonaro pode acelerar exatamente aquilo que Trump tentava evitar: a penetração da economia asiática no mercado brasileiro.
Com os EUA criando barreiras, empresas brasileiras buscarão novos mercados. E quem está disposto a comprar? China, Índia e os demais membros do BRICS+.
Agora, com o superporto de Chancay em plena operação e um acordo Brasil–Peru em vigor, para implantação de uma FERROVIA TRANSATLÂNTICA os produtos brasileiros poderão atravessar o continente e sair direto pelo Pacífico, prontos para abastecer a Ásia sem depender de portos americanos ou rotas controladas pelo Atlântico Norte.
O novo mapa logístico favorece Pequim, não Washington. E, paradoxalmente, começou a ser desenhado no mesmo momento em que um parlamentar brasileiro celebrava, ingenuamente, um castigo ao próprio país.
Conclusão: a fronteira entre lealdade e submissão
Eduardo Bolsonaro talvez acredite que estava sendo fiel ao seu aliado americano. Mas a lealdade verdadeira é com a Nação, não com qualquer presidente estrangeiro.
Ao aplaudir a tarifa, cruzou a linha que separa convicção ideológica de submissão estratégica. E, ao fazê-lo, abriu a porta para que a China e os demais parceiros do BRICS ocupem os espaços deixados por uma América em modo punitivo.
Num mundo em transição, a ingenuidade é um luxo perigoso.
E o Brasil, que luta por autonomia, não pode ser guiado por amadores num jogo entre impérios.







