Por que grande parte dos repórteres de televisão demonstra simpatia por Luiz Inácio Lula da Silva, mesmo com o histórico de corrupção associado ao seu partido? É ideologia? É aversão a Jair Bolsonaro? Ou uma combinação complexa de fatores históricos, culturais e pragmáticos? Para responder, é necessário compreender as raízes do jornalismo brasileiro, o contexto político recente e as transformações nas relações entre mídia e poder.
O DNA ideológico das redações
O primeiro ponto é estrutural: a maioria dos jornalistas brasileiros é formada em universidades públicas ou privadas marcadas por forte influência progressista. Durante a graduação, temas como justiça social, direitos humanos e combate à desigualdade são tratados como pilares éticos da profissão. Essa formação cria um viés natural de empatia com pautas tradicionalmente defendidas pela esquerda. Não se trata, necessariamente, de militância, mas de um ambiente cultural homogêneo, no qual a crítica ao mercado e a defesa do Estado regulador são quase consensuais.
Nesse contexto, Lula se encaixa no arquétipo do “líder popular” que promove inclusão social e elevação de renda. Durante seus dois primeiros mandatos, o país viveu um ciclo de crescimento econômico, queda da pobreza e expansão do consumo. Para muitos jornalistas que ingressavam na profissão nesse período, o lulismo representava esperança e ascensão social. Essa memória coletiva persiste, mesmo após os escândalos de corrupção.
A narrativa do herói versus o vilão
A mídia, como qualquer narrador, trabalha com personagens e símbolos. Lula, com sua história de retirante nordestino que chegou à Presidência, tornou-se um personagem comovente. Bolsonaro, por outro lado, construiu para si uma imagem de “antissistema” e adotou um discurso frontalmente oposto às crenças predominantes nas redações. Se Lula era visto como símbolo da inclusão, Bolsonaro foi enquadrado como representante da exclusão: hostil a minorias, cético em relação a pautas ambientais e agressivo com jornalistas.
Essa narrativa dual foi reforçada pelo comportamento dos dois. Lula sempre cultivou proximidade com repórteres, oferecendo entrevistas exclusivas, fazendo piadas, criando laços pessoais. Bolsonaro preferiu o enfrentamento: atacou veículos, insultou jornalistas, reduziu entrevistas e apostou na comunicação direta via redes sociais. Ao romper a mediação tradicional, Bolsonaro enfraqueceu a relevância da imprensa e, como reação, despertou uma postura defensiva — e por vezes revanchista — nas redações.
Aversão ou autodefesa?
Quando Bolsonaro assumiu a Presidência, adotou uma estratégia deliberada de hostilidade contra a mídia tradicional. Chamou jornalistas de “canalhas”, estimulou ataques digitais e incentivou o boicote a veículos como Globo e Folha. Essa postura transformou a imprensa em inimiga declarada e criou um clima de guerra simbólica. Para muitos profissionais, a defesa da credibilidade jornalística passou a se confundir com a resistência ao bolsonarismo.
Aqui está a chave para entender por que a simpatia a Lula, mesmo com seu passado controverso, ganhou força. Não se trata apenas de alinhamento ideológico; é também aversão ao antagonista, um sentimento de autodefesa corporativa diante de um governo que tratou a imprensa como inimiga e não como fiscalizadora.
O fator pragmático: sobrevivência empresarial
Há também uma dimensão pragmática. A mídia vive uma crise estrutural: queda de receitas publicitárias, perda de audiência para plataformas digitais e fuga de assinantes. Nesse cenário, a polarização virou produto. Criticar Lula com a mesma intensidade que Bolsonaro poderia significar perder parte do público progressista, que ainda sustenta financeiramente jornais e canais. Além disso, manter canais abertos com o governo é vital para empresas que dependem de verbas publicitárias oficiais.
Após a Operação Lava Jato, quando as condenações de Lula foram anuladas, consolidou-se entre formadores de opinião a ideia de que houve “excessos” e “lawfare” por parte do Judiciário. Essa revisão histórica suavizou a imagem de Lula e deu à imprensa um argumento moral para reabilitá-lo: ele teria sido vítima de perseguição. Na prática, isso abriu espaço para uma cobertura mais benevolente — não por ignorância do passado, mas por conveniência narrativa.
Comparações internacionais
Esse fenômeno não é exclusivo do Brasil. Nos Estados Unidos, Donald Trump também transformou a mídia em inimiga, e o resultado foi uma cobertura majoritariamente negativa, ainda que seus adversários democratas também tivessem falhas graves. Na Europa, Matteo Salvini e Viktor Orbán passaram por processos semelhantes. O padrão se repete: líderes populistas de direita que atacam a imprensa tendem a receber tratamento hostil — e isso fortalece, por contraste, a imagem de seus opositores.
Impactos na democracia
A parcialidade, mesmo quando motivada por autodefesa, traz riscos. Uma imprensa que suaviza críticas a um político por aversão ao outro fragiliza sua função fiscalizadora. O jornalismo deveria ser contrapeso do poder, não seu parceiro circunstancial. Quando repórteres deixam que simpatias ou rancores pessoais contaminem a cobertura, o cidadão perde a referência de objetividade.
Por outro lado, também é preciso reconhecer que a agressividade de Bolsonaro com a mídia criou um ambiente tóxico. Quando a relação entre governo e imprensa se converte em guerra aberta, a informação vira munição. Nesse jogo, o público se torna refém: de um lado, um governante que descredibiliza veículos; de outro, veículos que adotam uma linha editorial militante. O resultado é a erosão da confiança, um fenômeno já visível no Brasil: apenas 33% dos brasileiros dizem confiar plenamente na imprensa, segundo pesquisas recentes.
Conclusão: afeto, avesso e conveniência
Portanto, a simpatia que parte dos repórteres demonstra por Lula é resultado de três camadas sobrepostas:
1.Viés ideológico, enraizado na formação acadêmica e no ambiente cultural da profissão.
2.Reação defensiva contra um presidente que os tratou como inimigos, alimentando uma narrativa de confronto.
3.Pragmatismo empresarial, que busca audiência e proximidade com o poder para garantir sobrevivência econômica.
Essa combinação cria a sensação de que a imprensa age por paixão, quando na verdade se move por um misto de valores, memórias, ressentimentos e cálculo. No jogo entre Lula e Bolsonaro, a mídia escolheu um lado — e, ao fazer isso, abriu mão de algo mais valioso que qualquer audiência: a confiança plena da sociedade.
RUI GUERRA
Analista colaborador do Resumo Política
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