Em meio à gritaria política que marca os tempos recentes, o Brasil se vê, mais uma vez, forçado a se posicionar dentro de categorias ideológicas importadas, nem sempre ajustadas à realidade nacional. Entre acusações de “ameaça comunista” e denúncias de uma “escalada da extrema direita”, o que de fato vivemos é uma profunda cisão interna, muito mais enraizada na disputa entre progressistas e conservadores do que em qualquer ameaça bolchevique ou fascista.
A extrema direita existe, sim — e se manifesta com discursos autoritários, teorias conspiratórias, desprezo por instituições democráticas e idolatria a figuras que personificam a ideia de força, ordem e “família tradicional”. Mas o comunismo, como ameaça concreta ao Brasil, é um espantalho. Não há nem aparato, nem organização, nem discurso coeso que configure uma tentativa real de tomada do poder pela via revolucionária ou ditatorial da esquerda.
O embate central no Brasil de hoje não está entre capitalismo e socialismo, tampouco entre propriedade privada e coletivismo. Está entre o desejo de mudança dos que se consideram progressistas — em grande parte negros, indígenas, LGBTQIA+ e jovens urbanos — e a resistência conservadora de quem vê na tradição e na religião o pilar da estabilidade nacional.
A explosão dos silenciados
Os movimentos progressistas que ganham corpo no Brasil das últimas décadas não surgiram do nada. São resultado de séculos de exclusão. Desde a colonização escravista até o período republicano oligárquico, passando pela ditadura militar e a redemocratização desigual, vastos segmentos da população brasileira foram mantidos fora das decisões políticas e culturais do país.
A chegada do Partido dos Trabalhadores ao poder, a partir de 2003, não criou esse movimento — mas abriu canais para que ele se expressasse. O acesso à universidade por meio de cotas, os programas sociais que retiraram milhões da miséria e a ascensão de negros e nordestinos a cargos de prestígio profissional e visibilidade pública foram vistos, por uma parcela da elite, como uma espécie de “inversão da ordem natural”.
Mais do que políticas públicas, o que se transformou foi a autoestima. A geração nascida após os anos 90 passou a reivindicar espaço não apenas econômico, mas simbólico. Passou a exigir reconhecimento da violência histórica imposta à população negra e indígena. Passou a questionar padrões impostos sobre o corpo e a sexualidade. A identidade, e não mais apenas a renda, tornou-se bandeira política.
Essa explosão dos silenciados criou uma tensão cultural: de um lado, os que querem rever a história; de outro, os que querem preservá-la intocada.
Conservadores: entre o medo e a nostalgia
A resposta conservadora a esse movimento progressista se deu, inicialmente, como espanto. Depois, como resistência. E, por fim, como tentativa de reconquista violenta de espaços que julgavam ameaçados. Para muitos setores da classe média, sobretudo aqueles que viram seu status simbólico abalado por mudanças sociais, a reação foi emocional. Sentiram-se culpabilizados por um passado que não viveram diretamente, responsabilizados por privilégios que julgam ter conquistado com mérito, e ameaçados por pautas que não compreendem.
A associação de todo avanço progressista a uma “ameaça comunista” funcionou, nesse cenário, como um discurso de salvação. Não importa se o Brasil está a anos-luz de um modelo comunista. Importa a sensação de que “estão querendo tirar tudo da gente” — seja a autoridade do pai sobre o filho, a palavra do pastor sobre a sexualidade, ou o orgulho do trabalho duro como caminho para ascensão.
Essa resposta conservadora encontrou na extrema direita uma forma organizada de expressão — mas isso não a reduz a um fenômeno extremista. Há um conservadorismo legítimo no Brasil, defensor de valores morais, liberdade econômica e segurança jurídica. O problema não está no conservadorismo em si, mas em sua instrumentalização por figuras populistas que usam o medo para obter poder.
A identidade como arena política
O que vemos no Brasil atual é um processo de reconstrução identitária. A população negra, LGBTQIA+, periférica e feminina não quer apenas existir: quer ser ouvida, representada, respeitada. E isso implica mudanças em práticas culturais, linguagens, políticas públicas e, sobretudo, na forma como o poder é exercido.
É essa reconfiguração simbólica que incomoda. Quando uma mulher negra periférica ocupa a tribuna de uma assembleia, quando um professor universitário trans é aprovado em concurso público, quando uma empresa adota o nome social de um funcionário, quando uma novela de horário nobre mostra um beijo gay — o conservadorismo reage. Não porque esses episódios ameacem a ordem econômica, mas porque ameaçam o controle do simbólico.
A elite sempre teve controle sobre o que é considerado “normal” no Brasil. A nova disputa é por esse controle. E é aí que reside a verdadeira batalha — entre os que querem ampliar os padrões de pertencimento, e os que querem mantê-los restritos.
A falácia do comunismo como ameaça
É sintomático que a retórica anticomunista seja frequentemente usada como muleta retórica por setores da direita brasileira. Fala-se em “kit gay”, “marxismo cultural”, “ideologia de gênero” — termos que, embora vagos, servem para gerar medo. Mas onde está o comunismo?
Não há partido comunista relevante no Congresso. Não há projeto de coletivização da propriedade privada em tramitação. Não há expropriações, censura estatal sistemática à imprensa, ou exércitos populares armados tomando fábricas. A economia brasileira segue capitalista, baseada em consumo, mercado e lucro. O agronegócio é a força dominante. As grandes fortunas seguem intactas.
Usar o comunismo como fantasma é, portanto, um artifício de controle emocional. Serve para unir os que se sentem ameaçados pela mudança cultural em curso. Serve para desviar o foco dos problemas reais — como a desigualdade brutal, o racismo estrutural e o colapso ambiental.
O desafio da convivência
A questão central não é se o Brasil será comunista ou fascista — mas se será capaz de construir uma sociedade em que diferenças possam coexistir com respeito mútuo. A convivência entre progressistas e conservadores é possível, desde que ambos aceitem que o país mudou — e seguirá mudando.
Os progressistas precisarão aprender a dialogar sem arrogância, sem considerar todos os conservadores como “atrasados” ou “ignorantes”. E os conservadores precisarão aceitar que o mundo de 1950 não volta — e que o reconhecimento de direitos não significa a perda de outros.
O Brasil está dividido, sim — mas não entre esquerda e direita como se fosse uma arena ideológica internacional. A cisão é cultural, afetiva, simbólica. Está entre os que querem abrir as janelas da história e os que preferem fechar as cortinas. Entre os que enxergam a diversidade como riqueza, e os que a temem como ameaça.
A verdadeira polarização brasileira é entre quem deseja ampliar os direitos e quem deseja restringi-los. E é essa disputa que decidirá o futuro do país.
Analista colaborador do Resumo Política







