Faleceu neste sábado, aos 82 anos, o jornalista e articulista José Roberto Guzzo, figura emblemática do jornalismo brasileiro e uma das vozes mais influentes do pensamento conservador no país. Guzzo, que teve longa trajetória em veículos como Veja e O Estado de S. Paulo, deixa um legado de firmeza intelectual e clareza de ideias. O conheci na década 60/70 na Associação Cristã de Moços de São Paulo (ACM).
Entre suas frases marcantes, uma se destaca como síntese de sua visão de mundo:
“Ser conservador, em nosso entendimento, é defender claramente que as coisas boas sejam conservadas.”
Essa definição, simples e direta, revela muito sobre sua concepção política e filosófica. Para Guzzo, conservadorismo não era sinônimo de apego cego ao passado ou submissão a líderes, mas sim um compromisso racional com a preservação do que funciona, do que é justo, do que contribui para o bem-estar da sociedade.
Ao analisar essa perspectiva, chega-se a uma conclusão inevitável: se, em sua avaliação, o bolsonarismo não representava algo “bom”, ele não poderia, portanto, ser considerado conservador. E essa era, de fato, uma leitura que Guzzo fez de maneira implícita em várias de suas críticas à radicalização política e aos excessos cometidos no governo de Jair Bolsonaro.
Guzzo jamais se furtou a criticar a corrosão institucional e o discurso conflituoso que, em sua análise, feriam a estabilidade e os valores que deveriam ser preservados por um conservador genuíno. Em seus artigos, deixou claro que não bastava “se dizer conservador” para sê-lo de fato: era necessário agir em defesa das instituições, da racionalidade política e do interesse coletivo — pilares que, para ele, distinguiam o verdadeiro conservadorismo de meros oportunismos políticos.
Ao longo de mais de cinco décadas de carreira, Guzzo construiu uma reputação como voz independente e crítica. Foi admirado tanto por aliados ideológicos quanto por adversários políticos, justamente pela capacidade de sustentar suas opiniões com argumentos sólidos, sem concessões à conveniência do momento.
Sua morte representa a perda de um pensador que soube traduzir conceitos complexos em palavras simples e contundentes. Para além das polêmicas que sua trajetória possa ter suscitado, é inegável que Guzzo foi um defensor da coerência: acreditava que conservar significava, antes de tudo, escolher e proteger o que é verdadeiramente bom.
A morte de José Roberto Guzzo deixa não apenas um vazio no jornalismo de opinião, mas também uma provocação importante: o que realmente queremos conservar? Seus escritos nos convidam a revisitar essa pergunta com honestidade intelectual e coragem moral, qualidades que ele cultivou ao longo da vida.
Ao recordarmos sua frase emblemática, concluímos que, para Guzzo, o conservadorismo não poderia ser instrumento de defesa de líderes ou ideologias ruins. Sua lógica é cristalina:
se algo não é bom, não merece ser conservado — logo, não é conservadorismo.
Nesse sentido, seu pensamento serve como antídoto contra distorções conceituais e lembrança de que ideias políticas não podem ser sequestradas por projetos pessoais ou temporários.
José Roberto Guzzo se despede, mas sua visão permanece como farol para aqueles que buscam distinguir a verdadeira essência do conservadorismo em tempos de confusão e radicalismos
Pedro Oliveira
Jornalista e escritor







