Durante décadas, as tarifas alfandegárias — popularmente chamadas de “taxas” — foram justificadas como instrumentos legítimos para a proteção de indústrias emergentes. Era o chamado protecionismo infantil, expressão cunhada por economistas para descrever o mecanismo pelo qual um país recém-industrializado busca se proteger da concorrência externa até que sua indústria amadureça. À primeira vista, parecia razoável: como competir com as manufaturas britânicas do século XIX ou com os conglomerados norte-americanos do século XX sem um período de incubação econômica?
O problema é que o tempo passou — e a proteção virou vício.
A ideia inicial era clara: proteger temporariamente para competir futuramente. Mas o que se viu, especialmente em países de industrialização tardia como o Brasil, foi a perpetuação de barreiras comerciais em nome de uma indústria que jamais amadureceu por completo. Em vez de se converterem em inovação tecnológica e aumento de produtividade, as tarifas se tornaram muletas para setores ineficientes, comodamente adaptados à ausência de concorrência.
A ilusão da proteção
Em sua essência, a taxa (ou tarifa) é um mecanismo artificial de elevação de preços de produtos estrangeiros, com o objetivo de tornar os produtos nacionais mais atraentes — não pela qualidade ou inovação, mas pela simples exclusão do concorrente mais eficiente.
Na teoria, isso permitiria à indústria local crescer, investir em tecnologia, ganhar escala e, um dia, competir em igualdade de condições. Mas no Brasil, esse ciclo nunca se completou. Ao contrário: setores protegidos passaram a depender da proteção como condição de existência, e o Estado alimentou esse modelo com incentivos fiscais, isenções e subsídios, muitas vezes sem contrapartidas reais em produtividade ou pesquisa.
Inovação: a peça ausente
A única via legítima e sustentável para romper a dependência das tarifas seria o investimento maciço e sistemático em inovação tecnológica, conduzido tanto pelo setor privado quanto pelo poder público. Mas o que se viu foi o inverso: enquanto países como Alemanha, Coreia do Sul e Estados Unidos canalizaram recursos para pesquisa, universidades, startups e redes de inovação, o Brasil reduziu sua capacidade científica, desidratou universidades, engessou a burocracia e tratou a ciência como luxo ideológico.
Não há competitividade industrial sem inovação. E não há inovação sem projeto de Estado. Qualquer sistema produtivo só amadurece se for exposto ao rigor da competitividade.
A vingança dos que inovam
É nesse cenário que surgem tensões comerciais como as sobretaxas impostas pelos Estados Unidos, por exemplo, sobre produtos brasileiros. Não se trata apenas de retaliação ou protecionismo estratégico. Em muitos casos, essas medidas refletem o incômodo real de países que investiram — e continuam investindo — bilhões de dólares por ano em pesquisa, desenvolvimento e diferenciação tecnológica. É natural que tais países reajam contra a entrada de produtos subsidiados, ineficientes ou com práticas industriais defasadas.
A proteção permanente, que começou como defesa, tornou-se provocação internacional. O mundo não aceita mais a desculpa da “infância industrial” depois de 50, 60 ou 70 anos. Os países que ousaram inovar cobram reciprocidade — e não aceitam mais o argumento de “coitadinhos do sul global”.
Exportação de miséria
Conscientes da incapacidade de competir com produtos industrializados de alta complexidade, os governos brasileiros passaram a adotar uma estratégia de inserção periférica no comércio internacional: ampliar a exportação de commodities, minérios, alimentos e produtos primários de baixo valor agregado. É a volta ao século XIX, com navios carregados de soja, minério de ferro e carne, enquanto a balança comercial depende do volume, não da qualidade. Na maioria dos casos casos exportamos 1 tonelada de produtos primários para comprar 1 KG de produto acabado, se muito!
Essa opção é, além de frágil, indigna. Ela aprisiona o país numa economia de baixo salário, baixa qualificação e baixa ambição. Um modelo que gera empregos apenas para sustentar o consumo mínimo, que demanda transferência de renda contínua do Estado, e que desestimula o sonho de ascensão intelectual e científica.
A solução está no horizonte — mas exige coragem
O Brasil só poderá sair dessa armadilha se houver uma decisão estratégica dos governantes: abandonar a dependência da proteção tarifária como ferramenta central e adotar a inovação tecnológica como principal política industrial. Isso exige:
•investimento constante em pesquisa e desenvolvimento;
•fortalecimento das universidades e centros técnicos;
•abertura seletiva e negociada da economia;
•parcerias internacionais de transferência de tecnologia;
•estímulo real à competitividade baseada em qualidade e eficiência — não em reservas de mercado.
É uma mudança cultural, não apenas econômica. Exige que o país troque a retórica do protecionismo pela prática da excelência. Exige que governos deixem de medir o sucesso por votos comprados com auxílio social e passem a enxergar a inovação como a única forma sustentável de justiça social.
Enfim,
A taxa, a tarifa, o bloqueio à concorrência — tudo isso foi importante em algum momento da história. Mas não é possível viver para sempre sob a desculpa da infância industrial. O mundo já compreendeu que a chave do desenvolvimento está na capacidade de inovar, de criar, de agregar valor. E enquanto o Brasil continuar exportando minério bruto e importando tecnologia cara, continuará dependente, frágil e refém de um passado que já não convence ninguém.
Chegou a hora de abandonar as muletas e aprender a andar com as próprias pernas. A economia do futuro não tolera protecionismos eternos — apenas ideias transformadoras.
RUI GUERRA
Analista colaborador do Resumo Política
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