Na superfície, a narrativa é simples: Jair Bolsonaro está sendo processado e investigado porque cometeu crimes, e “a justiça está sendo feita”.
Mas, em um país onde a seletividade jurídica é regra e não exceção, acreditar que este seja o único motivo é ingenuidade ou, no mínimo, meia-verdade.
O tratamento que Bolsonaro recebe é fruto de um amálgama de sentimentos e interesses — ódio, medo, prevenção e cálculo político — e seu caso se encaixa em um padrão histórico que já atingiu outros líderes no Brasil e no mundo.
O ódio como projeto político
Para um segmento expressivo da elite política, cultural e midiática, Bolsonaro é mais do que um adversário eleitoral: é um “corpo estranho” no sistema.
Sua retórica antiestablishment, a ruptura com formalidades institucionais e o estilo frontal geraram uma rejeição que não se esgota com a derrota nas urnas.
Há um componente emocional: o ódio.
Mas não é um ódio difuso; é um ódio mobilizador, que transforma o ato de derrotá-lo em símbolo de triunfo cultural e político.
Assim como Fernando Collor, que foi alvo de campanhas ferozes no início dos anos 1990, ou como Richard Nixon, nos Estados Unidos, Bolsonaro virou para seus adversários a personificação de tudo o que deve ser combatido.
Eliminar sua força política é, para esses grupos, mais do que um objetivo pragmático: é um troféu.
O medo do retorno
Mais do que eliminá-lo pelo passado, há a urgência de neutralizá-lo pelo futuro.
Apesar das derrotas, Bolsonaro mantém uma base eleitoral orgânica, numerosa e fiel — algo que nem Collor, nem Dilma Rousseff conseguiram preservar após deixarem o poder.
Essa base é barulhenta, militante e, sobretudo, resistente à narrativa dominante nos grandes veículos de comunicação.
E há um dado que intensifica esse medo: cada dia fica mais evidente que o Bolsonarismo é mais forte que o Lulismo.
Enquanto o lulismo depende totalmente da presença e liderança de Lula para existir, o bolsonarismo já mostra capacidade de se projetar para além de seu criador.
A presença de figuras como Tarcísio de Freitas e outras lideranças emergentes comprova que a corrente política pode se manter viva e competitiva mesmo sem Bolsonaro na urna.
Isso significa que, mesmo que consigam afastar o ex-presidente do jogo eleitoral, o campo político que ele abriu continuará ativo — e talvez até mais adaptado às regras do sistema.
O fantasma do revide
Outro ingrediente, menos declarado mas igualmente poderoso, é o temor da vingança.
Bolsonaro nunca cultivou a imagem de político conciliador com adversários, e há quem veja nele a disposição de usar o poder de forma punitiva contra os que o atacaram.
A história política brasileira tem exemplos dessa dinâmica. Getúlio Vargas, após seu retorno em 1951, não poupou adversários. Juan Domingo Perón, na Argentina, fez o mesmo ao voltar em 1973.
Para muitos dos que hoje trabalham por sua derrocada, enfraquecê-lo agora é uma forma de se proteger amanhã.
O raciocínio é: quanto mais enfraquecido ele estiver no presente, menor a capacidade de revide no futuro.
A justiça como capa, a seletividade como regra
O discurso oficial para justificar as ações contra Bolsonaro é o cumprimento da lei.
No entanto, quando figuras com acusações tão ou mais graves permanecem ativas e até ocupando cargos estratégicos, fica evidente que a aplicação não é universal.
A seletividade jurídica é parte da tradição brasileira.
No caso do ex-presidente Lula, as condenações foram anuladas por questões processuais, apesar do mérito das provas não ter sido tecnicamente rebatido em muitos pontos.
No caso de outros líderes de partidos tradicionais, processos dormem nas gavetas do Judiciário sem gerar efeito prático.
Essa assimetria dá força à tese de que o que está em jogo é mais político do que jurídico.
Convergência de interesses: a coalizão anti-Bolsonaro.
O enfraquecimento do ex-presidente serve a múltiplos atores:
•Adversários políticos: retiram do caminho um competidor viável e com forte apelo popular.
•Setores do Judiciário: reforçam seu papel de árbitros supremos do jogo político.
•Parte da imprensa: mantém a narrativa polarizadora que garante audiência.
•Antigos aliados: liberam espaço para novas lideranças na direita que hoje vivem à sua sombra.
É o que se poderia chamar de “coalizão anti-Bolsonaro” — uma aliança informal de interesses convergentes que não necessariamente partilham dos mesmos valores, mas que se beneficiam do mesmo resultado: sua neutralização.
•Fernando Collor (Brasil, 1992): caiu por um conjunto de fatores, incluindo erros próprios, pressão popular e articulação política. Mas o que se viu foi também a convergência de interesses de grupos que temiam sua agenda de modernização econômica e sua independência em relação ao Congresso.
•Getúlio Vargas (Brasil, 1945 e 1954): deposto e depois retornando ao poder, foi alvo de campanhas ferozes que misturavam oposição ideológica, medo de sua força popular e resistência de elites econômicas.
•Juan Domingo Perón (Argentina, 1955 e 1973): exilado por 18 anos, voltou com enorme apoio popular, mas carregando consigo a promessa de revanche contra setores militares e civis que o afastaram.
•Richard Nixon (EUA, 1974): a queda pelo escândalo de Watergate teve base jurídica real, mas foi potencializada por adversários políticos que viram na crise a chance de eliminar um presidente poderoso e polarizador.
O padrão se repete: quando um líder polarizador cai, dificilmente é só por seus erros — é pela soma de erros, inimigos e medo do que ele ainda pode fazer.
No caso brasileiro atual, as ações contra Bolsonaro não se limitam ao passado.
A intensidade com que se busca sua inelegibilidade, o ritmo acelerado de julgamentos e a exposição midiática contínua mostram que o objetivo é impedir que ele seja um fator relevante no próximo ciclo eleitoral.
Mas, ao contrário do lulismo — que só existe enquanto Lula estiver ativo —, o bolsonarismo já provou que pode sobreviver ao seu criador.
Isso significa que o cálculo dos adversários não é apenas remover Bolsonaro, mas tentar sufocar também o ecossistema político que se formou em torno dele.
O problema é que, quanto mais se ataca, mais essa base se radicaliza e se organiza, criando novas lideranças e mantendo vivo o capital eleitoral.
O que querem de Bolsonaro não é apenas puni-lo pelo que fez, mas garantir que ele não possa fazer mais — nem voltar ao poder, nem usar o poder para punir quem hoje o ataca.
O ódio é o tempero, o medo é o motor, e a prevenção é a estratégia.
O discurso de “fazer justiça” funciona bem para consumo público, mas por baixo dessa superfície há uma operação complexa e calculada, na qual diferentes setores — políticos, judiciais, midiáticos e até parte da própria direita — se alinham temporariamente em torno de um objetivo comum: neutralizar o único líder que, goste-se dele ou não, construiu um movimento que sobrevive sem ele.
E é isso, paradoxalmente, que torna o bolsonarismo mais temido que o lulismo.
Porque Lula é insubstituível para o seu campo — e isso o limita.
Bolsonaro, ao contrário, já é mais do que um homem: é um fenômeno político com sucessores à vista.