Quando a palavra era lenta
Houve um tempo em que a notícia andava a pé. O que se dizia na feira, na porta da igreja ou no balcão da venda passava de boca em boca, moldado pela memória e pela confiança em quem falava. A informação tinha o ritmo dos pés, o alcance da voz e a resistência do silêncio. Mobilizar pessoas exigia proximidade, tempo e repetição paciente. E havia um intervalo precioso entre ouvir e reagir — espaço em que a razão podia se instalar.
A era das ondas e das imagens
O rádio rompeu as distâncias. Pela primeira vez, uma única voz podia entrar na casa de milhares ao mesmo tempo. Depois veio a televisão, que deu rosto e corpo às palavras. A imagem seduzia, emocionava e, muitas vezes, dispensava argumentos.
Se antes a influência dependia de lideranças locais, agora podia ser centralizada e controlada por poucos emissores. Bastava dominar a frequência certa, e o país inteiro ouvia — e acreditava.
O mundo no bolso
O computador ligou pontos distantes. A internet derrubou fronteiras. Mas foi o celular que transformou o mundo numa extensão da mão. A informação deixou de ser procurada; passou a nos encontrar.
E com ela veio a avalanche de mensagens, memes, vídeos e opiniões que chegam mais rápido do que qualquer possibilidade de reflexão.
Hoje, a Inteligência Artificial já molda discursos para cada ouvido, personalizando a persuasão. Não é mais a propaganda para todos — é a propaganda feita sob medida para você.
O truque da multidão unida pelo engano
Neste cenário, tornou-se simples fazer um cidadão com um fundo de R$ 10 mil defender a mesma bandeira de um especulador com US$ 1 trilhão. A narrativa é cuidadosamente construída para parecer um interesse comum: “defender o investidor”, “proteger a liberdade econômica”, “evitar a mão pesada do Estado”.
Na prática, o pequeno poupador acredita estar blindando seu futuro, enquanto empresta sua voz a quem usa essa mesma defesa para escapar de qualquer contribuição justa à sociedade.
Produção, especulação e o imposto que não chega
A economia real vive de quem produz: indústria, agricultura, serviços. A especulação vive de quem movimenta capitais, buscando lucro rápido sem criar riqueza tangível.
Um modelo tributário justo saberia diferenciar o incentivo ao primeiro e o controle do segundo. Mas a força política e comunicacional do capital especulativo é tão grande que essa separação raramente acontece.
Veja o caso do IOF: há operações milionárias que escapam à tributação, enquanto movimentações simples, acessíveis ao cidadão comum, pagam.
A ironia é que a isenção do grande é, muitas vezes, defendida pelo pequeno — movido por uma crença plantada e regada por campanhas hábeis.
Democracia e persuasão acelerada
A democracia dá voz a todos, mas essa mesma voz pode ser usada contra quem a emite. A engenharia da persuasão aprendeu a explorar o voto e a opinião do cidadão comum como instrumento de manutenção dos privilégios.
Basta repetir um argumento simples e emocional vezes suficientes para que se torne senso comum. O tempo da dúvida foi encurtado; o espaço da reflexão foi ocupado por slogans.
Exemplos históricos e atuais
Brasil — O mito do “imposto único ruim”
Nos anos 1990 e 2000, campanhas contra determinados tributos eram amplamente divulgadas como se a sua eliminação favorecesse “todos os brasileiros”. Na prática, a retirada ou redução atingia proporcionalmente mais os grandes detentores de capital e pouco beneficiava quem vivia de salário.
Recentemente, a defesa de isenções sobre aplicações financeiras de alta rotatividade foi vendida como proteção ao “pequeno investidor” — argumento absorvido até por quem nunca aplicou além da poupança.
Estados Unidos — O Tea Party e a retórica anti-impostos
Em 2009, o movimento “Tea Party” mobilizou milhões contra impostos e programas sociais, vendendo a ideia de que todos seriam prejudicados pelo “governo grande”. O efeito real foi blindar cortes de impostos para bilionários e reduzir investimentos públicos que beneficiavam a classe média. Pequenos empresários e trabalhadores protestavam lado a lado com grandes conglomerados financeiros que jamais precisariam dos programas cortados.
Reino Unido — Brexit e a narrativa da soberania
A campanha pelo Brexit usou mensagens simples e emocionais sobre “recuperar o controle” e “proteger empregos britânicos”. Para muitos eleitores, parecia uma decisão econômica patriótica. No entanto, boa parte das elites empresariais que apoiaram a saída já tinham mecanismos para proteger seus lucros em qualquer cenário, enquanto trabalhadores comuns enfrentaram perdas imediatas de oportunidades e renda.
América Latina — Combustíveis e subsídios cruzados
Em vários países, protestos contra impostos sobre combustíveis foram estimulados por setores que se beneficiavam de manter subsídios altos e distorções de preços. O cidadão comum acreditava lutar pelo “direito de encher o tanque mais barato”, mas, no longo prazo, essa política drenava recursos públicos que poderiam ter sido investidos em transporte coletivo e infraestrutura.
A engrenagem da repetição
O processo é claro:
1.Escolhe-se um inimigo visível — um imposto, um político, um “sistema”.
2.Constrói-se uma narrativa emocional que liga a luta contra esse inimigo a valores universais.
3.Repete-se a mensagem até que ela seja incontestável.
4.Usa-se exemplos pessoais que confirmam a narrativa, ainda que representem exceções.
Assim, causas técnicas e complexas, como a justiça tributária, perdem para frases de efeito fáceis de compartilhar.
O descompasso fatal
A velocidade da comunicação superou a capacidade média de discernimento. Uma mentira bem contada hoje pode circular o planeta antes que a primeira análise crítica seja escrita.
O algoritmo das redes sociais não quer que você pense — quer que você reaja. E reações rápidas são, quase sempre, emocionais, não racionais.
A única saída: elevar o patamar
Não há lei ou regulamento capaz de corrigir essa distorção sem que haja elevação cultural e instrucional da população. Isso não significa apenas mais anos de estudo, mas formação para ler além da manchete, identificar interesses ocultos e compreender noções básicas de economia e política.
Enquanto isso não acontece, viveremos no paradoxo: o pobre defendendo o privilégio fiscal do rico; o pequeno investidor marchando pela causa do especulador; o voto servindo a quem sabe usá-lo como ferramenta de lucro.
O preço da ingenuidade
A democracia continua sendo, em teoria, o governo do povo para o povo. Mas, na prática, será sempre o governo de quem consegue mobilizar o povo a seu favor — mesmo que isso signifique enganá-lo.
Enquanto a velocidade da voz não for acompanhada pela velocidade do pensamento, continuaremos presos ao mesmo ciclo: indignação, mobilização, vitória… e frustração.
A pergunta é: até quando aceitaremos que nossa boa-fé seja o capital mais rentável dos espertos?
RUI GUERRA
Analista colaborador do Resumo Política
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