A cortina de fumaça: operações policiais e a disputa pela narrativa política.
A política, mais do que a arte de governar, é a arte de gerir percepções. Governos bem-sucedidos não são apenas aqueles que acertam nas políticas públicas, mas, sobretudo, aqueles capazes de controlar o fluxo de informações que circulam na sociedade. No Brasil, onde a opinião pública é moldada diariamente pelo noticiário televisivo, pelas redes sociais e pela repercussão de investigações policiais, esse jogo ganha uma dimensão ainda mais estratégica. O caso recente da operação da Polícia Federal contra um grupo criminoso no setor de combustíveis é um exemplo emblemático de como fatos técnicos podem ser utilizados com cálculo político para influenciar o debate público.
A coincidência temporal e o contexto da CPI do INSS
Na mesma semana em que a CPI do INSS ganhou manchetes com revelações incômodas para o governo, surgiu a notícia de que a PF deflagrou uma grande operação contra fraudes no setor de combustíveis. Setores que lidam com impostos, tributos e combustíveis são historicamente sensíveis porque envolvem bilhões de reais em circulação e despertam o interesse tanto de organizações criminosas quanto da sociedade, que paga a conta final na bomba de gasolina. Portanto, não há dúvida de que a ação da PF tem relevância real.
Mas o ponto central não é a legitimidade da operação em si, e sim o momento em que ela foi anunciada. Em política, raramente há coincidências. O impacto midiático de uma grande operação, com imagens de agentes cumprindo mandados, helicópteros sobrevoando cidades e empresários sendo conduzidos pela polícia, cria uma narrativa poderosa: o Estado está atuando, o governo está no controle e as instituições estão funcionando. Essa narrativa, amplificada pela imprensa parceira, compete diretamente com as notícias negativas que vinham da CPI do INSS.
A estratégia do “agenda setting”
Na comunicação política existe um conceito fundamental: o de agenda setting. Ele parte da premissa de que a mídia não diz às pessoas “o que pensar”, mas sim “sobre o que pensar”. Em outras palavras, quem define os temas do debate público tem uma vantagem enorme. Governos cientes dessa dinâmica procuram produzir fatos alternativos para diluir ou desviar a atenção de pautas negativas.
Assim, quando a CPI ameaça revelar desmandos administrativos, o governo aciona sua engrenagem de comunicação para gerar um fato positivo: o combate à criminalidade. Não se trata de inventar operações, mas de calibrar seu timing. Muitas vezes, investigações que já vinham sendo preparadas são agendadas para ganhar repercussão justamente em momentos politicamente delicados.
Essa técnica não é exclusiva do Brasil. Nos Estados Unidos, por exemplo, presidentes frequentemente anunciam medidas de política externa ou de segurança nacional em momentos de crise interna. A lógica é a mesma: deslocar o foco da opinião pública.
O papel da mídia parceira
No caso brasileiro, há um elemento adicional: o uso de canais oficiais e de veículos alinhados para amplificar a mensagem. A Agência Brasil, órgão de comunicação do próprio governo, foi a primeira a noticiar a operação, garantindo manchetes em cadeia. A partir daí, jornais e televisões repercutem a informação, muitas vezes sem questionar a coincidência temporal.
Esse mecanismo cria o que se chama de “efeito cascata”: o governo gera a pauta inicial, e a imprensa reproduz. O cidadão comum, ao ligar a televisão ou acessar as redes sociais, tem a impressão de que o tema central do dia é a atuação enérgica contra o crime, e não a exposição das fragilidades do INSS. É a cortina de fumaça em sua forma mais clássica.
A política da percepção
Essa estratégia funciona porque a política contemporânea é menos sobre fatos concretos e mais sobre percepções. Para boa parte da população, o que importa não é tanto o resultado final das políticas públicas, mas sim a sensação de que o governo “está fazendo alguma coisa”. A operação da PF entrega exatamente essa imagem: de um Estado ativo, vigilante e combativo.
No entanto, há um risco embutido nesse tipo de tática. Quando usada de forma recorrente, a população pode começar a perceber que existe manipulação. A cada crise, uma nova operação espetaculosa; a cada CPI, uma nova manchete policial. A repetição excessiva desgasta o recurso, tornando-o previsível e, consequentemente, menos eficaz.
O risco institucional
Outro risco é o impacto sobre as próprias instituições. A Polícia Federal é, em tese, uma instituição autônoma, responsável por investigações técnicas. Mas quando suas operações passam a ser percebidas como instrumentos de conveniência política, sua credibilidade é corroída. Esse desgaste pode, no longo prazo, comprometer a confiança da sociedade no sistema de justiça.
Além disso, ao colocar operações policiais como válvula de escape para crises políticas, o governo evita enfrentar o problema central. No caso atual, a CPI do INSS levanta questionamentos sérios sobre gestão, corrupção e uso de recursos públicos. Jogar esses problemas para debaixo do tapete, desviando o foco, não elimina sua existência. Pelo contrário: aumenta a pressão para que, mais cedo ou mais tarde, explodam em proporções ainda maiores.
A lógica do curto prazo
Não é de hoje que a política brasileira opera na lógica do curto prazo. Governos buscam sobreviver ao ciclo de 24 horas do noticiário. Se hoje a manchete negativa pode ser abafada por uma operação policial, considera-se que o problema foi resolvido. Mas essa é uma visão míope. As CPIs, por exemplo, não desaparecem porque a mídia fala menos delas em determinado dia. Seus relatórios avançam, suas revelações se acumulam, e sua capacidade de gerar desgaste continua intacta.
Portanto, a cortina de fumaça pode até funcionar no imediato, mas não resolve a crise de fundo. É como aplicar maquiagem em uma ferida aberta: o aspecto externo melhora, mas a infecção continua.
A lição política
O episódio atual nos lembra uma lição importante: em política, a gestão de narrativas é tão relevante quanto a gestão de políticas públicas. Mas há limites. Quando um governo passa a depender excessivamente da narrativa para sobreviver, corre o risco de se tornar refém de suas próprias encenações. Afinal, cada operação policial que serve de cortina de fumaça precisa ser mais impactante que a anterior, para continuar surtindo efeito. Isso gera uma escalada que pode se tornar insustentável.
A sociedade, por sua vez, precisa estar atenta. Não basta consumir o noticiário de forma passiva; é preciso questionar os contextos, identificar os interesses e compreender que nem toda coincidência é inocente. Um cidadão crítico é a melhor arma contra as estratégias de manipulação.
Conclusão
A operação da PF contra o grupo criminoso do setor de combustíveis é, sem dúvida, relevante. Mas sua coincidência com a CPI do INSS levanta suspeitas de uso político. O governo, ao alimentar a mídia com pautas positivas em momentos de crise, demonstra habilidade em gerenciar a narrativa, mas também revela uma fragilidade: a incapacidade de enfrentar de frente os problemas que o incomodam.
No final das contas, a cortina de fumaça pode até nublar a visão por algum tempo, mas não apaga a realidade. E quando a fumaça dissipa, o que fica é a necessidade de encarar os fatos. A política brasileira, marcada por atalhos comunicacionais, precisa entender que nenhuma narrativa substitui a verdade. E que, mais cedo ou mais tarde, a verdade sempre encontra seu caminho.
Analista colaborador do Resumo Política







