A cada crise política, a opinião pública brasileira parece repetir o mesmo ritual: culpar governos e partidos pelo colapso moral e ético que atravessa a República. O alvo mais recente dessa indignação tem sido o PT, acusado de corrupção, aparelhamento e falta de resíduo moral nas decisões de governo. Mas reduzir o problema ao petismo é uma forma simplista de olhar para um sistema muito mais amplo, que envolve todos os partidos e, sobretudo, uma engrenagem que opera acima deles: a Rede Globo.
O problema do Brasil não está apenas no instinto corruptor do PT — que, diga-se, compartilha com qualquer partido político a busca incessante pelo poder e pelos benefícios que ele gera. O problema está em quem molda a opinião de milhões de eleitores diariamente. O problema está em quem ocupa, há décadas, o verdadeiro palanque eterno do Brasil: a Globo.
O ciclo da corrupção política
Antes de apontar para a mídia, é preciso reconhecer uma realidade incômoda: nenhum partido brasileiro está imune à tentação do poder. O PT não inventou a corrupção. Antes dele, outros partidos usaram a máquina pública para fins privados; depois dele, outros continuarão usando. O fisiologismo, o clientelismo, as alianças escusas e a compra de apoios são práticas históricas de nossa política.
A ausência de resíduo moral — isto é, a incapacidade de decisões governamentais se pautarem por princípios éticos duradouros — não é uma exclusividade petista. Ela é uma marca estrutural da política brasileira, onde o imediatismo eleitoral e os interesses de grupos específicos prevalecem sobre a visão de país.
Dito isso, a questão central passa a ser: quem garante a sobrevivência desse sistema? Quem define quais escândalos serão lembrados e quais serão esquecidos? Quem escolhe os vilões e os heróis de cada momento?
O poder da Globo
A resposta leva inevitavelmente à Globo. Com uma audiência diária de cerca de 25 milhões de pessoas, a emissora não é apenas um veículo de comunicação. É um poder político em si mesma. O que aparece no Jornal Nacional é, para a maioria da população, a realidade definitiva. O que não aparece simplesmente não existe.
Esse poder de enquadrar a realidade é o que os teóricos da comunicação chamam de agenda setting. A Globo não diz diretamente ao público o que pensar, mas define sobre o que pensar. Ao selecionar os temas, ao escolher quais imagens mostrar, ao decidir a ênfase de uma manchete, a emissora constrói percepções que se transformam em opinião pública.
Mais do que um partido político, que depende de eleições e mandatos, a Globo busca a eternidade. Ela não disputa uma eleição específica; disputa a hegemonia da narrativa nacional. Por isso é o maior e mais desejado palanque do Brasil. Presidentes passam, partidos caem, mas a Globo permanece, adaptando-se às circunstâncias, blindando aliados e derrubando adversários conforme sua conveniência.
A lógica da manipulação
O poder da Globo se manifesta de diversas formas:
•Blindagem seletiva: escândalos envolvendo aliados recebem cobertura tímida ou são tratados como casos isolados.
•Exposição destrutiva: adversários incômodos são massacrados por semanas, até que a opinião pública se convença de sua culpa, mesmo antes de qualquer julgamento.
•Cortinas de fumaça: operações espetaculares, crises artificiais ou pautas periféricas são usadas para desviar a atenção de temas que poderiam abalar estruturas de poder.
•Personalização política: ao transformar disputas complexas em narrativas de mocinhos e vilões, a Globo simplifica a realidade e orienta a percepção do eleitor comum.
Esse padrão cria um círculo vicioso: partidos e políticos se submetem à lógica da Globo, buscando sua aprovação para sobreviver. Quem ousa confrontar o sistema midiático descobre rapidamente que a máquina pode ser impiedosa. Assim, a democracia brasileira vive em constante refém de uma emissora que não se apresenta como partido, mas que exerce poder maior que qualquer sigla.
O erro da esquerda e da direita
Tanto a esquerda quanto a direita caíram na armadilha de enxergar umas às outras como inimigas principais. O PT demoniza a direita; a direita demoniza o PT. Mas enquanto se digladiam em torno da próxima eleição, a Globo mantém sua posição intocável, ditando as regras do jogo.
A esquerda, obcecada pela manutenção do poder, esquece que sua luta é apenas por mais quatro anos de mandato. A Globo, ao contrário, joga o jogo da eternidade, garantindo-se como a arena inevitável da política nacional. A direita, quando governa, repete a submissão, acreditando que pode usar a Globo a seu favor — mas descobre rapidamente que a lógica é sempre unilateral: quem usa, é usado.
A consequência para a democracia
O maior dano desse arranjo não é apenas a corrupção política ou a manipulação midiática em si, mas o efeito corrosivo sobre a democracia. Quando 25 milhões de eleitores recebem, todos os dias, a mesma narrativa centralizada, a pluralidade de vozes se perde. O debate público se empobrece, a polarização se acentua e a crítica se dilui em espetáculos televisivos.
Essa concentração de poder comunicacional enfraquece partidos, esvazia o Parlamento e até relativiza o Judiciário. Na prática, o verdadeiro tribunal da política brasileira é o Jornal Nacional. Ali se decide quem será legitimado e quem será condenado perante a opinião pública. Nenhum partido ou governo tem condições de competir com essa máquina.
O que fazer?
O primeiro passo é reconhecer que a corrupção política, embora grave, não é o único nem o principal problema. Ela é sintoma de um sistema mais amplo, sustentado pelo monopólio narrativo da Globo. Sem enfrentar essa questão, qualquer reforma política será parcial.
O Brasil precisa de mecanismos de pluralização da mídia, que assegurem espaço real para diferentes vozes e que reduzam o poder concentrado em uma única emissora. Isso não significa censura, mas sim garantia de competição justa e de diversidade informativa.
Além disso, cabe à sociedade civil e às novas plataformas digitais romper a dependência do monopólio televisivo. A internet abriu caminhos, mas ainda falta transformar essa potencialidade em alternativa concreta de massa. Enquanto milhões dependerem exclusivamente da TV para se informar, o jogo continuará viciado.
Conclusão
Quando o Brasil vai entender que o problema não está apenas no PT ou em qualquer outro partido? Quando vai perceber que a ausência de resíduo moral nas decisões de governo é apenas reflexo de um sistema mais profundo? Quando vai aceitar que o verdadeiro adversário não é a esquerda, nem a direita, mas a Globo, que busca não a próxima eleição, mas a eternidade?
Essa é a pergunta fundamental. O dia em que o país compreender isso, estará mais próximo de uma verdadeira democracia, em que o poder não se concentra em uma emissora, mas se reparte entre instituições sólidas e cidadãos informados por múltiplas vozes.
Até lá, continuaremos a confundir sintomas com causas, partidos com estruturas, eleições com eternidade. E a Globo continuará reinando como o palanque invisível que nunca precisa disputar votos, mas que sempre vence no jogo do poder.
RUI GUERRA
Analista colaborador do Resumo Política
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