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EFEITO DEMONSTRAÇÃO NA GESTÃO PÚBLICA👇

O verdadeiro adversário: a Globo, o poder de contar voto em audiência.

resumopolitico by resumopolitico
29 de agosto de 2025
in Destaque, LUPA, um olhar crítico de quem viveu na coxia
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A cada crise política, a opinião pública brasileira parece repetir o mesmo ritual: culpar governos e partidos pelo colapso moral e ético que atravessa a República. O alvo mais recente dessa indignação tem sido o PT, acusado de corrupção, aparelhamento e falta de resíduo moral nas decisões de governo. Mas reduzir o problema ao petismo é uma forma simplista de olhar para um sistema muito mais amplo, que envolve todos os partidos e, sobretudo, uma engrenagem que opera acima deles: a Rede Globo.
O problema do Brasil não está apenas no instinto corruptor do PT — que, diga-se, compartilha com qualquer partido político a busca incessante pelo poder e pelos benefícios que ele gera. O problema está em quem molda a opinião de milhões de eleitores diariamente. O problema está em quem ocupa, há décadas, o verdadeiro palanque eterno do Brasil: a Globo.
O ciclo da corrupção política
Antes de apontar para a mídia, é preciso reconhecer uma realidade incômoda: nenhum partido brasileiro está imune à tentação do poder. O PT não inventou a corrupção. Antes dele, outros partidos usaram a máquina pública para fins privados; depois dele, outros continuarão usando. O fisiologismo, o clientelismo, as alianças escusas e a compra de apoios são práticas históricas de nossa política.
A ausência de resíduo moral — isto é, a incapacidade de decisões governamentais se pautarem por princípios éticos duradouros — não é uma exclusividade petista. Ela é uma marca estrutural da política brasileira, onde o imediatismo eleitoral e os interesses de grupos específicos prevalecem sobre a visão de país.
Dito isso, a questão central passa a ser: quem garante a sobrevivência desse sistema? Quem define quais escândalos serão lembrados e quais serão esquecidos? Quem escolhe os vilões e os heróis de cada momento?
O poder da Globo
A resposta leva inevitavelmente à Globo. Com uma audiência diária de cerca de 25 milhões de pessoas, a emissora não é apenas um veículo de comunicação. É um poder político em si mesma. O que aparece no Jornal Nacional é, para a maioria da população, a realidade definitiva. O que não aparece simplesmente não existe.
Esse poder de enquadrar a realidade é o que os teóricos da comunicação chamam de agenda setting. A Globo não diz diretamente ao público o que pensar, mas define sobre o que pensar. Ao selecionar os temas, ao escolher quais imagens mostrar, ao decidir a ênfase de uma manchete, a emissora constrói percepções que se transformam em opinião pública.
Mais do que um partido político, que depende de eleições e mandatos, a Globo busca a eternidade. Ela não disputa uma eleição específica; disputa a hegemonia da narrativa nacional. Por isso é o maior e mais desejado palanque do Brasil. Presidentes passam, partidos caem, mas a Globo permanece, adaptando-se às circunstâncias, blindando aliados e derrubando adversários conforme sua conveniência.
A lógica da manipulação
O poder da Globo se manifesta de diversas formas:
•Blindagem seletiva: escândalos envolvendo aliados recebem cobertura tímida ou são tratados como casos isolados.
•Exposição destrutiva: adversários incômodos são massacrados por semanas, até que a opinião pública se convença de sua culpa, mesmo antes de qualquer julgamento.
•Cortinas de fumaça: operações espetaculares, crises artificiais ou pautas periféricas são usadas para desviar a atenção de temas que poderiam abalar estruturas de poder.
•Personalização política: ao transformar disputas complexas em narrativas de mocinhos e vilões, a Globo simplifica a realidade e orienta a percepção do eleitor comum.
Esse padrão cria um círculo vicioso: partidos e políticos se submetem à lógica da Globo, buscando sua aprovação para sobreviver. Quem ousa confrontar o sistema midiático descobre rapidamente que a máquina pode ser impiedosa. Assim, a democracia brasileira vive em constante refém de uma emissora que não se apresenta como partido, mas que exerce poder maior que qualquer sigla.
O erro da esquerda e da direita
Tanto a esquerda quanto a direita caíram na armadilha de enxergar umas às outras como inimigas principais. O PT demoniza a direita; a direita demoniza o PT. Mas enquanto se digladiam em torno da próxima eleição, a Globo mantém sua posição intocável, ditando as regras do jogo.
A esquerda, obcecada pela manutenção do poder, esquece que sua luta é apenas por mais quatro anos de mandato. A Globo, ao contrário, joga o jogo da eternidade, garantindo-se como a arena inevitável da política nacional. A direita, quando governa, repete a submissão, acreditando que pode usar a Globo a seu favor — mas descobre rapidamente que a lógica é sempre unilateral: quem usa, é usado.
A consequência para a democracia
O maior dano desse arranjo não é apenas a corrupção política ou a manipulação midiática em si, mas o efeito corrosivo sobre a democracia. Quando 25 milhões de eleitores recebem, todos os dias, a mesma narrativa centralizada, a pluralidade de vozes se perde. O debate público se empobrece, a polarização se acentua e a crítica se dilui em espetáculos televisivos.
Essa concentração de poder comunicacional enfraquece partidos, esvazia o Parlamento e até relativiza o Judiciário. Na prática, o verdadeiro tribunal da política brasileira é o Jornal Nacional. Ali se decide quem será legitimado e quem será condenado perante a opinião pública. Nenhum partido ou governo tem condições de competir com essa máquina.
O que fazer?
O primeiro passo é reconhecer que a corrupção política, embora grave, não é o único nem o principal problema. Ela é sintoma de um sistema mais amplo, sustentado pelo monopólio narrativo da Globo. Sem enfrentar essa questão, qualquer reforma política será parcial.
O Brasil precisa de mecanismos de pluralização da mídia, que assegurem espaço real para diferentes vozes e que reduzam o poder concentrado em uma única emissora. Isso não significa censura, mas sim garantia de competição justa e de diversidade informativa.
Além disso, cabe à sociedade civil e às novas plataformas digitais romper a dependência do monopólio televisivo. A internet abriu caminhos, mas ainda falta transformar essa potencialidade em alternativa concreta de massa. Enquanto milhões dependerem exclusivamente da TV para se informar, o jogo continuará viciado.
Conclusão
Quando o Brasil vai entender que o problema não está apenas no PT ou em qualquer outro partido? Quando vai perceber que a ausência de resíduo moral nas decisões de governo é apenas reflexo de um sistema mais profundo? Quando vai aceitar que o verdadeiro adversário não é a esquerda, nem a direita, mas a Globo, que busca não a próxima eleição, mas a eternidade?
Essa é a pergunta fundamental. O dia em que o país compreender isso, estará mais próximo de uma verdadeira democracia, em que o poder não se concentra em uma emissora, mas se reparte entre instituições sólidas e cidadãos informados por múltiplas vozes.
Até lá, continuaremos a confundir sintomas com causas, partidos com estruturas, eleições com eternidade. E a Globo continuará reinando como o palanque invisível que nunca precisa disputar votos, mas que sempre vence no jogo do poder.
RUI GUERRA
Analista colaborador do Resumo Política
“as opiniões emitidas por nossos colaboradores, não refletem, necessariamente, a opinião do site”
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