Nesse longo tempo de minha vida lidando com homens públicos, pelo caminho encontramos anjos e demônios.
Um grande amigo que passou por mim durante muitos anos, foi o Governador Divaldo Suruagy. Apesar de ele ser mais velho cinco anos do que eu, tomávamos o mesmo bonde do Farol. Divaldo, aluno do Colégio Batista e eu, normalista do Instituto de Educação.
Depois de casados, moramos na Avenida Moreira e Silva; Luzia com duas meninas e eu com minha primeira filha.
Foi Governador de Alagoas por três vezes e eu simples Presidente do “Velho Sindicato”. Nunca deixou de me ajudar e me recebia no Palácio Floriano Peixoto, sempre que o procurava.
Seus assessores me protegiam. Quando eu aparecia, me colocavam num lugar estratégico para falar com meu amigo, Governador. Verbas retidas do Sindicato na Secretaria da Fazenda eram liberadas e vários servidores do Legislativo foram socorridos, em época de crise.
Outro político que também era humilde e nos recebia bem, foi o Governador José Tavares. Íamos em sua casa e no Palácio era gentil e educado. Não se achava melhor do que os servidores. Deus o tenha em bom lugar.
Tivemos um Presidente do Legislativo que era médico, justo e de fino trato. Certa vez um Diretor Geral começou a perseguir duas funcionárias que se negaram a assinar um abaixo assinado em sua defesa. O pai de uma delas foi ao Dr. Mário e narrou o fato. O Presidente chamou o Diretor, na vista das duas servidoras e tomou as devidas providências. Elas voltaram a trabalhar em paz.
Não daria para esquecer o Deputado José Bernardes. Ajudou-nos a fundar nossa cooperativa médica. Homem simples, conversava com os servidores no pátio da Assembleia. Se um funcionário menos categorizado adoecesse e não tivesse plano de saúde, eu procurava o Zé e ele resolvia o caso.
Durante muitos anos convivemos na Assembleia com homens de bem, desprovidos de vaidade. Poderíamos citar o Deputado Benedito de Lira. Tratava os funcionários com consideração e sempre que possível, os ajudava.
Alguns parlamentares não foram mordidos pela “mosca azul” do “reinado”. Só depois da Constituição Estadual de 1989, com o duodécimo da Casa sendo gerido por eles, apareceu a necessidade de entrar na Justiça contra a Mesa Diretora para recuperar alguns direitos dos servidores. Eles, os dirigentes, achavam bom que os processos fossem para a Justiça, pois a lentidão os beneficiava. E riam dos pobres coitados funcionários.
Perdemos nossos anjos! Atualmente, para falar com um simples Diretor de Pessoal a demora é longa. Para devolver o que foi retirado dos proventos da criatura, é preciso esperar alguns meses.
Político no momento atual é um poço de poder e vaidade. Receber um servidor é passar por assessores também vaidosos que blindam a autoridade. São poucas e honrosas exceções.
Lembro-me de que precisei falar com um Presidente do Tribunal de Justiça. Liguei para ele e recebi a resposta: “Venha aqui amanhã, às 7 horas. Diga na recepção que a espero”. Fui lá e conversei sobre vários processos do sindicato; era o Desembargador José Fernandes, meu amigo de adolescência. Hoje é tudo muito distante.
Para os leitores terem uma ideia: Não conheço pessoalmente o Presidente do Legislativo. Nunca o vi e se o encontrar na rua, não sei quem é. Só o vejo nas manchetes dos jornais e na TV.
As saudades são muitas do tempo em que conversávamos com os Deputados no pátio da Assembleia. Hoje, só vemos carros maravilhosos e assessores cheios de ousadia.
Precisamos rezar pelos nossos anjos que já se foram. Tomara que tenham deixado plantada a semente da humildade no coração dos poderosos do momento.
Que Deus abençoe os políticos que ainda não caíram no ostracismo. Que eles se lembrem: O PODER É TEMPORÁRIO!
Alari Romariz Torres
É aposentada da Assembleia Legislativa
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