Se a década de 1930 foi marcada pela instabilidade e pela fragmentação econômica, os anos seguintes levariam o mundo ao limite da destruição. A Segunda Guerra Mundial (1939–1945) não apenas devastou países e populações: ela também arrasou sistemas produtivos, drenou reservas financeiras e desorganizou completamente as economias da Europa e da Ásia. Em contraste, os Estados Unidos emergiram fortalecidos, com superávits comerciais e financeiros, prontos para liderar a reconstrução e estabelecer uma nova ordem internacional.
O esforço de guerra e o custo econômico
O conflito mobilizou recursos humanos e materiais em escala inédita. Países europeus, já enfraquecidos pela crise dos anos 1930, lançaram-se em um esforço de guerra que consumia todo o excedente disponível.
•Reino Unido e França gastaram suas reservas em ouro e divisas para importar alimentos, armamentos e petróleo.
•Alemanha e Itália, sem acesso a capitais internacionais, sustentaram seu esforço militar por meio de pilhagem e ocupação de territórios.
•União Soviética sacrificou milhões de vidas e concentrou toda a produção em armamentos, destruindo a maior parte de sua infraestrutura no processo.
•Japão, isolado comercialmente, expandiu-se militarmente para obter matérias-primas na Ásia.
A guerra não deixava espaço para produção civil. Tudo era orientado para o esforço militar. Assim, quando o conflito terminou, a maioria dos países estava endividada, destruída e carente de infraestrutura básica.
A destruição material
As cenas do pós-guerra são conhecidas: cidades inteiras arrasadas por bombardeios, ferrovias e portos inutilizados, fábricas destruídas ou convertidas para uso militar. Estima-se que cerca de um terço da infraestrutura europeia tenha sido comprometida.
Na Alemanha, a destruição atingiu níveis colossais, com centros industriais reduzidos a escombros. O Japão viu duas cidades — Hiroshima e Nagasaki — arrasadas por bombas atômicas. O leste europeu ficou marcado por devastação material e humana.
A reconstrução não era apenas uma necessidade econômica, mas uma condição de sobrevivência.
O esgotamento financeiro europeu
Durante a guerra, países aliados recorreram maciçamente a empréstimos americanos. O Reino Unido, por exemplo, vendeu grande parte de seus ativos externos e hipotecou sua posição financeira global para sustentar o esforço de guerra.
Quando a paz chegou, as reservas em ouro da Europa estavam quase zeradas. Não havia capitais para importar alimentos, matérias-primas e máquinas. As moedas locais estavam desvalorizadas, a inflação corroía salários e a fome ameaçava milhões.
Essa fragilidade financeira deixava a Europa dependente de ajuda externa — e os Estados Unidos eram o único país com capacidade para fornecê-la.
O contraste americano
Ao contrário da Europa e da Ásia, os Estados Unidos não foram campo de batalha. Sua infraestrutura permaneceu intacta, e sua indústria cresceu vertiginosamente para abastecer os aliados com armas, veículos, alimentos e petróleo.
Entre 1939 e 1945, a produção industrial americana mais do que dobrou. O país acumulou cerca de dois terços das reservas mundiais de ouro e registrou superávits comerciais em todos os anos do conflito.
Quando a guerra terminou, Washington não apenas tinha a maior economia do mundo, mas também era o maior credor internacional, enquanto seus aliados estavam endividados. Essa posição de força permitiria aos EUA ditar os termos da reconstrução.
O papel da União Soviética
Do outro lado, a União Soviética emergia como potência militar, mas não econômica. Sua população havia sofrido perdas gigantescas, sua infraestrutura estava devastada e sua economia permanecia voltada para a produção militar.
Ainda assim, Moscou oferecia um modelo alternativo ao capitalismo liberal, baseado na planificação estatal. Essa dualidade — prosperidade americana versus reconstrução sob a sombra soviética — seria um dos elementos centrais da Guerra Fria e influenciaria também o debate sobre o sistema financeiro internacional.
A necessidade de uma nova ordem
Em 1945, estava claro que o sistema econômico internacional herdado do século XIX havia colapsado definitivamente:
•O padrão-ouro já não tinha credibilidade.
•O comércio internacional havia se reduzido a níveis mínimos.
•A confiança mútua fora corroída por guerras cambiais, protecionismo e dois conflitos mundiais em três décadas.
Para reconstruir a Europa e evitar o retorno do caos dos anos 1930, era preciso criar uma nova ordem monetária e financeira, capaz de garantir estabilidade, liquidez e cooperação.
O Plano Marshall e o financiamento da reconstrução
Em 1947, os EUA lançaram o Plano Marshall, um programa maciço de ajuda econômica que destinou mais de 13 bilhões de dólares (equivalente a centenas de bilhões atuais) à reconstrução da Europa. O dinheiro serviu para importar máquinas, alimentos, combustíveis e reconstruir a infraestrutura destruída.
O objetivo não era apenas econômico, mas também político: consolidar a influência americana no Ocidente e evitar que a crise abrisse espaço para a expansão soviética.
Com o Plano Marshall, o dólar espalhou-se pelo continente europeu, tornando-se o instrumento central de liquidez internacional.
O prelúdio de Bretton Woods
Na verdade, as bases dessa nova ordem haviam sido lançadas antes mesmo do fim da guerra. Em 1944, em Bretton Woods, representantes de 44 países já haviam se reunido para desenhar o sistema que regeria a economia mundial no pós-guerra.
O dólar, atrelado ao ouro, foi escolhido como moeda-âncora, e os EUA, como principal credor e detentor de reservas, estavam em posição de garantir estabilidade ao sistema. A devastação da Europa e da Ásia explicava a escolha: não havia outro país com condições de assumir esse papel.
Conclusão: o esgotamento que abriu espaço ao dólar
A Segunda Guerra Mundial não foi apenas um evento político e militar; foi também o ponto de inflexão econômico que consagrou os Estados Unidos como centro financeiro global.
Enquanto Europa e Ásia saíam da guerra arruinadas, os EUA acumulavam superávits e reservas de ouro, tornando-se o único país capaz de sustentar a reconstrução mundial.
O esgotamento europeu não apenas abriu espaço para a liderança americana, como também forçou a criação de um sistema que tivesse o dólar como pilar central. Assim, o conflito foi a última etapa de uma trajetória que começara com o colapso de 1929 e a década perdida: da destruição nasceu a necessidade de uma nova ordem, e o dólar tornou-se sua âncora.
RUI GUERRA
Analista colaborador do Resumo Política
“as opiniões emitidas por nossos colaboradores, não refletem, necessariamente, a opinião do site”