A política brasileira é pródiga em ensaios de conciliação. Ao longo de nossa história, os momentos de ruptura sempre foram seguidos por movimentos de acomodação, como se o sistema político tivesse uma força gravitacional que impede rupturas definitivas. No presente, a situação de Jair Bolsonaro e os julgamentos que o cercam parecem caminhar nesse mesmo compasso: o da condenação formal seguida de uma possível anistia, gestada nos bastidores e alimentada por sinais cada vez mais visíveis.
O silêncio como mensagem
O primeiro indício dessa costura é justamente o silêncio. Bolsonaro e sua família, conhecidos por explorar cada movimento político em declarações inflamadas, adotaram uma calma incomum. Não houve discursos desafiadores, nem ataques frontais à Justiça. Até mesmo Michele Bolsonaro, que havia anunciado com antecedência sua disposição de acompanhar o marido nas sessões de julgamento, agiu de forma discreta e preferiu não comparecer. Para um grupo político que vive do confronto, a ausência desse julgamento pode ser interpretada não como fraqueza, mas como cálculo: não tensionar um acordo que já estaria em marcha.
O silêncio, nesse caso, fala mais alto do que o barulho. Ele sugere que há confiança em um desfecho previamente negociado. E, se há confiança, é porque a família Bolsonaro não espera o pior.
O ritual da condenação
Outro aspecto que chama a atenção é a própria lógica do processo. Jornalistas experientes já afirmaram que a anistia, se vier, só poderia ocorrer após condenações formais. Isso porque, em termos institucionais, não faria sentido conceder perdão antes de se reconhecer a culpa. A condenação se transforma, portanto, em um rito de passagem: um ato simbólico para afirmar a autoridade da Justiça, seguido de um gesto político de clemência.
Essa dinâmica não é nova no Brasil. Nossa história está repleta de situações em que se condena para, logo depois, conciliar: assim foi na transição da ditadura para a democracia, quando se consolidou a Lei da Anistia de 1979; na operação “ lava jato “ condenou-se para em seguida encontrar um “ jeito “ para anistiar Lula e todos os seus companheiros; tem sido assim em diversos episódios de corrupção, em que raras punições seletivas abriram caminho para acordos. O padrão se repete: primeiro, a Justiça se afirma; depois, a política acomoda.
A força do Parlamento
Talvez o sinal mais evidente da articulação seja a movimentação partidária. A chamada “revoada” do governo, de PP e Podemos, para se unir ao PL amplia a força da direita no Congresso. Com cerca de 290 parlamentares alinhados ao tema da anistia, cria-se uma maioria capaz de pressionar não apenas o Executivo, mas também o Judiciário.
Essa articulação não se limita à figura de Bolsonaro. Ela revela o instinto de sobrevivência de toda uma classe política que teme abrir precedentes de cassação e inelegibilidade. Se Bolsonaro cair de forma definitiva, quem garante que outros líderes não seguirão, no futuro, o mesmo caminho? A cassação de Collor foi paga com a cassação de Dilma; a prisão de Lula foi paga com a prisão de Bolsonaro. A anistia, nesse contexto, seria uma proteção coletiva, uma blindagem que ultrapassa o interesse de uma só pessoa.
Tarcísio e o futuro
Nesse tabuleiro, a figura de Tarcísio de Freitas ganha centralidade. Sua visita ao presidente da Câmara, Hugo Motta, em busca de apoio pela anistia, não é apenas um gesto de lealdade a Bolsonaro. É também uma jogada estratégica: assumir compromissos e consolidar sua posição como o herdeiro natural da direita para 2026.
Possivelmente Tarcísio entende que, sem a anistia, Bolsonaro se tornará um mártir e continuará polarizando a política de fora para dentro, deixando pouco espaço para uma pacificação nacional. Com a anistia, por outro lado, Bolsonaro permanece como figura de liderança simbólica, porém mais agradecido e com menos exigência eleitoral. Isso abre o caminho para que Tarcísio se apresente como a continuidade prática do bolsonarismo, mas com roupagem mais palatável, pacificado com o sistema Globo, com o STF e o centro político.
O pacto da sucessão
Tudo indica, portanto, que a anistia se insere em um pacto mais amplo de paz e sucessão. Bolsonaro, anistiado, não precisaria mais se sacrificar em uma disputa de 2026, mas poderia transferir sua base para um candidato viável. A direita, fragmentada entre liberais, evangélicos e conservadores, encontraria assim um ponto de convergência.
Esse arranjo atende também a interesses externos do próprio sistema: Trump e seu governo ficariam satisfeito com o desfecho e o mundo empresarial brasileiro poderia trabalhar sem perturbações político-ideológicas. O governo atual, ainda que relutante, teria vantagem em negociar uma pacificação relativa, reduzindo riscos de radicalização violenta. O Judiciário, por sua vez, poderia se apresentar como firme — ao condenar — e magnânimo — ao aceitar a anistia aprovada pelo Congresso. Todos, em certa medida, preservariam sua narrativa.
Os riscos da acomodação
É provável, no entanto, que essa acomodação tenha custo institucional. Uma anistia pode ser vista como a negação do próprio sistema político. Condena-se de um lado, mas se retira a consequência de outro, confirmando uma praxe secular. Isso gera a percepção verdadeira de que a lei é maleável, ajustada aos interesses de quem comanda, enquanto comandados e, principalmente os anônimos, permanecem sujeitos à rigidez das penas.
Mais do que isso: a anistia sinaliza aos futuros líderes políticos que rupturas institucionais podem ser tentadas sem maiores riscos, pois ao final sempre haverá uma saída negociada.
Um desfecho previsível?
Seja como for, os sinais convergem: a calma dos Bolsonaro, a lógica da condenação seguida do perdão, a movimentação partidária, o protagonismo de Tarcísio e a costura pela sucessão. Tudo indica que a anistia não é apenas uma hipótese, mas um caminho já em construção.
O desfecho, portanto, não parece estar em aberto, mas sim em compasso de espera. Espera pelo rito da condenação, espera pelo ato político do Congresso, espera pela acomodação dos interesses. Quando se olha para o conjunto, a pergunta não é mais “se” haverá anistia, mas “quando” e “em que condições”.
Considerações finais
A política brasileira volta a mostrar sua face mais recorrente: a da conciliação pelo alto, onde adversários se enfrentam com dureza diante das câmeras, mas se entendem em silêncio nos bastidores. A anistia a Bolsonaro, se confirmada, será mais um capítulo dessa longa tradição.
Para os que acreditam na responsabilidade e na força das instituições, restará a confirmação de ver que, numa democracia, o verdadeiro poder é político. Para os que apostam na estabilidade, restará o alívio de um sistema que prefere absorver seus conflitos a explodi-los em radicalização. No fundo, é o Brasil de sempre: condena-se para anistiar, pune-se para reconciliar, acusa-se para negociar. E assim seguimos, em ciclos que parecem nunca se romper.
Analista colaborador do Resumo Política







