1. O banqueiro sempre vence.
Qualquer forma de aposta, seja num cassino de luxo em Las Vegas, numa loteria estatal brasileira ou em um sorteio de loja popular, segue uma regra imutável: assim como no jogo de bicho o apostador joga com um número e a banca com 24, a banca sempre ganha, é lógico . Isso não é um ditado popular vazio, é uma verdade estatística. A probabilidade é calibrada de forma a assegurar que, no longo prazo, o organizador arrecade muito mais do que distribui em prêmios.
No Brasil, a Caixa Econômica Federal se apresenta como promotora de jogos oficiais — Mega-Sena, Quina, Lotofácil, entre outros. A propaganda enfatiza sonhos de riqueza súbita, mas a estatística mostra que a chance de ganhar é ínfima. Enquanto isso, bilhões de reais entram mensalmente nos cofres públicos. Pequena parte é revertida para programas sociais, é verdade, mas não muda o fato: o apostador joga contra o próprio Estado, que age como banqueiro e garante seu lucro pela probabilidade.
2. A criatividade do varejo.
Se os cassinos são proibidos, o mercado encontrou formas de contornar a legislação. Desde os anos 1950, com iniciativas como o Baú da Felicidade, criado pelo Grupo Silvio Santos, até os atuais sorteios da Havan e inúmeras redes regionais, o modelo é o mesmo: o consumidor paga mensalidades ou parcelas por produtos que muitas vezes nunca retira, mas concorre a prêmios em dinheiro ou bens.
A fórmula combina venda parcelada, fidelização do cliente e a emoção do sorteio. Resultado: empresas lucram tanto quanto cassinos, mas sob a fachada de promoção comercial. A lei tolera, porque esses esquemas têm roupagem de crédito ou de marketing, não de jogo. No entanto, do ponto de vista econômico, não há diferença significativa: paga-se para ter uma chance mínima de ganhar muito, enquanto o organizador assegura receita garantida.
3. A proibição seletiva.
A contradição brasileira é gritante:
•Cassinos, bingos e caça-níqueis são proibidos sob o argumento de que estimulam vício, lavagem de dinheiro e crime organizado.
•Loterias oficiais são amplamente divulgadas pelo governo, com comerciais na TV e campanhas para “ajudar causas sociais”.
•Sorteios privados se multiplicam, desde rifas de bairro até promoções de grandes lojas, muitas vezes sem fiscalização adequada.
O resultado é um sistema hipócrita: proíbe-se o que não pode ser controlado mas incentiva o desenvolvimento turístico, mas permite-se e até incentiva-se o que gera receita para o Estado ou para grandes grupos empresariais.
4. O exemplo de Las Vegas.
A história de Las Vegas expõe a incoerência ainda mais. No meio do deserto de Nevada, cassinos transformaram uma região árida em metrópole próspera, com milhões de empregos diretos e indiretos, turismo internacional e arrecadação bilionária de impostos.
É claro que há problemas: vício, dívidas, máfia no início da história. Mas a economia local floresceu. O mesmo ocorreu em Macau (China), hoje maior polo de jogos do mundo.
Enquanto isso, no Brasil, proibir cassinos não eliminou o vício: empurrou para a clandestinidade. Máquinas ilegais, casas de bingo de fachada e jogos do bicho continuam movimentando bilhões, sem recolher impostos nem oferecer transparência.
5. A moralidade conveniente.
A justificativa oficial é sempre a moralidade: proteger a população do vício, evitar o crime, preservar a família. Mas a prática contradiz o discurso.
•Se fosse genuína a preocupação, o governo não faria propaganda massiva da Mega-Sena.
•Se fosse coerência, promoções que funcionam como jogos de azar não seriam autorizadas.
•Se fosse ética, não se exploraria o sonho de milhões de pobres que veem na loteria a única chance de ascender socialmente.
O que existe é um moralismo seletivo: condena-se o cassino glamouroso, mas normaliza-se a raspadinha da esquina. Demoniza-se o jogo privado, mas sacraliza-se o jogo estatal. A hipocrisia é tão cristalina que virou parte do cotidiano, sem que a sociedade perceba.
6. O custo da hipocrisia.
Essa postura traz consequências práticas:
1.Perda de arrecadação: bilhões deixam de ser tributados porque circulam em esquemas ilegais.
2.Fortalecimento do crime organizado: casas clandestinas financiam redes de corrupção.
3.Desemprego e informalidade: em vez de empregos formais em resorts e cassinos regulamentados, temos trabalhadores à margem da lei.
4.Falsos discursos sociais: o Estado se apresenta como protetor da população, mas explora o mesmo vício que diz combater.
7. O futuro inevitável.
A pergunta final se impõe: quando a hipocrisia vai cair?
O movimento mundial aponta para a regulamentação. Países que antes proibiam cassinos e apostas online estão legalizando, justamente para controlar, tributar e reduzir a criminalidade. O Brasil, pressionado pela expansão das plataformas digitais de apostas esportivas, já caminha para a legalização parcial. É questão de tempo até que cassinos e resorts sejam autorizados, sob regulamentação rígida.
Quando isso acontecer, a máscara da moralidade seletiva cairá: ficará evidente que o problema nunca foi proteger o povo, mas decidir quem controla a banca.
Toda aposta beneficia o banqueiro. A Caixa, o Baú da Felicidade, a Havan, as rifas de bairro ou Las Vegas — não há diferença estrutural. O que muda é quem controla, quem tributa e quem lucra.
O Brasil convive com uma das mais velhas contradições de sua história: proibir cassinos em nome da moralidade, mas explorar loterias em nome da cidadania. O vício é o mesmo, a esperança é a mesma, a estatística é a mesma. A hipocrisia, também.
Cairá quando a sociedade entender que o jogo não se combate com proibição seletiva, mas com regulamentação justa, transparente e pagamento de impostos. Até lá, o banqueiro clandestino ao lado do governo continuarão sorrindo, seja atrás do balcão da CEF, do balcão da loja ou de uma roleta clandestina.
RUI GUERRA
Analista colaborador do Resumo Política
“as opiniões emitidas por nossos colaboradores, não refletem, necessariamente, a opinião do site”