O Brasil vive um paradoxo que não é apenas econômico, mas também moral e institucional. De um lado, os bancos são autorizados a cobrar juros equivalentes a 100% da taxa Selic, sustentados pelo argumento de que precisam remunerar o risco de emprestar. De outro, as construtoras que executam obras públicas não podem ultrapassar 8% de lucro em seus contratos, sob pena de serem acusadas de sobrepreço, processadas pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e pela Controladoria-Geral da União (CGU). Entre esses dois extremos surge a contradição: o sistema admite a racionalidade do lucro ilimitado quando se trata de finanças, mas impõe restrições rígidas e até artificiais quando se trata de atividade produtiva.
Essa distorção cria um efeito perverso: enquanto o setor financeiro é “ protegido “ por um discurso de legalidade, transparência e livre mercado, o setor produtivo é estrangulado por regras que não refletem a realidade do risco empresarial. A consequência é óbvia: para sobreviver, muitos empresários recorrem a saídas subterrâneas — superfaturamento, aditivos contratuais sem justificativa real ou até corrupção direta. O que deveria ser exceção passa a ser regra. A racionalidade, nesse contexto, não está mais em obedecer à lei, mas em encontrar meios de driblá-la.
O lucro permitido e o lucro proibido.
O ponto central da questão é que o lucro permitido varia conforme o setor. No caso dos bancos, não existe teto. Se a Selic está em 15% ao ano, nada impede que a taxa efetiva ao tomador seja o dobro disso, já que os encargos, seguros e taxas adicionais multiplicam o valor final. O argumento é sempre o mesmo: o risco precisa ser precificado.
Mas quando a lógica é aplicada às construtoras ou prestadores de serviços públicos, o raciocínio desaparece. Um contrato de obra é fixado com margem de 8%. Essa cifra, muitas vezes insuficiente para cobrir atrasos, variação de preços de insumos e riscos de paralisação, transforma a execução em um exercício de sobrevivência. A empresa que tentar jogar limpo e executar a obra exatamente dentro dos limites legais dificilmente terá margem para imprevistos. Já aquela que recorre a práticas duvidosas encontrará espaço para “corrigir” os números.
O paradoxo é cruel: o mesmo Estado que autoriza bancos a cobrar juros extorsivos pune empresas que buscam margens realistas de lucro. Não se trata apenas de economia — é a institucionalização da irracionalidade.
O convite ao desvio.
A estrutura normativa brasileira, ao invés de premiar a eficiência, premia a astúcia de quem conhece os atalhos. Isso gera três fenômenos centrais:
1.Desmoralização da legalidade – Cumprir a lei vira sinônimo de inviabilidade. Empresas que se mantêm estritamente dentro das margens impostas correm o risco de falência.
2.Seleção adversa – As empresas mais éticas e transparentes são expulsas do mercado, abrindo espaço para aquelas que se adaptam ao “jeitinho” ou que contam com proteção política.
3.Naturalização da corrupção – O ilícito deixa de ser exceção e passa a ser visto como a regra do jogo, quase uma exigência para que o negócio sobreviva.
Nesse ambiente, a sociedade perde em todos os sentidos: paga mais caro por serviços de qualidade duvidosa, assiste à erosão da confiança nas instituições e vê consolidar-se a percepção de que a honestidade é impraticável.
O paradoxo dos riscos.
O risco empresarial não é uniforme. Uma obra pública envolve dezenas de variáveis fora do controle da empresa: licenciamento ambiental, desapropriações, mudanças no orçamento público, atrasos de repasse de verba, flutuação cambial que afeta preços de aço, cimento ou equipamentos. Qualquer uma dessas variáveis pode comprometer a margem do contrato.
Nos bancos, a narrativa do risco é usada para justificar margens elevadas. “O Brasil é arriscado”, dizem, e por isso o tomador precisa pagar juros estratosféricos. Mas nas obras públicas, onde o risco é igualmente alto ou até maior, o Estado não aceita que o empresário precifique de acordo com a realidade. Essa assimetria não é técnica, mas política: os bancos são protegidos por um sistema jurídico que reconhece sua força; os empresários da construção civil são tratados como suspeitos permanentes.
Essa postura cria uma mensagem subliminar: o risco dos bancos é legítimo, o risco das construtoras é “desculpa para roubo”. Ao reproduzir esse discurso, a sociedade normaliza o lucro financeiro e criminaliza o lucro produtivo.
A busca pela racionalidade.
A racionalidade, nesse contexto, não significa apenas números equilibrados, mas também justiça no tratamento dado aos diferentes setores. Para que a atividade econômica seja saudável e ética, é preciso repensar alguns pontos centrais:
•Revisão de tetos irreais – Margens fixas de 8% são incompatíveis com a complexidade das obras públicas. É necessário criar parâmetros flexíveis que levem em conta riscos específicos de cada projeto.
•Simetria regulatória – O mesmo Estado que aceita que bancos repassem riscos aos clientes deve permitir que construtoras precifiquem seus riscos de maneira realista.
•Fiscalização por resultado – Mais importante que vigiar margens é avaliar se o que foi contratado foi entregue. O foco precisa ser no desempenho e na transparência, e não apenas em números fixos.
•Educação para a transparência – É fundamental mudar a percepção social de que lucro é pecado. O lucro legítimo é a base da sustentabilidade do capitalismo. O inimigo não é o lucro, mas o desvio.
Até onde iremos?
A pergunta “até onde iremos em busca da racionalidade?” é, na verdade, um alerta. Se o sistema continuar punindo o lucro legítimo e tolerando a extorsão financeira, estaremos sempre empurrando empresários, gestores e até cidadãos comuns para a irracionalidade.
Chegaremos a um ponto em que obedecer à lei será visto como imprudência, e desobedecê-la, como necessidade. Isso é corrosivo não apenas para a economia, mas também para a democracia. Uma sociedade que normaliza o ilícito não pode esperar que seus líderes sejam éticos; afinal, a base da pirâmide já foi contaminada pela lógica da sobrevivência a qualquer preço
O Brasil precisa escolher se quer continuar vivendo no paradoxo da racionalidade invertida ou se terá coragem de reformar as regras do jogo. Enquanto os bancos puderem cobrar juros extorsivos sem questionamento, e as construtoras forem punidas por buscar margens realistas, estaremos presos a um modelo que favorece o desvio.
A racionalidade não é apenas uma equação financeira: é também a coerência ética de um sistema que precisa tratar com justiça quem produz, quem empresta e quem fiscaliza. Sem essa coerência, a racionalidade será sempre uma ilusão — e o caminho mais “lógico” continuará sendo roubar ou superfaturar.
O limite da irracionalidade já foi ultrapassado. A verdadeira questão agora é: teremos coragem de recuar e reconstruir um sistema que premie a honestidade, ou seguiremos naturalizando a corrupção como método de sobrevivência?
RUI GUERRA
Analista colaborador do Resumo Política
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