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Quando a Hipocrisia Vai Cair?

Memória, Esquecimento, Talento e Rancor: Entre a Virtude do Saber e a Tragédia da Vingança.

resumopolitico by resumopolitico
24 de setembro de 2025
in Destaque, LUPA, um olhar crítico de quem viveu na coxia
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A vida humana é marcada pela capacidade única de registrar experiências, armazená-las na memória e usá-las para construir novos conhecimentos. Contudo, essa mesma faculdade, quando mal administrada, pode aprisionar a mente em ressentimentos, dificultando o progresso pessoal e coletivo. Memória, esquecimento, talento e rancor são quatro fios entrelaçados que, dependendo de como se organizam, tecem tanto as virtudes do saber quanto as tragédias da vingança.
Este ensaio busca explorar essa relação, mostrando como a memória pode ser fonte de sabedoria e identidade; o esquecimento, um alívio necessário; o talento, a síntese criativa dessas forças; e o rancor, a deformação do lembrar que alimenta o ciclo destrutivo da vingança.
1. Memória como virtude.
A memória é mais do que um depósito de fatos: é o alicerce da identidade e da aprendizagem. Desde a Antiguidade, filósofos a consideram central para a construção do saber. Platão, por exemplo, via no ato de recordar a verdadeira essência do conhecimento, como se aprender fosse relembrar verdades já existentes na alma.
Na prática, manter fatos e estudos frescos na memória possibilita:
•Acumulação de saberes: um cientista só avança porque lembra das descobertas anteriores e sabe onde outros pararam.
•Correção de rumos: lembranças de erros evitam que sejam repetidos.
•Construção de identidade: um povo só é povo porque se recorda de sua história, e uma pessoa só é ela mesma porque carrega sua biografia na memória.
Lembrar é, portanto, uma virtude intelectual e moral. Não por acaso, sociedades cultivam rituais de memória — monumentos, livros, tradições orais — para não perder de vista conquistas, dores e ensinamentos.
2. O esquecimento como bênção.
Se a memória é essencial, o esquecimento é igualmente necessário. A mente humana não é um cofre infinito, mas um filtro seletivo. Esquecer não é apenas falha: é estratégia de sobrevivência.
•Seleção do relevante: o cérebro elimina detalhes triviais para liberar espaço cognitivo.
•Proteção emocional: apagar memórias dolorosas evita que feridas fiquem sempre abertas.
•Espaço para o novo: esquecer é permitir que novas experiências ocupem o lugar de antigas.
Nietzsche dizia que “a saúde depende de saber esquecer”. Sem essa faculdade, viveríamos paralisados pelo peso de cada dor ou detalhe. É o esquecimento que nos dá a leveza necessária para seguir adiante, reconciliando-nos com o tempo.
Assim, o esquecimento complementa a memória: enquanto uma preserva, o outro liberta. Sem memória, não há identidade; sem esquecimento, não há paz.
3. Talento: a síntese criativa.
O talento nasce da interação entre memória e esquecimento. Ele não consiste em apenas lembrar muito, mas em usar bem aquilo que se lembra e descartar o que se esquece.
Um músico talentoso, por exemplo, tem a memória técnica de escalas e partituras, mas também a liberdade de esquecer padrões rígidos para improvisar. Um engenheiro talentoso recorda fórmulas e teorias, mas esquece soluções gastas para buscar alternativas originais. Um escritor talentoso lembra de estilos e referências, mas sabe se libertar delas para encontrar sua própria voz.
O talento, portanto, é a arte de equilibrar memória e esquecimento para criar algo novo. É a capacidade de fazer da memória um trampolim e do esquecimento, uma poda que permite o crescimento.
4. O rancor: memória sem esquecimento.
Se o talento é o lado luminoso desse equilíbrio, o rancor é seu lado sombrio. O rancor nasce quando a memória insiste em preservar feridas, recusando o esquecimento. É a lembrança transformada em prisão.
•O indivíduo rancoroso revive continuamente ofensas, impedindo-se de perdoar.
•A sociedade rancorosa alimenta ciclos de vingança, como mostram guerras intermináveis baseadas em lembranças de humilhações antigas.
•A política do rancor paralisa nações, transformando a memória histórica em justificativa para ódios renovados.
O rancor é memória congelada no negativo. Ele não ensina nem liberta: apenas repete. E, ao contrário do talento, não gera criação, mas destruição.
É nesse ponto que a memória pode se tornar uma tragédia: quando deixa de servir ao saber e se converte em combustível para vinganças.
5. A vingança como tragédia.
A vingança, alimentada pelo rancor, é um fenômeno humano universal. Desde os mitos gregos até as novelas modernas, o desejo de retribuir o mal é motor de narrativas intensas. Contudo, raramente a vingança resolve: na maioria das vezes, amplia o conflito.
•No plano pessoal, quem busca vingança permanece atado ao ofensor, como se sua vida só tivesse sentido em responder ao mal sofrido.
•No plano coletivo, guerras de vingança podem durar séculos, como os conflitos entre povos marcados por memórias de invasões e massacres.
O trágico da vingança é que ela aprisiona tanto o ofendido quanto o ofensor. Ambos permanecem reféns de uma memória que não sabe esquecer.
6. O caminho da sabedoria.
Se memória pode ser virtude ou tragédia, a sabedoria está em administrá-la. O equilíbrio saudável exige:
•Cultivar a memória útil: lembrar dos estudos, conquistas, erros e lições que ensinam.
•Aceitar o esquecimento: permitir que mágoas se dissolvam e que detalhes supérfluos desapareçam.
•Desenvolver talento: usar memória e esquecimento de forma criativa, para gerar conhecimento, arte e soluções.
•Evitar o rancor: transformar lembranças dolorosas em aprendizado, não em prisão.
Esse caminho não é simples, mas é o que transforma indivíduos e sociedades em mais livres, mais criativos e mais sábios.
Memória, esquecimento, talento e rancor são faces da mesma moeda: a forma como lidamos com o tempo vivido. A memória pode iluminar o futuro, mas também aprisionar no passado. O esquecimento pode libertar, mas também apagar lições valiosas. O talento floresce quando ambos se equilibram. O rancor, quando domina, conduz à tragédia da vingança.
Assim, a virtude está em escolher: lembrar para aprender, esquecer para viver, criar para avançar. No fim, o verdadeiro saber não é apenas acumular memórias, mas aprender a usá-las com discernimento — transformando-as em fonte de sabedoria, e não de destruição.
RUI GUERRA
Analista colaborador do Resumo Política
“as opiniões emitidas por nossos colaboradores, não refletem, necessariamente, a opinião do site”
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