O sistema de Bretton Woods, ao nascer em 1944, parecia oferecer a solução definitiva para a instabilidade cambial e os desequilíbrios internacionais. Nos primeiros anos, cumpriu bem esse papel: garantiu previsibilidade, estimulou o comércio e financiou a reconstrução da Europa e do Japão. Mas, à medida que as economias se recuperavam e o comércio internacional crescia, começaram a surgir tensões internas. Foi o economista belga Robert Triffin, professor em Yale e consultor do Congresso americano, quem identificou de forma mais clara o dilema estrutural que corroía o sistema por dentro. Suas críticas ficariam conhecidas como o paradoxo de Triffin.
O dilema da liquidez internacional
O ponto central levantado por Triffin era simples, mas devastador:
•Para que o comércio internacional funcionasse, era preciso haver dólares em circulação no mundo, já que o dólar era a moeda de referência de Bretton Woods.
•Para que houvesse dólares disponíveis, os Estados Unidos precisavam emitir moeda e, portanto, registrar déficits em sua balança de pagamentos.
Ou seja: o sistema dependia da existência de déficits americanos.
O problema era que, quanto mais dólares circulassem fora dos EUA, menor seria a confiança na capacidade americana de convertê-los em ouro a US$ 35 por onça, como previa o acordo.
A contradição fundamental
Esse dilema gerava uma contradição insolúvel:
•Se os EUA não emitissem dólares, o comércio mundial ficaria sem liquidez e entraria em estagnação.
•Se emitissem dólares em excesso, corroíam a confiança no próprio sistema, pois não havia ouro suficiente para garantir todas as notas em circulação.
Em outras palavras: o sucesso do sistema carregava em si o germe da sua ruína.
A denúncia no Congresso americano
Em 1960, Robert Triffin apresentou suas conclusões ao Congresso dos Estados Unidos. Sua análise soou como um alerta de incêndio: se nada fosse feito, o sistema de Bretton Woods entraria em colapso.
Ele sugeria alternativas, como a criação de uma moeda internacional supranacional — ideia que lembrava a proposta original de Keynes do “bancor”. Essa moeda poderia ser emitida por uma instituição global, reduzindo a dependência exclusiva do dólar.
Mas, diante da força política americana e da conveniência de financiar seus déficits com a própria moeda, as recomendações de Triffin foram ignoradas.
A realidade dos anos 1960
Na prática, as previsões de Triffin começaram a se concretizar. Durante os anos 1960, os Estados Unidos passaram a registrar déficits crescentes em conta corrente e em balanço de pagamentos. Parte disso vinha dos gastos militares com a Guerra do Vietnã, parte dos programas sociais da “Grande Sociedade” lançados pelo presidente Lyndon Johnson.
Os dólares se acumulavam no exterior, principalmente em bancos europeus, no chamado mercado de eurodólares. A cada novo déficit, crescia a dúvida: os EUA teriam ouro suficiente para honrar a conversibilidade?
A corrida ao ouro
Alguns países começaram a testar o sistema. A França, sob a liderança de Charles de Gaulle, passou a exigir a conversão de dólares em ouro, enviando navios a Nova York para transportar o metal de volta a Paris. Outros países europeus seguiram a mesma trilha.
As reservas de ouro americanas, que haviam sido abundantes em 1945, começaram a cair de forma preocupante. A promessa de conversão a US$ 35 por onça tornava-se cada vez mais insustentável.
A crítica estrutural
O mérito de Triffin não foi apenas identificar a contradição prática do sistema, mas apontar um problema estrutural: não é sustentável, no longo prazo, que a moeda nacional de um país funcione como moeda internacional.
Isso porque o país emissor da moeda de reserva terá sempre de conciliar dois objetivos contraditórios:
1.Atender às necessidades globais de liquidez, emitindo moeda suficiente para o comércio internacional.
2.Manter a confiança na própria moeda, evitando déficits e inflação.
Mais cedo ou mais tarde, esses dois objetivos entram em choque.
O prenúncio da crise
Na segunda metade da década de 1960, o sistema de Bretton Woods já mostrava sinais de esgotamento. Os déficits americanos eram indispensáveis para irrigar o comércio internacional, mas cada vez mais países desconfiavam da paridade com o ouro.
O FMI tentou criar mecanismos paliativos, como os Direitos Especiais de Saque (DES) em 1969 — uma espécie de moeda internacional limitada, baseada em uma cesta de moedas. Mas era pouco e tarde demais.
A visão de longo prazo
Triffin estava certo: o sistema ruiria em poucos anos. Em 1971, Richard Nixon decretaria o fim da conversão do dólar em ouro, no episódio que ficou conhecido como o Nixon Shock. A crítica de Triffin, ignorada durante anos, mostrava-se profética.
Lições de Triffin
O paradoxo de Triffin deixou ensinamentos que continuam relevantes até hoje:
•Dependência excessiva de uma moeda nacional é sempre frágil, porque submete o sistema global aos desequilíbrios do país emissor.
•Liquidez e confiança são dois objetivos difíceis de conciliar no longo prazo.
•O mundo precisa de instituições multilaterais e mecanismos supranacionais para sustentar a cooperação econômica.
Conclusão: a rachadura antes do colapso
As críticas de Robert Triffin mostraram que Bretton Woods, apesar de seu sucesso inicial, não era um sistema eterno. Seu ponto fraco estava no coração do modelo: a centralidade do dólar, que ao mesmo tempo fornecia liquidez e minava a confiança.
Triffin foi a voz que antecipou o inevitável. Quando Nixon suspendeu a conversão em ouro, em 1971, não fez mais que confirmar o diagnóstico apresentado uma década antes.
O paradoxo de Triffin é, até hoje, uma lição sobre os limites do poder monetário: nenhuma moeda nacional pode carregar sozinha o peso de sustentar a economia global sem, em algum momento, enfrentar sua própria contradição.
RUI GUERRA
Analista colaborador do Resumo Política
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