Com o anúncio do “Nixon Shock” em 1971, o mundo assistiu ao fim do padrão-ouro e ao colapso do sistema de Bretton Woods. O dólar, que até então era conversível em ouro, transformou-se em uma moeda fiduciária, sustentada apenas pela confiança na economia americana e pelo poder político dos Estados Unidos. Muitos temiam que esse rompimento levasse a uma era de instabilidade e perda de credibilidade. Mas, paradoxalmente, o dólar saiu ainda mais fortalecido, consolidando-se como a moeda central da economia mundial até os dias de hoje.
O que significa moeda fiduciária?
Uma moeda fiduciária (do latim fiducia, confiança) é aquela que não tem lastro físico em metais preciosos. Seu valor decorre da aceitação coletiva e da confiança na capacidade do Estado emissor de garantir sua estabilidade.
A partir de 1971, o dólar deixou de ser “um pedaço de papel que dava direito a ouro” para se tornar simplesmente “um pedaço de papel aceito porque todos acreditam nele”. Essa mudança alterou profundamente as relações financeiras internacionais.
A consolidação do petrodólar.
Um fator crucial para a manutenção da hegemonia do dólar foi o acordo firmado entre os Estados Unidos e a Arábia Saudita em meados da década de 1970. Pelo acerto, o petróleo — a commodity mais estratégica do planeta — passaria a ser negociado exclusivamente em dólares.
Esse acordo deu origem ao chamado petrodólar. Como todos os países precisavam de petróleo, todos passaram a precisar também de dólares para comprá-lo. Assim, criou-se uma demanda estrutural e permanente pela moeda americana, independentemente de sua conversibilidade em ouro.
A expansão do sistema financeiro.
Sem a âncora do ouro, os Estados Unidos ganharam liberdade para emitir moeda em volumes muito maiores. Isso permitiu financiar déficits fiscais e comerciais sem comprometer a credibilidade imediata do dólar.
O sistema financeiro global também se expandiu. A década de 1970 marcou o fortalecimento do mercado de eurodólares, formado por bancos fora dos EUA que captavam e emprestavam dólares internacionalmente. Esse mercado cresceu de forma explosiva, ampliando a liquidez global.
A ausência de restrições fixas permitiu o desenvolvimento de novos instrumentos financeiros — futuros, derivativos, swaps — que ajudavam empresas e países a lidar com a volatilidade cambial.
A volatilidade das moedas.
Se o sistema de Bretton Woods oferecia estabilidade cambial, a era do dólar fiduciário trouxe volatilidade. As moedas passaram a flutuar livremente de acordo com as condições de mercado, gerando ganhos e perdas rápidas.
Essa volatilidade exigiu novas estratégias de gestão de risco, mas também abriu espaço para especulação. Crises cambiais, como a do México em 1994, da Ásia em 1997 ou da Rússia em 1998, tornaram-se eventos recorrentes.
Ainda assim, em cada uma dessas crises, investidores buscavam refúgio no dólar — confirmando sua condição de porto seguro.
A dívida americana como ativo global.
Um elemento fundamental do novo sistema foi a transformação dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos em ativos globais de referência.
Bancos centrais, fundos soberanos e investidores privados passaram a comprar maciçamente esses papéis, considerados os mais seguros do mundo. Isso permitiu aos EUA financiar seus déficits externos praticamente sem restrições, já que havia sempre demanda por sua dívida.
O paradoxo é que o fim do padrão-ouro, que deveria fragilizar o dólar, deu aos Estados Unidos ainda mais liberdade: agora, podiam emitir a moeda de reserva global sem a limitação do metal precioso.
O papel geopolítico do dólar.
A era do dólar fiduciário também consolidou o uso da moeda como instrumento de poder geopolítico.
•Sanções econômicas: ao controlar o sistema financeiro internacional, os EUA passaram a impor sanções a países considerados hostis, bloqueando transações em dólares.
•Influência sobre instituições multilaterais: o FMI e o Banco Mundial, criados em Bretton Woods, continuaram operando sob forte peso americano.
•Dependência estrutural: países em desenvolvimento, altamente endividados em dólares, tornaram-se ainda mais vulneráveis a oscilações da moeda.
O dólar não era apenas uma unidade de conta: era também uma ferramenta de projeção de poder.
A crise do petróleo e a inflação.
Nos anos 1970, a combinação de fim do padrão-ouro e choque do petróleo gerou forte inflação global. O preço do barril quadruplicou após o embargo da OPEP em 1973, pressionando economias dependentes de energia.
Os EUA enfrentaram um período de estagflação — inflação alta combinada com baixo crescimento. Para restaurar a confiança, o Federal Reserve elevou drasticamente os juros no início dos anos 1980, sob a liderança de Paul Volcker.
A medida trouxe recessão, mas consolidou o dólar como ativo de confiança: ao controlar a inflação, os EUA mostraram que sua moeda podia preservar valor mesmo sem lastro físico.
A globalização financeira.
A partir dos anos 1980 e 1990, a liberalização dos mercados de capitais e o avanço da tecnologia consolidaram a globalização financeira. O dólar era a linguagem comum dessa integração:
•Empresas multinacionais captavam recursos em dólares.
•Países em desenvolvimento emitiam dívida em dólares.
•O comércio internacional continuava a ser liquidado majoritariamente em dólares.
Mesmo com o surgimento de alternativas, como o euro em 1999, nenhuma moeda conseguiu rivalizar em profundidade de mercado, liquidez e confiança.
O dilema da dependência.
A era do dólar fiduciário trouxe benefícios, mas também dilemas:
•Para os Estados Unidos, significou a possibilidade de financiar déficits sem restrição, mas ao custo de acumular uma dívida pública colossal.
•Para o resto do mundo, significou liquidez abundante, mas também dependência de decisões da política monetária americana. Quando o Fed sobe juros, por exemplo, capitais fogem de países emergentes e voltam para os EUA.
Esse dilema mantém viva a crítica já feita por Robert Triffin: o sistema global continua dependente de uma moeda nacional, com todos os riscos que isso implica.
Conclusão: a hegemonia do dólar fiduciário.
Desde 1971, o dólar sobreviveu a choques de petróleo, crises cambiais, explosões de dívida e instabilidades financeiras. Em todas essas ocasiões, reafirmou-se como moeda de confiança, mais por falta de alternativas do que por perfeição intrínseca.
A era do dólar fiduciário mostrou que, mesmo sem ouro, uma moeda pode sustentar o comércio e as finanças globais se tiver liquidez, confiança e respaldo geopolítico.
O sistema internacional transformou-se em uma arquitetura baseada não mais em metais preciosos, mas em crédito, dívida e confiança. E, nesse arranjo, o dólar permaneceu — e ainda permanece — no centro.
RUI GUERRA
Analista colaborador do Resumo Política
“as opiniões emitidas por nossos colaboradores, não refletem, necessariamente, a opinião do site”