A economia mundial não funciona de forma tão simples quanto ensinam os manuais. Entre quem produz e quem consome existe uma barreira invisível: o cartório do comércio. Ele não se apresenta como exército nem como governo, mas como uma teia de normas, selos, subsídios e burocracias que definem quem pode vender, como vender e por quanto vender. O resultado é perverso: o produtor, que assume o risco do trabalho, recebe pouco; o intermediário, que controla o carimbo, enriquece.
Esse mecanismo de reservas de mercado — aqui chamado de cartórios globais — explica muito da desigualdade no mundo e também dentro do Brasil.
1. O que são os cartórios globais.
Cartórios globais são estruturas de intermediação obrigatória, que funcionam como uma alfândega invisível: a riqueza só circula se passar por eles.
•Podem ser formais: bolsas de commodities, certificadoras internacionais, regras de cotas e subsídios.
•Ou informais: máfias, monopólios logísticos, arranjos de distribuição.
Em todos os casos, a lógica é a mesma: a riqueza não se realiza no campo, na floresta ou na mina, mas no balcão do carimbo.
2. Exemplos internacionais: mármore, açúcar e grãos.
•Mármore italiano: Verona e Carrara não são os maiores produtores de mármore e granito do mundo. Países como Brasil, Índia e China extraem muito mais. Mas a Itália centraliza o acabamento, o selo de origem e a revenda. Um bloco brasileiro, barato na mina, retorna ao mercado com etiqueta italiana e preço multiplicado.
•Açúcar norte-americano: os EUA controlam cotas e subsídios, mesmo sem grande produção. O preço mundial é influenciado por Washington, e não por Cuba, Brasil ou Tailândia, que produzem com maior eficiência.
•Bolsa de Chicago: soja, milho e trigo brasileiros, argentinos ou ucranianos só ganham valor após o carimbo da bolsa americana. O agricultor brasileiro olha para Chicago para saber quanto vale sua colheita.
3. O caso brasileiro: o coco e a máfia das barracas.
No Brasil, também temos cartórios domésticos. O exemplo do coco verde é ilustrativo.
O Nordeste produz abundância, mas o produtor nordestino não consegue vender diretamente no Sudeste. O mercado é controlado pela chamada “máfia das barracas”, que define quem pode ocupar pontos de venda e como a mercadoria circula. Caminhões que chegam de fora encontram barreiras: multas, falta de espaço, boicote logístico.
Resultado: o consumidor paga caro, o produtor recebe pouco, e o intermediário controla o lucro. A lógica é a mesma do mármore, do açúcar ou dos grãos: quem planta não manda, quem carimba decide.
4. O mercado de carbono: o cartório verde.
Um exemplo contemporâneo de cartório global é o mercado de carbono.
Na teoria, a ideia é justa: quem polui deve pagar a quem preserva. Cada crédito de carbono representa uma tonelada de CO₂ retirada ou não emitida. Assim, um fazendeiro que mantém mata nativa em pé ou planta 300 hectares de eucalipto deveria ser recompensado.
Na prática, o produtor enfrenta uma muralha:
•O processo de certificação é burocrático e caro.
•Pequenos e médios fazendeiros não conseguem registrar projetos sozinhos.
•O mercado fica nas mãos de ONGs, fundos verdes e certificadoras internacionais, que agrupam propriedades, vendem em bloco e ficam com grande parte da receita.
Assim, o mercado de carbono, que deveria democratizar a renda ambiental, virou um cartório verde: mais lucrativo para intermediários do que para quem preserva a floresta ou planta árvores.
5. O poder invisível.
Esse poder é invisível porque não usa armas, mas é mais eficaz que muitos exércitos. Ele se exerce por meio de normas, subsídios, certificações e monopólios. Ele corrói a renda de milhões de produtores e transfere riqueza para poucos intermediários.
A lógica se repete em todas as escalas: do mármore ao coco, do açúcar ao carbono. O produtor assume o risco, o consumidor paga o preço, mas o lucro se concentra no meio.
6. Caminhos de ruptura.
Historicamente, muitos cartórios só foram quebrados por guerras. Mas hoje temos alternativas menos sangrentas:
•Tecnologia: satélites e blockchain permitem rastrear produção e registrar créditos sem intermediários.
•Cooperativas de produtores: fortalecem a negociação direta.
•Política pública: pode simplificar registros, criar bolsas nacionais e dar voz ao produtor.
•Integração regional: blocos como BRICS e MERCOSUL podem criar certificações próprias, reduzindo a dependência dos cartórios ocidentais.
O desafio é não repetir o passado. Se o século XX quebrou monopólios à base da guerra, o século XXI precisa quebrá-los com inteligência, inovação e cooperação.
Conclusão.
As reservas de mercado globais são o poder invisível do comércio. Elas não aparecem nas manchetes, mas explicam por que o mundo segue desigual. O Brasil, grande produtor de alimentos, energia e biodiversidade, conhece bem essa lógica: seja no coco, na carne, no mármore ou no carbono, quem produz pouco decide; quem carimba tudo manda.
O futuro exigirá coragem para desmontar esses cartórios. A verdadeira justiça econômica só virá quando o valor da riqueza voltar a quem de fato a gera — o produtor.
RUI GUERRA
Analista colaborador do Resumo Política
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