O futuro imediato: carbono, tecnologia e patentes.
O passado foi das especiarias, o presente é dos grãos e da carne, mas o futuro está sendo desenhado diante dos nossos olhos. Novos “cartórios globais” já se consolidam, não mais baseados apenas em bens tangíveis, mas em certificações ambientais, tecnologia e propriedade intelectual. O discurso mudou: antes se falava em comércio, hoje se fala em sustentabilidade e inovação. Mas a lógica permanece: quem controla o carimbo, mesmo sem produzir, decide quanto vale a riqueza dos outros.
Três áreas já se mostram centrais: o mercado de carbono, os oligopólios da tecnologia digital e as patentes.
1. O mercado de carbono: o cartório verde do século XXI.
O mercado de carbono nasceu como proposta justa: reduzir emissões de CO₂ premiando quem preserva e penalizando quem polui. Cada crédito de carbono corresponde a uma tonelada de CO₂ não emitida ou removida da atmosfera.
Na prática, tornou-se um cartório global:
•O pequeno produtor rural não consegue registrar sozinho sua área de reflorestamento ou preservação.
•ONGs, fundos e certificadoras internacionais controlam a validação, cobrando caro.
•O processo é burocrático, lento e inacessível para quem planta de fato.
Assim, o discurso ambiental se converte em um novo selo de poder. Em vez de democratizar a renda verde, o sistema concentra recursos em intermediários. O produtor que mantém floresta em pé continua pobre; o fundo verde em Londres ou Nova York multiplica lucros.
Esse cartório verde pode se tornar o mais lucrativo do século, justamente porque se apoia na bandeira da sustentabilidade, quase impossível de ser questionada publicamente.
2. Chips e tecnologia digital: o cartório dos semicondutores.
A economia digital depende de chips semicondutores, produzidos em poucos polos: Taiwan, Coreia do Sul, EUA e Japão.
•Nenhum país pode competir em larga escala sem esses insumos.
•A concentração é tamanha que crises geopolíticas, como uma tensão em Taiwan, podem paralisar setores inteiros da indústria mundial.
•O Brasil, grande produtor de alimentos e minerais, torna-se refém tecnológico ao não dominar essa etapa.
Esse é o cartório digital: o mundo produz riqueza em dados, inteligência artificial e automação, mas precisa passar pelo selo de poucos fabricantes de chips. Mais uma vez, a lógica do carimbo se sobrepõe à lógica da produção.
3. Patentes farmacêuticas e biotecnológicas.
O caso das vacinas contra a COVID-19 foi revelador:
•Países ricos garantiram estoques antecipados, enquanto países em desenvolvimento ficaram na fila.
•As patentes funcionaram como barreira: mesmo quem tinha capacidade industrial não podia produzir sem pagar royalties ou esperar licenças.
A biotecnologia, que inclui sementes transgênicas e medicamentos avançados, está se tornando outro cartório global. O agricultor brasileiro que planta soja transgênica, por exemplo, paga royalties anuais a multinacionais que detêm a patente. Ele produz em sua terra, mas precisa pagar pedágio intelectual a corporações estrangeiras.
4. Plataformas digitais: o cartório invisível das redes.
Outro cartório do futuro já se consolidou: as plataformas digitais. Google, Meta, Amazon, Apple e Microsoft são os verdadeiros portões de entrada da economia de dados.
•Quem quer vender, anunciar ou se comunicar globalmente precisa passar por eles.
•O produtor de conteúdo, o lojista e até mesmo governos dependem desses intermediários.
•O controle não é físico, mas algorítmico: o que aparece e o que desaparece é definido por mecanismos invisíveis.
Essa forma de cartório é ainda mais sutil: o produtor sequer percebe que sua riqueza em dados e atenção é monetizada por terceiros.
5. O risco de um novo colonialismo.
Esses cartórios modernos — carbono, chips, patentes e plataformas — apontam para um futuro em que o Sul Global corre o risco de permanecer como colônia produtora: exporta alimentos, minerais e energia, mas importa tecnologia, certificação e inovação.
O discurso é de modernidade e sustentabilidade, mas a engrenagem é antiga: quem carimba enriquece; quem produz depende.
6. Caminhos de ruptura.
Se o futuro parece condenado à repetição, há também alternativas:
•Blockchain e satélites: podem permitir que produtores de crédito de carbono registrem diretamente sua preservação, sem depender de intermediários.
•Políticas industriais: países em desenvolvimento precisam investir em semicondutores, biotecnologia e IA para não depender apenas de importação.
•Quebra de patentes em emergências globais: a pandemia mostrou que a pressão internacional pode forçar flexibilização.
•Plataformas próprias: o BRICS discute criar redes e sistemas de pagamento alternativos, reduzindo a dependência das big techs.
Essas rupturas não são fáceis, mas são necessárias para evitar que o século XXI seja apenas a repetição do colonialismo com nomes novos.
Conclusão.
O futuro imediato já está sendo desenhado por novos cartórios globais. O mercado de carbono promete ser o mais lucrativo deles, mas não está sozinho: os chips, as patentes e as plataformas digitais já controlam boa parte da economia.
A história se repete em nova roupagem: quem planta e preserva continua pobre; quem controla o selo digital ou ambiental enriquece.
A lição do futuro é clara: ou os países produtores criam seus próprios mecanismos de certificação e inovação, ou continuarão presos a cartórios invisíveis que concentram renda e poder.
RUI GUERRA
Analista colaborador do Resumo Política
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