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Quando a Hipocrisia Vai Cair?

Religião, dúvida e Ciência: Redes de Neurônios, Agnosticismo e Espiritualidade

resumopolitico by resumopolitico
23 de outubro de 2025
in Alagoas, Destaque
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A questão sobre se o ser humano nasce com uma predisposição para a fé ou para a dúvida atravessa milênios de filosofia, religião e ciência. Só mais recentemente, com o avanço das neurociências, tornou-se possível observar em tempo real o funcionamento do cérebro diante de experiências religiosas, espirituais ou de reflexão crítica. A pergunta central, porém, continua em aberto: existem redes de neurônios que diferenciam agnósticos de espiritualistas?
A resposta curta é: não há, até agora, uma estatística clara que separe quantitativa ou qualitativamente esses dois perfis. O que a ciência encontrou são circuitos funcionais distintos, ativados em contextos diferentes, e que podem ser reforçados ou enfraquecidos ao longo da vida por meio de práticas, experiências e ambientes culturais.
O “circuito da espiritualidade”.
Pesquisas de neuroimagem funcional com freiras em oração, monges budistas em meditação profunda e fiéis em cultos religiosos revelaram um padrão relativamente consistente: a ativação de um conjunto de áreas que passou a ser chamado, em alguns estudos, de “circuito da espiritualidade”.
Esse circuito envolve principalmente:
•Córtex pré-frontal medial – ligado à autorreflexão e ao sentido de propósito.
•Lobo parietal inferior – associado à noção de espaço e à percepção do eu; quando hipoativado, gera sensação de “perda da individualidade” ou “união com o todo”.
•Sistema límbico (amígdala, hipocampo) – responsável pela carga emocional intensa dessas experiências.
Em termos subjetivos, trata-se de vivências marcadas por transcendência, pertencimento e conexão com algo maior, que podem ser interpretadas como contato com o divino ou simplesmente como estados alterados de consciência.
O “circuito da dúvida”.
Por outro lado, estudos com pessoas que se definem como ateias ou agnósticas mostram maior engajamento de regiões ligadas à avaliação crítica e à resolução de conflitos cognitivos, como:
•Córtex cingulado anterior – área que detecta inconsistências e monitora erros.
•Córtex pré-frontal dorsolateral – ligado ao raciocínio lógico, planejamento e vigilância contra ilusões cognitivas.
Quando expostos a afirmações religiosas ou espirituais, indivíduos com tendência agnóstica apresentam maior atividade nessas regiões, como se o cérebro estivesse checando a coerência das informações recebidas.
Não é estrutura, é função.
É essencial destacar que não há um “cérebro espiritualista” e um “cérebro agnóstico” em termos anatômicos. As diferenças não se dão em “quantidade de neurônios” ou “tamanho de áreas cerebrais”, mas na funcionalidade das redes:
•Quais regiões são ativadas.
•A intensidade da ativação.
•O grau de conectividade entre áreas.
Assim, a mesma estrutura neural pode participar tanto de uma oração quanto de uma análise científica. O que muda é como ela é acionada e em que contexto.
Plasticidade cerebral: prática molda rede.
Outro ponto crucial é a plasticidade do cérebro humano. Pessoas que rezam diariamente reforçam conexões entre áreas do circuito espiritual. Da mesma forma, indivíduos que cultivam pensamento crítico, leitura científica e debate racional fortalecem as redes associadas à dúvida e à avaliação lógica.
Isso significa que não há uma predestinação neurológica fixa. O que existe é um potencial plástico, que pode ser orientado para a transcendência ou para a vigilância crítica, dependendo de estímulos ao longo da vida.
O peso do ambiente sociocultural.
Diversos estudos de psicologia do desenvolvimento mostram que a religião ou a dúvida dificilmente emergem do nada. Crianças educadas em ambientes altamente religiosos tendem a ativar mais facilmente circuitos de espiritualidade, enquanto aquelas expostas desde cedo a discussões científicas ou ambientes laicos tendem a reforçar circuitos de análise crítica.
Assim, a rede neural não é causa isolada, mas resultado de uma interação contínua entre biologia, cultura e experiência pessoal.
Estatísticas: o que não existe (ainda).
Não há hoje uma estatística confiável que diga: “X% da população tem redes mais espiritualistas e Y% mais agnósticas”. O máximo que a ciência conseguiu foi correlacionar níveis de atividade cerebral em diferentes grupos, mas sem conseguir afirmar causalidade.
Por exemplo: não se sabe se alguém se torna espiritualista porque ativa mais o lobo parietal inferior, ou se essa área se torna mais ativa porque a pessoa pratica espiritualidade. O dilema do “ovo ou da galinha” ainda persiste.
Filosofia e neurociência: limites da explicação.
A busca por uma “assinatura neural da fé” ou da dúvida toca em um ponto delicado: até onde a ciência pode explicar fenômenos existenciais? Se identificarmos que uma experiência mística se correlaciona com a ativação de determinadas áreas, isso invalida o valor da experiência?
Alguns filósofos afirmam que a ciência apenas descreve o como, mas não o porquê. Ou seja, o fato de uma sensação de transcendência ter correlação neuronal não significa que ela seja “menos real”. Do mesmo modo, a dúvida agnóstica pode ser vista tanto como construção racional quanto como fruto de circuitos cerebrais de monitoramento de erro.
Convergência possível: fé e dúvida no mesmo cérebro.
Talvez a maior descoberta da neurociência sobre esse tema seja justamente que fé e dúvida não são mutuamente excludentes no cérebro humano. As mesmas pessoas podem, em momentos diferentes, acionar circuitos de transcendência e de crítica, dependendo do contexto.
Isso explicaria, por exemplo, a experiência de cientistas profundamente religiosos, ou de líderes espirituais capazes de aplicar raciocínio lógico rigoroso em outros domínios. O cérebro humano não opera em dicotomias rígidas, mas em gradientes de ativação.
Conclusão.
As redes neurais humanas não carregam uma etiqueta de “agnóstico” ou “espiritualista”. O que existe são circuitos funcionais que podem ser orientados para a transcendência ou para a dúvida, dependendo de fatores culturais, práticos e pessoais.
Até hoje, nenhuma estatística conseguiu separar de forma definitiva cérebros de crentes e cérebros de céticos. O que temos são indícios de que a espiritualidade envolve redes ligadas à emoção e ao sentido de pertencimento, enquanto o agnosticismo envolve redes de análise crítica e monitoramento de conflito.
No fim das contas, a maior revelação pode ser a de que fé e dúvida são expressões diferentes da mesma plasticidade cerebral: uma capacidade única do ser humano de buscar significado, seja na entrega ao transcendente, seja na vigilância da razão.
RUI GUERRA
Analista colaborador do Resumo Política
“as opiniões emitidas por nossos colaboradores, não refletem, necessariamente, a opinião do site”
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