A questão sobre se o ser humano nasce com uma predisposição para a fé ou para a dúvida atravessa milênios de filosofia, religião e ciência. Só mais recentemente, com o avanço das neurociências, tornou-se possível observar em tempo real o funcionamento do cérebro diante de experiências religiosas, espirituais ou de reflexão crítica. A pergunta central, porém, continua em aberto: existem redes de neurônios que diferenciam agnósticos de espiritualistas?
A resposta curta é: não há, até agora, uma estatística clara que separe quantitativa ou qualitativamente esses dois perfis. O que a ciência encontrou são circuitos funcionais distintos, ativados em contextos diferentes, e que podem ser reforçados ou enfraquecidos ao longo da vida por meio de práticas, experiências e ambientes culturais.
O “circuito da espiritualidade”.
Pesquisas de neuroimagem funcional com freiras em oração, monges budistas em meditação profunda e fiéis em cultos religiosos revelaram um padrão relativamente consistente: a ativação de um conjunto de áreas que passou a ser chamado, em alguns estudos, de “circuito da espiritualidade”.
Esse circuito envolve principalmente:
•Córtex pré-frontal medial – ligado à autorreflexão e ao sentido de propósito.
•Lobo parietal inferior – associado à noção de espaço e à percepção do eu; quando hipoativado, gera sensação de “perda da individualidade” ou “união com o todo”.
•Sistema límbico (amígdala, hipocampo) – responsável pela carga emocional intensa dessas experiências.
Em termos subjetivos, trata-se de vivências marcadas por transcendência, pertencimento e conexão com algo maior, que podem ser interpretadas como contato com o divino ou simplesmente como estados alterados de consciência.
O “circuito da dúvida”.
Por outro lado, estudos com pessoas que se definem como ateias ou agnósticas mostram maior engajamento de regiões ligadas à avaliação crítica e à resolução de conflitos cognitivos, como:
•Córtex cingulado anterior – área que detecta inconsistências e monitora erros.
•Córtex pré-frontal dorsolateral – ligado ao raciocínio lógico, planejamento e vigilância contra ilusões cognitivas.
Quando expostos a afirmações religiosas ou espirituais, indivíduos com tendência agnóstica apresentam maior atividade nessas regiões, como se o cérebro estivesse checando a coerência das informações recebidas.
Não é estrutura, é função.
É essencial destacar que não há um “cérebro espiritualista” e um “cérebro agnóstico” em termos anatômicos. As diferenças não se dão em “quantidade de neurônios” ou “tamanho de áreas cerebrais”, mas na funcionalidade das redes:
•Quais regiões são ativadas.
•A intensidade da ativação.
•O grau de conectividade entre áreas.
Assim, a mesma estrutura neural pode participar tanto de uma oração quanto de uma análise científica. O que muda é como ela é acionada e em que contexto.
Plasticidade cerebral: prática molda rede.
Outro ponto crucial é a plasticidade do cérebro humano. Pessoas que rezam diariamente reforçam conexões entre áreas do circuito espiritual. Da mesma forma, indivíduos que cultivam pensamento crítico, leitura científica e debate racional fortalecem as redes associadas à dúvida e à avaliação lógica.
Isso significa que não há uma predestinação neurológica fixa. O que existe é um potencial plástico, que pode ser orientado para a transcendência ou para a vigilância crítica, dependendo de estímulos ao longo da vida.
O peso do ambiente sociocultural.
Diversos estudos de psicologia do desenvolvimento mostram que a religião ou a dúvida dificilmente emergem do nada. Crianças educadas em ambientes altamente religiosos tendem a ativar mais facilmente circuitos de espiritualidade, enquanto aquelas expostas desde cedo a discussões científicas ou ambientes laicos tendem a reforçar circuitos de análise crítica.
Assim, a rede neural não é causa isolada, mas resultado de uma interação contínua entre biologia, cultura e experiência pessoal.
Estatísticas: o que não existe (ainda).
Não há hoje uma estatística confiável que diga: “X% da população tem redes mais espiritualistas e Y% mais agnósticas”. O máximo que a ciência conseguiu foi correlacionar níveis de atividade cerebral em diferentes grupos, mas sem conseguir afirmar causalidade.
Por exemplo: não se sabe se alguém se torna espiritualista porque ativa mais o lobo parietal inferior, ou se essa área se torna mais ativa porque a pessoa pratica espiritualidade. O dilema do “ovo ou da galinha” ainda persiste.
Filosofia e neurociência: limites da explicação.
A busca por uma “assinatura neural da fé” ou da dúvida toca em um ponto delicado: até onde a ciência pode explicar fenômenos existenciais? Se identificarmos que uma experiência mística se correlaciona com a ativação de determinadas áreas, isso invalida o valor da experiência?
Alguns filósofos afirmam que a ciência apenas descreve o como, mas não o porquê. Ou seja, o fato de uma sensação de transcendência ter correlação neuronal não significa que ela seja “menos real”. Do mesmo modo, a dúvida agnóstica pode ser vista tanto como construção racional quanto como fruto de circuitos cerebrais de monitoramento de erro.
Convergência possível: fé e dúvida no mesmo cérebro.
Talvez a maior descoberta da neurociência sobre esse tema seja justamente que fé e dúvida não são mutuamente excludentes no cérebro humano. As mesmas pessoas podem, em momentos diferentes, acionar circuitos de transcendência e de crítica, dependendo do contexto.
Isso explicaria, por exemplo, a experiência de cientistas profundamente religiosos, ou de líderes espirituais capazes de aplicar raciocínio lógico rigoroso em outros domínios. O cérebro humano não opera em dicotomias rígidas, mas em gradientes de ativação.
Conclusão.
As redes neurais humanas não carregam uma etiqueta de “agnóstico” ou “espiritualista”. O que existe são circuitos funcionais que podem ser orientados para a transcendência ou para a dúvida, dependendo de fatores culturais, práticos e pessoais.
Até hoje, nenhuma estatística conseguiu separar de forma definitiva cérebros de crentes e cérebros de céticos. O que temos são indícios de que a espiritualidade envolve redes ligadas à emoção e ao sentido de pertencimento, enquanto o agnosticismo envolve redes de análise crítica e monitoramento de conflito.
No fim das contas, a maior revelação pode ser a de que fé e dúvida são expressões diferentes da mesma plasticidade cerebral: uma capacidade única do ser humano de buscar significado, seja na entrega ao transcendente, seja na vigilância da razão.
RUI GUERRA
Analista colaborador do Resumo Política
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