Na contabilidade privada, lucro é simples:
receita – despesa = ganho do proprietário ou acionista.
Desse lucro, a empresa paga impostos e distribui dividendos aos sócios.
No setor público, não.
O governo não paga imposto, não distribui dividendos e não tem “proprietários”.
Quem financia o Estado são os cidadãos e os produtores, que pagam impostos antecipadamente e arcam com a receita futura via carga tributária. Portanto, o superávit não enriquece o governo — ele apenas indica que o Estado arrecadou mais do que gastou.
Mas aí surge a pergunta essencial:
Se o Estado não distribui lucro, por que buscar superávit?
A resposta técnica é uma só:
para pagar juros da dívida.
O superávit primário é justamente o resultado fiscal antes do pagamento dos juros. Ele existe para gerar recursos livres capazes de cobrir parte dos juros da dívida pública. Ou seja:
•empresa gera lucro → remunera dono;
•governo gera superávit → remunera credor.
A simetria é evidente:
lucro privado beneficia acionistas; superávit público beneficia bancos e detentores de títulos.
1. Superávit é lucro para o sistema financeiro.
Quando o governo gasta menos do que arrecada (superávit primário), ele demonstra capacidade de:
•pagar juros,
•rolar dívida,
•manter confiabilidade dos títulos públicos,
•reduzir risco de inadimplência,
•baratear o custo da dívida para credores.
Isso significa que o maior beneficiado do superávit não é o cidadão comum, mas quem empresta dinheiro ao Estado:
•bancos,
•fundos de investimento,
•seguradoras,
•fundos de pensão,
•investidores institucionais,
•até investidores internacionais.
Para esse grupo, que recebe juros contratualmente garantidos, o superávit funciona como sinal de segurança e lucro futuro assegurado.
Assim, quando um economista ou político defende obsessivamente superávit, na prática está defendendo a solidez dos ganhos do credor — não necessariamente o bem-estar da sociedade.
2. Superávit NÃO é sinônimo de equilíbrio fiscal.
Há um erro conceitual enorme no debate público:
•Falam de superávit como se fosse “responsabilidade”.
•Mas escondem que o superávit não resolve o problema estrutural da dívida.
•Ele apenas serve à lógica do credor.
Equilíbrio fiscal real exige um Estado:
•menos custoso,
•mais eficiente,
•menos burocrático,
•com menos desperdício,
•com menos renúncias clientelistas,
•e com arcabouço que impeça crescimento automático do gasto.
Mas isso dá trabalho político — cortar privilégios custa votos.
O superávit, ao contrário, é o caminho mais fácil:
•aumenta imposto,
•corta investimento,
•reduz serviço,
•mas garante o pagamento dos juros.
É fiscalmente vantajoso para bancos e credores pois não alteram as bolsas de valores, “ os financiamentos, não fortalece, nem faz o Estado mais eficiente.
3. O nó político-moral: quem paga a conta?
Quando o governo busca superávit:
•aumenta impostos (onera produtores e cidadãos),
•reduz serviços essenciais (saúde, educação, segurança),
•baixa investimentos (infraestrutura vira sucata),
•e garante recursos para pagar juros a quem emprestou.
Na prática, isso significa que:
•a sociedade financia a tranquilidade dos credores,
•ricos rentistas são protegidos,
•empresários produtivos pagam a conta,
•e o Estado não melhora sua eficiência.
Superávit sem reforma é apenas um transferidor de renda do povo para os bancos.
4. O argumento técnico que raramente é dito.
Os defensores do superávit afirmam que ele:
•reduz risco país,
•estabiliza inflação,
•atrai capital.
Não é mentira — mas é meia verdade.
A realidade é:
•Desde que o Estado continue gastando mal,
•desde que a dívida cresça mais rápido que o PIB,
•desde que a máquina pública seja ineficiente,
•desde que a corrupção corra solta,
superávit é apenas maquiagem para manter credores satisfeitos enquanto o país não melhora.
A metáfora é perfeita:
É como pagar juros do cartão de crédito todo mês, sem reduzir a dívida e sem mudar o comportamento de consumo.
Não podemos negar a importância do crédito para turbinar o desenvolvimento mas o sistema financeiro agradece a prioridade do superávit primário.
5. Conclusão: superávit é ferramenta, não objetivo — mas virou objetivo porque interessa aos credores.
Quem defende superávit, do jeito que se pratica no Brasil, está defendendo bancos — não equilíbrio fiscal.
O superávit deveria ser CONSEQUÊNCIA de:
•Estado eficiente,
•contas ajustadas,
•reformas estruturais,
•gasto racional,
•estabilidade institucional.
Mas, no Brasil, virou FIM EM SI MESMO — justamente porque:
•garante pagamento de juros,
•acalma credores,
•sustenta a máquina financeira,
•e mantém a dívida viva.
Em resumo:
•Superávit sem reforma = lucro para quem empresta e sacrifício para quem produz.
•Equilíbrio fiscal real exige repensar o Estado — não apenas arrecadar mais para pagar juros.
RUI GUERRA
Analista colaborador do Resumo Política
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