Há fenômenos sociais cuja persistência revelam que a civilização humana avançou tecnologicamente muito mais rápido do que evoluiu emocionalmente. Entre eles, nenhum é tão perturbador quanto o feminicídio — a prática extrema de violência masculina contra a mulher, motivada não pelo impulso momentâneo, mas pela crença profundamente enraizada de que ela lhe pertence. É um crime que não nasce no instante do golpe fatal, mas na estrutura mental de toda uma cultura que ensinou durante séculos que o homem detém o comando e a mulher obedece. Em pleno século XXI, quando a liberdade individual se tornou valor universal, ainda convivemos com resquícios dessa lógica primitiva, que transforma afetos em contratos de propriedade e uniões em territórios a serem defendidos pela força.
O ponto crucial, muitas vezes negligenciado, é que o feminicídio não surge do nada. Ele é o estágio final de um processo que começa muito antes, quando o homem, após conquistar a mulher, acredita que o esforço se encerrou. Durante a fase de aproximação, ele dedica tempo, atenção e encanto; aprende a escutar, demonstra interesse, exibe seu melhor comportamento. Mas, depois de estabelecida a união — seja casamento, namoro ou convivência estável — muitos homens cessam aquilo que, para a mulher, é o tecido vivo do relacionamento: a manutenção do cuidado, do afeto, da presença emocional. É como se imaginassem que o vínculo firmado lhes garantisse um direito adquirido, como se o amor fosse algo armazenado no passado e não um processo contínuo que precisa ser nutrido.
A mulher, por sua vez, percebe de maneira clara e concreta essa retirada silenciosa de atenção. A paixão feminina — tão frequentemente incompreendida — não é um estado que nasce do nada; ela decorre da impressão profunda que o homem deixou na fase de conquistas. Quando esse investimento desaparece, o campo emocional se dissolve. E a consequência natural, quase inevitável, é o desinteresse na continuidade do relacionamento. Muitas permanecem por longos anos tentando preservar a estrutura familiar, tolerando traições, desrespeitos e abandonos emocionais, mas chega o momento em que a dignidade fala mais alto. Ao anunciar a separação, a mulher, geralmente de forma racional, acredita estar apenas reorganizando sua trajetória, ajustando sua vida e partindo para um futuro mais alinhado com sua integridade.
Mas para uma parcela de homens — aqueles que, além de imaturos, são violentos — esse anúncio é interpretado de forma completamente diferente. Ele não vê liberdade; ele vê ameaça. Não vê a autonomia da mulher; vê ruptura de propriedade. A masculinidade malformada, aquela que aprendeu desde cedo que mandar é natural e ceder é humilhação, reage com brutalidade. E o que poderia ser um ato simples de encerramento de uma história se converte em conflito, perseguição e, em casos extremos, na violência fatal. Esse homem não suporta a ideia de fracasso, não aceita a devolução do “território afetivo”, não tolera a sensação de perda de controle. O feminicídio é, antes de tudo, a explosão final dessa lógica de posse.
É importante compreender que esse comportamento não é uma anomalia isolada. Ele está presente em todas as camadas sociais, em todas as regiões do planeta. Mesmo no Norte global, onde a civilidade institucional atinge níveis mais altos, o feminicídio continua existindo — o que demonstra que leis rígidas, sistemas eficientes de proteção e alta escolaridade não são suficientes para erradicar estruturas emocionais atávicas. O problema é profundo demais para ser resolvido apenas pela repressão penal. Ele é tecido na infância, reforçado na adolescência, normalizado pela cultura. É produto de homens que nunca aprenderam a administrar a frustração, a lidar com rejeição, a reconhecer limites, a aceitar que amor não é posse.
Por isso, a constatação é dolorosa: a sociedade ainda não encontrou uma solução eficaz no curto prazo. Mas isso não significa imobilidade. Há caminhos possíveis — embora nenhum seja simples ou rápido. Um deles, apontado com realismo crescente, é o fortalecimento da capacidade de autodefesa feminina. E aqui não se trata de transformar mulheres em combatentes, mas de reconhecer a dura realidade de que, enquanto a cultura não muda, elas precisam de meios concretos para sobreviver. A ideia de incluir nas famílias um treinamento obrigatório de defesa pessoal — lutas marciais, técnicas de escape, leitura de risco — é uma medida tanto preventiva quanto simbólica. Ela fortalece a autoconfiança das meninas, reduz a vulnerabilidade e envia à sociedade um recado claro: a mulher não é vítima em potencial; é sujeito com capacidade de reação.
Essa necessidade se torna ainda mais evidente quando observamos que a natureza, tão frequentemente usada como referência para explicar comportamentos humanos, não oferece paralelo à violência extrema praticada por certos homens. Onças, jacarés, lobos, leões — nenhum desses animais mata suas parceiras em função de ciúme, rejeição ou posse. A agressão letal entre casal é raríssima no reino animal. O que chamamos de feminicídio é, portanto, uma perversão cultural, não um instinto. E justamente por ser cultural, pode — e deve — ser combatido no plano simbólico, educativo e emocional.
Se queremos evitar o feminicídio, precisamos ensinar aos meninos o que nunca lhes foi ensinado: que rejeição não é humilhação; que afeto não é garantia eterna; que a liberdade da mulher não diminui o valor do homem; que o fim de um relacionamento não é derrota, mas um desfecho natural da vida humana. Precisamos formar homens capazes de lidar com a dor da perda sem transformar essa dor em violência. Isso só ocorre com educação emocional, com exemplos masculinos responsáveis, com a desconstrução da ideia de que virilidade é domínio.
O feminicídio não é apenas estatística ou manchete. É o reflexo sombrio de uma sociedade que ainda não superou seu passado patriarcal. Mas também é um chamado urgente a uma transformação que não pode mais ser adiada. Enquanto a cultura não muda, a proteção imediata passa por fortalecer as mulheres. Enquanto a educação masculina não evolui, a lei deve ser rigorosa. E enquanto a maturidade emocional não se torna norma, a vigilância social permanece indispensável.
O caminho é longo, mas inevitável. Pois nenhum povo civilizado pode aceitar que a liberdade e a vida de metade da população estejam à mercê da imaturidade afetiva da outra metade. E, no dia em que homens entenderem que amor é presença e não propriedade, compreenderemos finalmente que o feminicídio não é destino — é atraso. E atrasos, como toda a história já demonstrou, podem e devem ser superados.
Analista colaborador do Resumo Política







