A China contemporânea costuma ser apresentada como prova de que o comunismo pode gerar prosperidade econômica. Essa interpretação, embora sedutora, é historicamente imprecisa. O sucesso chinês não resulta da fidelidade ao comunismo clássico, mas de sua superação pragmática. Para compreender esse paradoxo, é preciso distinguir dois momentos distintos: a revolução que implantou o regime comunista e os ajustes posteriores que permitiram à China enriquecer sem abandonar o controle político absoluto.
A implantação do comunismo ocorreu por meio da Revolução Chinesa, um processo iniciado em 1927 e concluído em 1949, quando Mao Tsé-Tung proclamou a República Popular da China. O Partido Comunista Chinês (PCC) venceu não apenas por força ideológica, mas por apresentar-se como alternativa à fragmentação interna, à dominação estrangeira e à incapacidade do Estado nacionalista de impor ordem e soberania. Politicamente, a revolução foi bem-sucedida: unificou o país sob um poder central forte. Economicamente, porém, o maoísmo revelou-se um fracasso.
Entre 1949 e 1976, a China viveu sob estatização total, coletivização forçada e planejamento central rígido. Campanhas como o Grande Salto Adiante e a Revolução Cultural produziram fome em massa, destruição institucional e atraso tecnológico profundo. Ao fim desse período, a China era um país politicamente disciplinado, mas economicamente pobre. O comunismo havia vencido no poder, mas falhado na produção.
A inflexão decisiva ocorreu após a morte de Mao, com a ascensão de Deng Xiaoping. Sua contribuição não foi teórica, mas profundamente prática. Deng rompeu com o dogma segundo o qual socialismo significava ausência de mercado. Ao afirmar que “não importa a cor do gato, desde que ele cace o rato”, inaugurou uma lógica em que o crescimento econômico passou a ser critério de legitimidade política. O Partido manteve o monopólio do poder, mas abandonou o comunismo econômico clássico.
Os ajustes começaram no campo, com a descoletivização agrícola. As comunas foram dissolvidas e os camponeses passaram a cumprir cotas ao Estado, podendo vender excedentes no mercado. Esse incentivo elementar produziu um salto imediato de produtividade, reduziu a fome e elevou a renda rural. Em seguida, a China autorizou a existência de empresas privadas, lucros, salários diferenciados e competição, sempre sob vigilância política. Não houve abertura democrática; houve abertura econômica seletiva.
As Zonas Econômicas Especiais consolidaram essa estratégia. Em regiões como Shenzhen, práticas tipicamente capitalistas foram permitidas: investimento estrangeiro, exportações, inovação tecnológica e integração às cadeias globais. O Estado permaneceu dono da terra, controlador do crédito, do câmbio e dos setores estratégicos, mas permitiu eficiência capitalista onde ela servia aos objetivos nacionais. O resultado foi a construção de um modelo híbrido, frequentemente chamado de “socialismo com características chinesas”, mas mais corretamente definido como capitalismo de Estado autoritário.
É nesse ponto que surge um aspecto frequentemente omitido nas análises idealizadas: a relação da China com a corrupção. O crescimento chinês não ocorreu apesar da corrupção, mas convivendo com ela. Durante décadas, o Partido Comunista tolerou níveis elevados de corrupção local e intermediária, desde que ela fosse funcional ao crescimento econômico e à estabilidade política. Governadores, prefeitos e dirigentes regionais enriqueceram, mas entregaram obras, empregos, arrecadação e expansão produtiva. A corrupção funcionou, em muitos casos, como um mecanismo informal de incentivo, substituindo bônus formais inexistentes em um sistema rigidamente controlado pelo Estado.
Essa tolerância, contudo, nunca foi irrestrita. O Partido estabeleceu uma linha vermelha clara: não seriam aceitas práticas que ameaçassem o poder central, criassem redes autônomas ou colocassem em risco a legitimidade do regime. As campanhas anticorrupção, especialmente intensificadas sob Xi Jinping, não têm caráter moralizante nos moldes ocidentais. São instrumentos de disciplina política, centralização de poder e eliminação de facções rivais. Na China, combate-se a corrupção não por princípio ético, mas quando ela deixa de ser útil ou passa a ser perigosa.
Esse dado é fundamental para compreender por que o modelo chinês não é facilmente replicável. A China combinou mercado, autoritarismo, planejamento de longo prazo e uma gestão seletiva — e funcional — das disfunções do sistema. Trata-se de um arranjo profundamente dependente de cultura política, disciplina partidária e controle institucional absoluto.
Diante disso, impõe-se a pergunta: caberia tal experiência no Brasil? A resposta é negativa. O modelo chinês exige condições que o Brasil não possui nem deveria desejar possuir. Pressupõe partido único, controle estatal da terra e do crédito, subordinação do Judiciário, limitação severa das liberdades civis e uma burocracia tecnocrática altamente hierarquizada. O Brasil é uma democracia plural, federativa, com imprensa livre, Judiciário independente e sociedade civil ativa. Importar o modelo chinês exigiria desmontar o próprio arcabouço constitucional brasileiro, o que não seria um ajuste econômico, mas uma ruptura autoritária.
Além disso, a corrupção brasileira é estruturalmente distinta da chinesa. No Brasil, ela não é funcional ao crescimento; é predatória. Não acelera decisões, não entrega produtividade e não é disciplinada por metas claras. Captura o Estado, paralisa investimentos, destrói confiança e opera sem uma linha vermelha definida. Enquanto na China a corrupção foi tolerada sob controle e depois reprimida seletivamente, no Brasil ela se perpetua sem coordenação, sem punição consistente e sem resultados econômicos compensatórios.
A verdadeira lição chinesa para o Brasil não está no autoritarismo nem na tolerância à corrupção, mas no pragmatismo estratégico. A China cresceu porque abandonou dogmas, planejou no longo prazo, valorizou a técnica, protegeu setores estratégicos e criou incentivos claros à produção. Nada disso exige partido único ou supressão de liberdades. Exige racionalidade institucional, previsibilidade e uma elite dirigente menos capturada por interesses imediatos.
Em síntese, a China não demonstra que o comunismo funciona. Demonstra que ideologia pura não funciona em lugar algum. Seu sucesso nasce da capacidade de adaptar meios aos fins, mesmo ao custo de contradições morais e políticas. Para o Brasil, a lição não é copiar a China, mas compreender que desenvolvimento exige coerência, disciplina institucional e coragem para abandonar ilusões — sejam elas revolucionárias ou salvacionistas.
Analista colaborador do Resumo Política






