As recentes e duras ameaças de Donald Trump ao Irã, descritas na reportagem da Veja, revelam mais do que um simples endurecimento retórico na política externa dos Estados Unidos. Elas expõem uma estratégia clássica de coerção internacional, combinando pressão militar, intimidação diplomática e cálculo político interno, cujos riscos podem superar, em muito, seus possíveis ganhos. Ao elevar o tom contra Teerã, Trump reacende uma dinâmica perigosa em uma das regiões mais instáveis do planeta e reforça um padrão já conhecido de sua atuação internacional: a aposta no choque como instrumento de negociação.
O discurso de Trump parte de um ponto sensível e legítimo do debate global: o programa nuclear iraniano. Desde o acordo firmado em 2015, o tema tornou-se símbolo de disputas não apenas sobre segurança internacional, mas também sobre credibilidade diplomática. Ao retirar os Estados Unidos do acordo durante seu primeiro mandato, Trump apostou que sanções severas e isolamento forçariam o Irã a aceitar termos mais rígidos. O resultado, contudo, foi o oposto: Teerã retomou o enriquecimento de urânio, enfraqueceu setores moderados do regime e fortaleceu alas mais radicais, que sempre desconfiaram do diálogo com o Ocidente.
As novas ameaças, segundo a reportagem, seguem essa mesma lógica de pressão máxima. A mobilização militar no Oriente Médio e as declarações de que um ataque poderia ser “devastador” não são apenas mensagens ao governo iraniano, mas também sinais para múltiplas audiências. Internamente, Trump reforça sua imagem de líder forte e imprevisível, característica que mobiliza sua base política. Externamente, tenta dissuadir tanto o Irã quanto seus aliados regionais, como milícias no Líbano, no Iraque e no Iêmen, que atuam como extensões indiretas do poder iraniano.
Entretanto, essa estratégia carrega contradições profundas. A diplomacia baseada em ameaças tende a reduzir o espaço para concessões, pois qualquer recuo pode ser interpretado como fraqueza. No caso iraniano, isso é ainda mais sensível: o regime dos aiatolás construiu parte de sua legitimidade interna em torno da resistência a pressões externas. Assim, ataques verbais ou militares dos Estados Unidos frequentemente produzem um efeito de “fechamento de fileiras”, no qual disputas internas são temporariamente suspensas em nome da defesa nacional. Em vez de enfraquecer o regime, a escalada pode fortalecê-lo.
Além disso, a aposta na intimidação ignora o risco real de escalada não intencional. O Oriente Médio é um tabuleiro saturado de atores armados, interesses cruzados e conflitos latentes. Um ataque pontual, um erro de cálculo ou uma retaliação indireta pode rapidamente sair do controle, arrastando aliados regionais e impactando mercados globais, especialmente o de energia. A história recente mostra que guerras iniciadas com promessas de rapidez e precisão costumam se prolongar e gerar consequências imprevistas.
Outro aspecto central é a possível intenção de Trump de estimular instabilidade interna no Irã, como sugere a matéria. A ideia de que pressões externas possam levar à queda de um regime autoritário é tentadora, mas historicamente frágil. Sanções severas e ameaças militares tendem a penalizar mais a população do que as elites governantes, alimentando crises econômicas e humanitárias sem necessariamente produzir mudança política. Ao mesmo tempo, fornecem ao regime uma narrativa conveniente para justificar repressão interna e silenciar dissidentes sob o pretexto de segurança nacional.
Do ponto de vista internacional, a postura de Trump também gera desconforto entre aliados tradicionais dos Estados Unidos. Países europeus, que ainda veem valor na via diplomática, temem que uma escalada militar destrua qualquer possibilidade de acordo e aumente a instabilidade regional. Mesmo aliados no Oriente Médio, embora hostis ao Irã, receiam os efeitos colaterais de um conflito aberto, que poderia atingir diretamente seus territórios e economias.
Em última instância, as novas ameaças de Trump ao Irã ilustram os limites de uma política externa baseada quase exclusivamente na força e na intimidação. Embora esse estilo produza impacto imediato e manchetes chamativas, ele raramente constrói soluções duradouras. O impasse nuclear iraniano exige negociações complexas, garantias mútuas e mecanismos de verificação — elementos que dificilmente prosperam em um ambiente dominado por ultimatos e demonstrações de poder militar.
Assim, mais do que um gesto de firmeza, a escalada retórica de Trump parece um movimento de alto risco, cujo principal efeito pode ser aprofundar a desconfiança, reduzir as chances de diálogo e aproximar a região de um conflito que ninguém controla totalmente. A história sugere que, nesse tipo de jogo, a força pode impor silêncio temporário, mas raramente produz estabilidade verdadeira.
Analista colaborador do Resumo Política







