O episódio envolvendo o IBGE ganha contornos ainda mais graves quando se observa quem saiu e quem permaneceu. Não foi o presidente do instituto, alinhado ao discurso do governo, que deixou o cargo. Caiu a diretora responsável pelo PIB. Ou seja, preservou-se o comando político e sacrificou-se a área técnica. Esse detalhe muda tudo, porque revela método, não acidente.
A mensagem institucional é clara. O problema não estaria na orientação geral, mas em quem produz o dado que eventualmente resiste à narrativa desejada. Em vez de proteger a autonomia técnica diante de pressões externas, o Executivo optou por blindar o topo e expor o núcleo técnico, invertendo a lógica de um órgão de Estado. Isso não é gestão. É sinalização política.
Indicadores como o PIB não são peças decorativas do discurso oficial. Eles orientam decisões fiscais, monetárias, investimentos privados e avaliações internacionais. Quando a área técnica responsável por mensurá-los é fragilizada, o dado deixa de ser um retrato da economia e passa a ser percebido como produto de conveniência. A estatística perde densidade e vira argumento.
O mais preocupante não é a divergência pontual sobre metodologia, algo normal em qualquer instituto sério. O problema é o ambiente criado. Um ambiente em que técnicos entendem que resistir pode custar o cargo, enquanto alinhar-se garante sobrevivência institucional. A partir daí, a autocensura se instala de forma silenciosa, muito mais eficaz do que qualquer ordem explícita.
No caso do PIB, o incentivo político é óbvio. Um crescimento maior permite ao Executivo se apropriar do resultado, vender sucesso econômico e construir narrativa eleitoral. Pouco importa se esse crescimento não se traduz de forma clara na renda, no emprego percebido ou no bem-estar cotidiano da população. O número passa a cumprir função simbólica, não explicativa.
O mesmo raciocínio se aplica ao desemprego e a outros indicadores sociais. Ajustes metodológicos podem ser legítimos quando transparentes, estáveis e amplamente debatidos. Tornam-se problemáticos quando coincidem com calendários eleitorais e produzem resultados sistematicamente mais favoráveis ao governo de plantão. Nesse contexto, a dúvida não é técnica. É política.
Ao manter o presidente do IBGE e afastar a diretora do PIB, o Executivo reforça a percepção de que o problema não era a interferência, mas a resistência. Isso gera um dano profundo à credibilidade do instituto. Não apenas interna, entre seus quadros, mas externa, junto à sociedade, ao mercado e à comunidade internacional.
O Brasil sempre teve no IBGE um de seus ativos institucionais mais respeitados. Qualquer sinal de captura política desse órgão cobra um preço elevado. Investidores passam a olhar os dados com cautela, políticas públicas perdem base sólida e o debate público se contamina pela desconfiança. Quando ninguém acredita plenamente nos números, cada lado passa a escolher os seus.
Há ainda um efeito democrático perverso. Governos não perdem legitimidade apenas por maus resultados econômicos. Perdem quando a sociedade percebe que está sendo conduzida por estatísticas que não dialogam com a realidade vivida. A tentativa de fabricar desempenho costuma produzir o efeito inverso. Amplia o ceticismo e fortalece discursos de descrédito institucional.
Não se trata de negar crescimento, nem de afirmar fraude automática. Trata-se de algo mais sutil e mais perigoso. A subordinação da técnica à conveniência política. Quando isso ocorre, o Estado deixa de medir a realidade para tentar moldá-la no discurso.
O Executivo existe para governar o país real, não para ajustar o espelho. Quando opta por preservar quem joga o jogo político e afastar quem sustenta o rigor técnico, ele envia um sinal inequívoco. A verdade estatística passa a ser tolerada apenas enquanto não atrapalha a narrativa.
E quando a narrativa passa a valer mais do que o método, o problema deixa de ser econômico. Passa a ser institucional. E, em última instância, democrático.







