Há uma pergunta que atravessa décadas de experiência histórica e insiste em reaparecer diante de cada regime autoritário que fracassa economicamente. Como governos que destroem a própria economia, empobrecem a população e corroem instituições conseguem permanecer no poder por tanto tempo. A resposta mais comum recorre à ideologia, ao controle da informação ou à repressão direta. Essas explicações existem, mas são insuficientes. O que realmente sustenta regimes dessa natureza é algo mais simples e mais perturbador. O controle do dinheiro.
Quando a promessa ideológica se esgota e a economia entra em colapso, o poder não desaparece. Ele se reorganiza. Deixa de depender do convencimento popular e passa a depender da engenharia política que controla fluxos financeiros, recompensas internas e lealdades estratégicas. O socialismo real não sobrevive porque ainda convence. Sobrevive porque aprende a transformar o Estado em instrumento de extração e proteção.
É nesse ponto que surge Alex Saab.
Sua ascensão não ocorre por acaso nem por genialidade empresarial isolada. Saab começa a operar para o regime venezuelano a partir de 2011, ainda durante o governo Hugo Chávez, quando a deterioração fiscal já exigia mecanismos paralelos para contornar controles cambiais e fragilidades estruturais. O ponto de inflexão ocorre após a morte de Chávez, em 2013, quando Nicolás Maduro herda um poder politicamente frágil e economicamente inviável. É nesse vazio que Saab se torna indispensável.
Entre 2014 e 2016, com a queda do preço do petróleo e o agravamento do colapso produtivo, Saab passa a operar como intermediário privilegiado em contratos internacionais de importação, sobretudo nos programas de alimentos subsidiados, como o CLAP. Esses contratos, apresentados como política social, tornam-se rapidamente um dos principais canais de extração de recursos, superfaturamento e lavagem de dinheiro em larga escala. Empresas de fachada, contas em múltiplas jurisdições e triangulações comerciais passam a substituir qualquer vestígio de gestão pública regular.
Nesse estágio, Saab já não representa interesses privados infiltrados no Estado. Ele representa o próprio Estado em sua forma clandestina.
A partir de 2017, com o endurecimento das sanções internacionais, especialmente dos Estados Unidos, sua função deixa de ser apenas econômica e passa a ser estratégica. Saab torna-se o arquiteto da sobrevivência financeira do regime, responsável por estruturar rotas alternativas de pagamento, aquisição de insumos e circulação de recursos fora do sistema financeiro tradicional. É quando sua figura deixa de ser discreta e passa a ser vital. Quanto mais isolado Maduro fica, mais central Saab se torna.
Em junho de 2020, ocorre sua primeira prisão relevante, em Cabo Verde, durante uma escala técnica. A detenção não interrompe o sistema. Pelo contrário. Revela sua importância. A reação do regime venezuelano é imediata e desproporcional. Saab passa a ser tratado como diplomata, recebe o título formal de “enviado especial” e se transforma em símbolo da luta contra o “imperialismo”, não por convicção ideológica, mas por necessidade operacional.
Sua extradição para os Estados Unidos, em 2021, marca outro ponto decisivo. Ali, Saab deixa de ser apenas operador e se transforma em risco. Quem controla o dinheiro conhece demais. Quem conhece demais ameaça o sistema. Durante sua detenção, o chavismo mobiliza aliados, pressiona instâncias internacionais e negocia silenciosamente. Não por justiça. Por sobrevivência.
A libertação de Saab, em 2023, como parte de um acordo político envolvendo negociações entre o regime venezuelano e os Estados Unidos, não representa absolvição moral nem encerramento do caso. Representa pragmatismo. Regimes autoritários não agem por coerência ética. Agem por cálculo.
Sua recente em Caracas, já sob o controle do que resta da própria ditadura que ele ajudou a sustentar, deve ser lida com atenção. Não se trata de justiça tardia. Trata-se de neutralização interna. Ditaduras não punem corrupção. Punem riscos. Quando um operador passa a saber demais, valer menos ou ameaçar equilíbrios internos, ele deixa de ser ativo e passa a ser passivo.
Esse ponto responde à indagação fundamental que muitos evitam formular. Regimes autoritários não caem quando empobrecem a população. Eles caem quando perdem o controle do dinheiro que alimenta a lealdade interna. A política, nesses sistemas, deixa de ser disputa de projetos e passa a ser administração de recompensas. Quem controla os fluxos financeiros controla o silêncio, a fidelidade e o medo.
A partir daí, o debate deixa de ser econômico e se torna essencialmente político. O fracasso do socialismo como prática de governo não é apenas o da ineficiência produtiva. É o fracasso moral de um sistema que substitui instituições por lealdades, leis por conveniências e justiça por blindagem. Quando o Estado passa a existir para proteger seus próprios operadores, o crime deixa de ser exceção e passa a ser método.
É nesse ambiente que surge a blindagem jurídica como fase final do processo. Não se trata de advocacia no sentido clássico. Não há defesa técnica, não há peças, não há litígio real. O que existe é a ocupação simbólica do espaço institucional para impedir que a lei volte a alcançar o sistema que a destruiu. O direito deixa de ser instrumento de contenção do poder e passa a ser seu escudo.
O exemplo venezuelano não é exótico nem distante. Ele funciona como advertência. Sempre que um projeto político passa a tratar o setor produtivo como inimigo, a iniciativa privada como suspeita e o Estado como fonte exclusiva de riqueza, o resultado segue uma sequência previsível. Primeiro vem o colapso econômico. Depois surge a necessidade de operadores financeiros invisíveis. Por fim, instala-se a normalização do crime como engrenagem de governo. Não se trata de corrupção episódica. Trata-se de sistema.
Nesse estágio, a ideologia já não serve para convencer. Serve apenas como verniz retórico. O poder não se sustenta mais em votos, mas em dinheiro ilícito, controle institucional e intimidação. A política deixa de ser espaço de alternância e passa a ser território de gestão do poder acumulado. Quem ameaça esse equilíbrio não é adversário político. É risco operacional.
A indagação inicial, portanto, encontra sua resposta mais incômoda. O socialismo real não se mantém apesar de seus operadores criminosos. Ele se mantém por causa deles. Quando a ideologia perde a capacidade de mobilizar, o dinheiro assume a função política que o voto já não cumpre. O poder deixa de ser disputado e passa a ser administrado.
E quando isso acontece, não é a pobreza da população que ameaça o regime. É a perda do controle sobre quem sabe onde o dinheiro está.







