Há momentos em que a política deixa de lado qualquer disfarce técnico e assume sua forma mais direta. A disputa pelo poder passa a orientar decisões que deveriam estar ancoradas em critérios econômicos e responsabilidade fiscal. Quando o governo amplia gastos ou abre mão de receitas relevantes sem reduzir despesas compensatórias , o resultado não desaparece. Ele apenas se desloca para a dívida pública.
Os cerca de R$ 30 bilhões em renúncias e compensações decorrentes das isenções de PIS e COFINS entram exatamente nesse campo. Não se trata apenas de um número. Trata-se de um sinal. Quando o Estado decide aliviar um lado sem ajustar o outro, alguém pagará a diferença. E esse alguém, no fim, é a própria sociedade por meio de mais endividamento, mais impostos futuros ou menor capacidade de investimento.
A lógica é simples e dura. Se a receita não cobre a despesa, a diferença vira dívida. E dívida pública não é neutra. Ela pressiona juros, encarece o crédito, reduz o espaço para investimento produtivo e, pouco a pouco, limita o crescimento econômico.
O problema não está apenas no valor, mas na intenção e no desenho do gasto. Quando recursos são direcionados para ampliar a capacidade produtiva, como infraestrutura ou qualificação, há uma chance real de retorno. Mas quando o gasto é orientado para gerar efeito eleitoreiro e estimular consumo o resultado é sempre passageiro.
O alívio aparece agora. A conta chega depois.
É nesse ponto que a crítica ganha densidade. O orçamento passa a ser utilizado como instrumento de sustentação política. Amplia-se o gasto, concede-se benefício, reduz-se receita de forma seletiva. O presente melhora, mas sem base sólida de crescimento. O que sustenta esse movimento não é a geração de riqueza, mas a antecipação dela.
Gasta-se hoje o que ainda não foi produzido.
No curto prazo, o cenário pode até parecer positivo. O consumo reage, alguns indicadores melhoram e a percepção social se ajusta. Mas, à medida que o endividamento cresce, os mecanismos de correção entram em cena. Juros mais altos, maior pressão tributária e redução de investimentos tornam-se inevitáveis.
O impacto se espalha pela economia. Empresas enfrentam custos maiores, investimentos são adiados e o ambiente de negócios perde previsibilidade. O capital se retrai ou exige retorno mais elevado para compensar o risco. O resultado é menor dinamismo econômico.
Há também um efeito político silencioso. Cada benefício concedido cria uma expectativa de permanência. Cada renúncia gera grupos interessados na sua continuidade. O espaço para ajuste diminui. Governar passa a ser administrar pressões acumuladas e não definir prioridades de longo prazo.
Nesse ambiente, o mérito econômico perde espaço. A produtividade deixa de ser o eixo central e cede lugar à lógica da distribuição imediata. Não porque seja irrelevante, mas porque seus resultados não aparecem no tempo da política.
O risco maior não é apenas fiscal. É estrutural. Uma economia que convive com expansão de gastos sem correspondência na produção tende a crescer menos, depender mais do Estado e perder competitividade. O que começa como estratégia de curto prazo pode se transformar em limitação permanente.
É importante reconhecer que o Estado precisa gastar. Essa é sua função. O problema surge quando o gasto se desconecta da capacidade de financiamento e de um projeto consistente de crescimento. Sem essa conexão, o orçamento deixa de ser instrumento de desenvolvimento e passa a ser ferramenta de sobrevivência política.
Os mais R$ 30 bilhões não são apenas um ajuste contábil. São um indicativo de direção. Mostram um modelo que prioriza o presente e adia o enfrentamento das restrições reais.
E a economia não perdoa adiamentos indefinidos.
Dívida é compromisso transferido no tempo.
E todo compromisso transferido um dia vence.







