Divergências nunca deixarão de existir. A democracia nunca permitirá que exista um único coral político. Nesse tom, bem que valeria a pena entendê-las com mais realidade. Ocorrendo isso as diferenças entre os grupos seriam bem menores e permitiriam uma melhor convivência e aceitação dos resultados eleitorais para o bem de todos e da democracia brasileira.
Durante boa parte do século XX, a resposta parecia simples. A esquerda defendia maior intervenção do Estado na economia, enquanto a direita valorizava a propriedade privada e o mercado. Em sua forma mais radical, a esquerda encontrava no comunismo seu modelo de sociedade; a direita, no capitalismo.
A queda do Muro de Berlim, em 1989, e o colapso da União Soviética, em 1991, alteraram profundamente esse cenário. O comunismo como sistema econômico competitivo praticamente desapareceu. A China manteve o comando político do Partido Comunista, mas girou amplamente para os mecanismos de mercado. Russia e Vietnã seguiram caminho semelhante. Cuba, Coreia do Norte e Venezuela permaneceram cristalizadas e pagam o preço de representar um modelo incapaz de rivalizar economicamente com o capitalismo.
Diante dessa realidade, surgiu uma pergunta inevitável: se o comunismo deixou de ser uma alternativa viável, o que ainda separa esquerda e direita?
A resposta é que a divisão migrou da economia para os valores.
A pesquisa publicada na Revista de Sociologia e Política, baseada na Teoria dos Valores Humanos de Schwartz, ajuda a compreender essa transformação. Segundo o estudo, os brasileiros que se identificam com a direita tendem a atribuir maior importância à tradição, à segurança, à estabilidade social e à preservação dos costumes. Já aqueles que se identificam com a esquerda demonstram maior valorização da autonomia individual, da diversidade, da criatividade e da abertura às mudanças culturais.
Observe que nenhum desses elementos trata diretamente de meios de produção, estatização ou luta de classes. O debate deslocou-se para a forma como a sociedade deve organizar sua convivência.
A direita passou a concentrar-se na defesa da família tradicional, da religião, da ordem pública, da meritocracia e das identidades nacionais. A esquerda passou a enfatizar inclusão social, diversidade cultural, direitos de minorias, igualdade de oportunidades e ampliação das liberdades individuais.
Isso não significa que as diferenças econômicas desapareceram. Elas continuam existindo. A esquerda geralmente aceita maior presença do Estado na redução das desigualdades. A direita costuma confiar mais na capacidade do mercado de gerar riqueza e oportunidades. Porém, na prática, as duas correntes aproximaram-se bastante no campo econômico.
Hoje é difícil encontrar partidos relevantes que defendam a completa estatização da economia. Da mesma forma, são raros os que defendem a ausência total do Estado. Ambos os campos aceitam uma combinação de mercado e intervenção pública, divergindo principalmente sobre a intensidade dessa participação.
Talvez por isso o eleitor comum tenha cada vez mais dificuldade em identificar claramente quem é de esquerda ou de direita apenas pelas propostas econômicas.
O debate contemporâneo gira em torno de outras perguntas.
Qual deve ser o papel da religião na vida pública?
Até que ponto as tradições devem ser preservadas?
Como equilibrar liberdade individual e segurança coletiva?
A identidade nacional deve prevalecer sobre tendências globais?
O Estado deve promover mudanças culturais ou apenas respeitar as transformações espontâneas da sociedade?
São essas questões que hoje mobilizam paixões políticas muito mais intensas do que as antigas discussões sobre nacionalização de fábricas ou coletivização da agricultura.
O Brasil oferece um exemplo interessante desse fenômeno.
O crescimento das igrejas evangélicas, a preocupação com a violência urbana, os debates sobre costumes, a valorização da família e o sentimento de insegurança aproximaram milhões de brasileiros de posições conservadoras, independentemente de sua renda ou escolaridade. Ao mesmo tempo, a defesa da diversidade, das pautas identitárias e da ampliação de direitos civis fortaleceu setores progressistas.
A consequência é que pessoas com rendas semelhantes podem votar de forma completamente diferente porque possuem valores diferentes.
Um empresário pode defender pautas progressistas. Um trabalhador humilde pode ser profundamente conservador. Um professor universitário pode votar na direita. Um empreendedor pode apoiar partidos de esquerda.
A velha explicação baseada exclusivamente na luta entre ricos e pobres já não é suficiente para explicar o comportamento político das sociedades modernas.
Talvez a melhor definição para o século XXI seja esta: a principal divisão política não ocorre mais entre capitalismo e comunismo. Ela ocorre entre aqueles que veem a tradição como um valor a ser preservado e aqueles que enxergam a mudança como um valor a ser promovido.
Naturalmente, existem muitas posições intermediárias. A própria pesquisa mostra que uma parcela expressiva dos brasileiros se identifica com o centro, combinando elementos de ambas as visões.
Por isso, reduzir o debate a uma disputa entre “bons” e “maus”, “progressistas” e “retrógrados”, ou “democratas” e “autoritários”, além de injusto, impede a compreensão do fenômeno político.
A verdadeira questão não é mais escolher entre capitalismo e comunismo.
A questão passou a ser outra: qual o equilíbrio adequado entre tradição e mudança, entre estabilidade e transformação, entre identidade e diversidade?
É nessa fronteira que esquerda e direita continuam se encontrando, se enfrentando e definindo os rumos das democracias contemporâneas.






