NO BALANÇO DAS ONDAS DO MAR
O brasileiro que mora em cidade litorânea, aprende a conviver com o mar. É o meu caso: moro há muito tempo num condomínio pertinho da praia e converso com Deus, ouvindo o barulho das ondas.
Nesses oitenta anos de vida, vivencio com coisas boas, coisas más, pessoas boas e pessoas más. O importante é saber administrar!
Minha infância foi maravilhosa no bairro do Farol, andando de bicicleta pelas ruas arborizadas de lá. Meus pais, de classe média, souberam proporcionar aos filhos momentos felizes, convivendo com amigos de nosso nível.
Aprendi que nossa vida se parece com as ondas do mar. Altos e baixos se sucedem e, de cabeça erguida, rimos ou choramos com tudo que nos acontece. Como apareceu nos dois últimos anos um vírus invisível, precisamos mudar de vida. Abraçar amigos e parentes, visitá-los nos hospitais, ir ao cemitério assistir ao enterro de qualquer pessoa, beijar e apertar filhos e netos, tudo isso ficou proibido. Muitos meses de sofrimento, reaprendendo nos moldes da recente vida. Sofri demais com os novos costumes, porque gosto de ver gente, conversar, rir, chorar, abraçar pessoas queridas.
Quando a maré está cheia, o mar bate nas pedras, derruba o que está na frente. É a natureza gritando: “Estou aqui, não me agrida!” Mas, o homem é teimoso, avança pela praia, constrói barreiras e diques caríssimos, proporcionando aos vizinhos a perda de seus terrenos. Lutamos, gritamos, chamamos amigos para nos socorrer. Por conta disso, fui agredida verbalmente por um moço, com quem convivíamos desde o século passado. Vaidoso, agressivo, gritava ao telefone: “Sou isso, sou aquilo; não devemos falar no IMA, na Prefeitura, no governo do Estado; são pessoas que vão nos ajudar a resolver o problema da obra irregular autorizada por um técnico ambientalista”. Perdi um bom amigo, mas não perdi as forças para lutar contra o possível inimigo do mar. São as ondas do Oceano Atlântico destruindo casas, porque o homem agrediu a natureza. A resposta veio “a cavalo”: o outro lado está sendo atingido. Possivelmente, a cara contenção será coberta pela raiva do rio e do mar. No entanto o saldo foi negativo: perdi um amigo de longas datas.
A maré está cheia, a praia linda e a idosa levou outra cacetada da vida. Um parente próximo traiu os irmãos e o próprio pai. A velhinha chorou, procurou conversar com traidor; nada foi resolvido. Procuraremos a justiça dos homens. Se não der certo, virá a justiça de Deus, que é dura e reconhece os culpados.
Veio a maré seca. Com ela, boa notícia. Uma neta querida está viajando para os Estados Unidos. Vai fazer mestrado em Harvard. Liga para a velha avó, feliz e contente: “Vó meu curso vai começar, reze por mim, consegui duas bolsas de estudos”. E a velhinha chora de alegria.
Com a maré seca, outra boa notícia: três netos se encontraram em Miami e contentes, lembrando de mostrar em vídeo aos dois velhinhos que estão juntos. Peço a Deus que os abençoe!
Lá vem a maré cheia e com ela um novo problema: um ex-parente está muito doente e os três filhos choram ao lado dele, acompanhando seu sofrimento.
Na vida funcional sempre houve grandes lutas. Homens públicos, gestores, enxergam somente seus umbigos. Pensar na vida dos servidores não está na programação dos parlamentares estaduais. Só nos resta falar, gritar, chamar a atenção da sociedade. Uns dizem: “Não vale a pena, desista”. Mas, no fim do túnel ouço uma voz bem firme gritando: “Insista! Lute!”
No vai e vem das ondas do mar, o que mais assusta a oitentona é a doença. Quando o corpo adoece, a alma fica ferida e torna-se difícil lutar.
Ah! Já ia esquecendo: numa maré alta, o governo do Estado devolveu aos inativos um mês dos 14% que retirou deles desde 2020 e por causa disso, perdeu as eleições municipais. Falta ainda devolver os outros meses.
Meus leitores devem ter percebido que as idas e vindas da vida correspondem às marés. Para sobreviver a tudo isso, a velhinha aprendeu a nadar com quarenta anos.
Deus existe! Não duvidem
Alari Romariz Torres
*Cronista







