1. O gatilho: tarifas como motor de um mercado paralelo
Com a volta da política tarifária de Donald Trump em 2025 — tarifa-base de 10% sobre todas as importações e sobretaxas de entre 25% e 50% para setores estratégicos —, empresas e governos estrangeiros iniciaram uma corrida para se proteger.
Nos EUA, onde o lobby é legal, regulamentado e parte integrante da política, essa reação significa uma verdadeira temporada aberta para os lobistas.
2. Um mercado movido por oportunidades
Cada tarifa cria um incentivo econômico imediato: encontrar caminhos para exceções, reduções ou prorrogações. Escritórios de advocacia, consultorias de comércio internacional e ex-funcionários do governo americano são os atores mais procurados para essa tarefa.
Lá, lobistas têm acesso direto a comitês-chave do Congresso e agências federais como o USTR (United States Trade Representative), além de experiência em traduzir demandas empresariais em argumentos políticos.
3. Quem já está no jogo em 2025
Canadá
•O governo canadense contratou o Steptoe & Johnson LLP, escritório de Washington especializado em disputas comerciais e conhecido por atuar em casos da Organização Mundial do Comércio (OMC).
•A missão é defender a indústria de alumínio e o setor automotivo canadense, vitais na relação bilateral e fortemente expostos às tarifas americanas.
Índia
•A Confederação da Indústria Indiana (CII) registrou contrato com a Hogan Lovells US LLP, uma das maiores firmas de advocacia internacional, para evitar sobretaxas sobre produtos farmacêuticos e de tecnologia da informação.
•O foco é garantir isenções setoriais e reforçar a imagem da Índia como fornecedor estratégico para contrabalançar a dependência americana da China.
China
•Diversas empresas chinesas, incluindo gigantes do setor eletrônico, contrataram a Sidley Austin LLP, que tem histórico em casos de litígios comerciais internacionais.
•Pequim também acionou o Capitol Counsel LLC, grupo de lobby com fortes conexões no Partido Republicano, para tentar influenciar negociações de tarifas sobre veículos elétricos e semicondutores.
Europa (União Europeia)
•A Comissão Europeia mantém contrato com a Arnold & Porter Kaye Scholer LLP, tradicional defensora de interesses europeus em disputas comerciais, especialmente nos setores de aeronáutica, vinhos e queijos.
•Fabricantes automotivos alemães reforçaram suas equipes em Washington por meio da BGR Group, uma das consultorias de relações governamentais mais influentes, para tentar minimizar impactos sobre veículos de luxo.
4. O caso brasileiro: presença tímida, desafio grande
O Brasil, com seu pacote de R$ 30 bilhões para apoiar empresas exportadoras, ainda não anunciou oficialmente a contratação de lobistas de peso em Washington. Historicamente, a ação brasileira é mais diplomática e menos centrada no lobby registrado, mas essa abordagem pode deixar o país atrás de concorrentes que já estão negociando diretamente com decisores no Capitólio.
5. A ironia política: Eduardo Bolsonaro como solução ?
Diante desse mercado, é possível imaginar cenários improváveis, mas factíveis. Se Eduardo Bolsonaro, com seus contatos no campo republicano e proximidade com aliados de Trump, fosse capaz de abrir portas para setores exportadores brasileiros, até o governo Lula poderia considerar contratá-lo — não por afinidade ideológica, mas por pragmatismo comercial.
Nos EUA, lobistas atuam para quem os contrata, independentemente de convicções políticas. E, no xadrez econômico global, interesses convergentes podem unir adversários temporariamente.
6. Parallelos históricos da pragmática sobre ideologia
•Henry Kissinger: serviu a governos republicanos, mas assessorou líderes de diferentes espectros ideológicos.
•Tony Blair: ex-primeiro-ministro trabalhista britânico que atuou como consultor para governos conservadores e monarquias.
•Brasil–EUA: mesmo em períodos de fricção política, acordos comerciais e cooperação técnica avançaram quando havia interesse econômico mútuo.
7. Por que o lobby é inevitável nesse cenário
No contexto das tarifas, o lobby oferece:
1.Acesso aos formuladores de política comercial.
2.Rapidez para colocar temas na pauta legislativa.
3.Narrativa que conecta interesses estrangeiros a benefícios internos para os EUA — condição essencial para qualquer flexibilização.
8. O risco de ficar de fora
Países que não entram no jogo perdem espaço rapidamente. Setores inteiros podem ser substituídos por concorrentes que já estão atuando politicamente. As tarifas de Trump não são apenas barreiras comerciais — são também filtros de competitividade política.
9. Conclusão
A temporada de lobistas em Washington é mais que um efeito colateral das tarifas de 2025: é um mercado paralelo bilionário, movido por influência, informação e velocidade.
Enquanto Canadá, Índia, China e Europa já têm equipes operando em tempo real para proteger seus interesses, o Brasil ainda avalia como gastar seus R$ 30 bilhões.
Se não agir com a mesma rapidez e profissionalismo, poderá assistir ao espaço de seus produtos nos EUA ser ocupado por quem, além de competir no preço, sabe competir nos bastidores do poder.